Por Francisco Costa

O título é-lhe familiar? Hoje falamos de um filme inspirador e emotivo, de 2010, O Caminho, cujo nome original é The Way. Esta longa-metragem foi produzida por David Alexanian e Emilio Estevez, rodada em Espanha e a língua predominante é o inglês, com alusões pontuais a outras línguas, naturalmente. A quantidade avassalante de nacionalidades, de peregrino em peregrino, dá uma cor fresca e complexa a uma história, só por si, impressiva. Ademais, há um interesse acrescido pelo facto de o produtor Emilio Estevez também ter assumido um papel preponderante na obra como ator, representando o filho (Daniel) da personagem principal, interpretada por Martin Sheen (Tom). De facto, para além do papel de produtor e ator, também acumulou as funções de diretor e guionista desta rodagem.

A relação pai-filho, como retratada no filme, ou maternal, não é apenas fruto de momentos constantemente positivos. Todos conseguimos testemunhar nas nossas vidas períodos em que não soubemos ser gratos o suficiente para os nossos pais e as nossas mães, dar-lhes palavras de apreço por ações que tiveram para connosco, aquele abraço bem apertadinho…É hora, pois! É hora de sararmos as feridas antigas remanentes, pois um presente renovado ajuda imenso a construir um futuro mais risonho. Podemos dizer que o presente é um esboço do futuro, já possuinte das nossas raízes, que mais tarde também se manifestarão. 

Além disso, é fácil pensarmos como um pai reage quando o filho lhe profere pessoalmente as seguintes palavras: “Não escolhemos a nossa vida, pai. Vivemo-la.” [traduzido pelo próprio] (fala de Daniel no princípio do filme). Talvez incompreensão…indignação…entre outros sentimentos similares. Tom sempre assumiu querer ver o seu filho prosperar na universidade, em detrimento da sua liberdade individual de viajar pelo mundo. Pelo contrário, Daniel assumiu-se desde cedo como alguém que encarnou a vontade jovem e destemida de viajar por um mundo riquíssimo em cultura e património. Mas a vida não se prende apenas com a intelectualidade académica, mas também com as experiências espirituais e de ir-à-descoberta que Deus nos dá a oportunidade de saborear ao som do vento.

Um outro apontamento curioso do filme é a paisagem verbal descrita pelo polícia da esquadra de Saint-Jean-Pied-de-Port (a comuna francesa desde onde os peregrinos iniciam a caminhada) para Tom no começo da longa-metragem, que é simples, mas bem conseguida: a definição de Peregrinação de Santiago de Compostela pelo trajeto francês. No contexto do filme, Tom, descrente e pesaroso pelo sucedido recente na sua vida, recebe um abrir-de-olhos valente. Portanto, esta descrição torna-se um ponto de viragem decisivo para o pai de Daniel: “As pessoas de origens, crenças e gerações muito distintas percorrem o caminho desde aqui, os Pirenéus franceses, até Santiago de Compostela” [traduzido pelo próprio]. Quanto a este respeito, podemos afirmar que se trata de um filme com passagens de mapas de todo o percurso, o que nos leva a fazermos também uma espécie de peregrinação virtual e dá-nos coragem e incentivo a seguirmos as pisadas de Tom e seus amigos. As imagens são muito vívidas, as paisagens belíssimas e parece que somos empurrados pelo cansaço das personagens, chegando ao ponto de nos arrepiarmos um pouco com o esforço físico das mesmas.

Finalmente, gostaria de partilhar a música da banda sonora que, para mim, fez mais sentido após ver este drama/aventura: Thank U, da inconfundível e talentosa Alanis Morissette. É evidente que há outras músicas pertencentes à banda sonora que também são boas, de bandas e artistas como Coldplay (Lost!), David Gray (My Oh My), entre outros. Porém, a decisão assentou muito na letra da canção: “Obrigado, terror/ Obrigado, desilusão/ Obrigado, fragilidade/ Obrigado, consequência/ Obrigado, obrigado silêncio”. Trata-se de uma tradução minha, pois a letra original inglesa é facilmente pesquisável e assim poderei explicar melhor o seu significado. Segundo consegui decifrar pela letra, Morissette, através de evocações de gratias, agradece a sua viagem à India e todos os percalços que teve nessa jornada, pois a sua superação tornaram-na mais forte (o terrordos infortúnios; a desilusão enquanto símbolo de um certo sofrimento interior; a fragilidade, um sentimento de que o Homem é uma “formiga” no universo; a consequência dos nossos atos e o silêncio como um modo de meditação, discernimento, assim como um receio de ausência de som). Esta música passou precisamente após uma cena que tocou Tom profundamente e, para mim, simboliza todas as pedras que deixamos pelo caminho, todos os carimbos que registamos de paragem em paragem, todas as orações que devotamos a Jesus, a Maria e aos Santos, cujas vidas nos marcaram e marcam de forma especial. Que saibamos olhar para dentro, com o auxílio dos nossos pensamentos e preces, e discernir todos os momentos, entregando a Ele por inteiro a nossa vida.

Ligação da música Thank U:

 https://www.youtube.com/watch?v=OOgpT5rEKIU

Ligação da banda sonora completa do filme:

https://www.imdb.com/title/tt1441912/soundtrack