A Pastoral do Ensino Superior é coordenada e ligada em Portugal pelo Conselho e Serviço Nacional de Pastoral do Ensino Superior.

Fica a saber mais sobre a realidade da pastoral do ensino superior nas juntos das Universidades e Escolas Superiores em Portugal AQUI.

Estas linhas que se apresentam a seguir, são traços gerais que orientam a ação pastoral. Escritas em 2011 traçam propostas e caminhos que queremos fazer.

Nota Introdutória

O presente texto teve por base o Documento PERSPECTIVAS E ORIENTAÇÕES do SNPES (aprovado em 29 de Setembro de 2003) e considerou fundamentalmente a reflexão que foi acontecendo nas várias reuniões do Conselho Nacional do SNPES ao longo destes últimos anos. A tudo isto juntam-se as reflexões resultantes dos trabalhos realizado nos ‘meeting-points’ do Encontro Nacional do SNPES, que decorreu em Fátima nos dias 8 e 9 de Outubro de 2010.

Estas ‘linhas orientadoras’, considerando a história rica que nos antecede, pretendem ser mais um contributo para que a Pastoral no Ensino Superior em Portugal seja cada vez mais uma proposta estruturante e evangelizadora das vidas de todos aqueles que hoje cruzam o ‘mundo universitário’.

Importa esclarecer que estas ‘linhas orientadoras’ não são um plano de acção, nem um directório, nem um programa pastoral. Trata-se fundamentalmente de um ‘referencial’ que exigirá sempre um trabalho posterior de aprofundamento, sempre inacabado, e de concretização na realidade própria de cada Diocese.

I. Sintomas: dificuldades e oportunidades

1. O Ensino Superior compreende o Ensino Público ou Privado, podendo ser Universitário ou Politécnico, e outras Instituições de Ensino Superior reconhecidas pelo Estado. Todas estas estruturas constituem «espaço» onde a Pastoral se insere e actua como ‘fermento’.

2.Nestes últimos anos houve uma mudança acentuada do Ensino Superior em Portugal que criou novos contextos e desafios à Pastoral do Ensino Superior. Destacamos em especial o aumento e a diversidade de instituições de ensino e sua disseminação por todo o território nacional; o desaparecimento, depois deste aumento inicial, de algumas destas instituições; a alteração do financiamento do Ensino; o aumento das propinas; as carências económicas que se sentem cada vez mais junto dos alunos; o processo de Bolonha; a reestruturação de muitos cursos; a maior mobilidade de estudantes (dentro e fora do país); a diversificação da população estudantil quer nas faixas etárias quer nas expectativas, muito ligado ao acréscimo de trabalhadores-estudantes; e as novas exigências na carreira docente e a precariedade de vínculo à Instituição.

3.A massificação do Ensino Superior permitiu aumentar o número de oportunidades de vida e de experiências a todos os seus frequentadores mas criou, também, um conjunto de novas realidades. Particularmente relevantes são: o horário de actividades lectivas, onde o pós-laboral assume progressivamente maior relevância; e a necessidade de responder a um crescente número de apelos psico- afectivos, decorrentes de maior solidão e desenraizamento.

4.No Ensino Superior a manifestação da fé está muito caracterizada pelo subjectivismo, pelo relativismo e por um difícil dinamismo comunitário devido ao forte individualismo ‘reinante’. Há necessidade, por isso, de estabelecer continuidade das diversas experiências de fé, especialmente a catequese, na passagem para o Ensino Superior. Esta passagem pode dificultar a vivência da experiência comunitária. Contudo, este contexto do Ensino Superior revela algumas oportunidades, nomeadamente a inquietação de ‘querer saber mais’. Por isso, é importante que a Igreja olhe mais atentamente para esta realidade académica – sempre em permanente mudança – procurando respostas mais adequadas.

II. Finalidade

5. «A Pastoral do Ensino Superior é expressão da solicitude da Igreja para com o meio universitário e do ensino superior em geral. Insere-se na dinâmica eclesial de encarnação e presença no mundo que, no seu núcleo é cultura, no seio da qual surge e se desenvolve o meio escolar dos diversos níveis de ensino. Tal acção pastoral tende, por isso, a promover e dinamizar, na variedade das suas expressões, tudo o que serve à realização do diálogo e da síntese entre a fé e a cultura» (Documento de PERSPECTIVAS E ORIENTAÇÕES do SNPES, aprovado em 29 de Setembro de 2003).

6. Este objectivo geral concretiza-se:

a) na procura da consolidação integral da pessoa na formação da sua consciência cristã (cf. Gaudium et Spes 16), no criar “espaços” de encontro com Jesus Cristo, na vivência comunitária da própria fé e no acolhimento afectivo e humano daqueles que têm, cada vez mais, experiências de vida fragmentadas e fragilizadas – a começar na própria família;

b)no diálogo gradual de inculturação não só os paradigmas poético e artístico, mas também os grandes axiomas e valores, apelando à dimensão da contemplação e de construção perante o ‘belo’, o ‘bem’ e a ‘verdade’;

c) na dinamização do diálogo e da síntese progressiva e gradual da fé-razão: quer integrando os que têm uma vivência cristã anterior, quer, procurando ser porta de entrada para a fé por meio do primeiro anúncio, porque a «fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral» (Caritas in veritate, no 9);

page5image16920d) no aprofundamento da experiência de Deus e de evangelização, num dar razões de fé e de esperanças, assumindo o mundo a partir do ensino superior como o próprio espaço da missão do ‘ser cristão’, numa construção que não se limita a actividades pontuais, mas que permita perspectivas mais estruturadas e configuradoras de um itinerário;

e)no re-situar a Igreja no serviço à cultura, como um espaço e um lugar natural, assumindo a origem histórica da Universidade – no contexto eclesial – como uma herança que nos ‘envia’ a retomar o nosso lugar nesse areópago do saber;

f) no re-estruturar a missão e a importância das capelanias nas Universidades civis e procurar promover uma relação mais adequada com algumas Instituições Universitárias do nosso país onde isso ainda não é uma realidade;

g)no criar espaços de diálogo entre os diversos movimentos, grupos e organismos que trabalham no Ensino Superior, incentivando um projecto comum que respeite a identidade e especificidade de cada um, sem esquecer a necessária relação com as comunidades paroquias;

h)no promover uma leitura da realidade do ensino superior na sociedade e actualizar permanentemente essa leitura crítica e construtiva à maneira da leitura dos ‘sinais dos tempos’ (Gaudium et Spes 4, 11);

i) nas diversas situações de carência social, estando atento às situações mais dramáticas e difíceis, particularmente referentes a propinas, alojamento ou alimentação, procurando respostas criativas que envolvam a comunidade académica;

j) na abertura ao diálogo inter-religioso, ecuménico e com não- crentes, considerando especialmente os alunos vindos de outros países, promovendo a diversidade e o respeito pela interculturalidade mesmo com aqueles que fizeram a sua iniciação noutra religião;

k)por último, no promover e incentivar o acompanhamento pessoal e espiritual nas diversas situações e momentos da vida, desde a vivência dos diversos sacramentos, passando pelas experiências de luto e frustrações, até à ‘sede de Deus’.

III. Destinatários e Parceiros

7. A especificidade pastoral deste trabalho envolve os estudantes (no primeiro, segundo e terceiro ciclo de estudos), os docentes, os funcionários e os investigadores.

8. Nesta linha, esta pastoral, a nível local, tem de se articular com os vários organismos, associações, movimentos e grupos que tenham o mesmo âmbito pastoral, sem nunca perder a vinculação à Diocese.

9. A Pastoral do Ensino Superior não pode ignorar o diálogo com as diversas associações, organismos e grupos que estão presentes neste meio (por exemplo, as associações e núcleos de estudantes; as estruturas ligadas aos docentes, investigadores e funcionários; e os serviços sociais).

10. É importante ainda estabelecer relação com as outras dimensões da pastoral (com particular atenção à pastoral da cultura e juvenil sem esquecer a catequética e a vocacional); com as Instituições de Ensino Superior de inspiração católica (especialmente com a Universidade Católica); com as paróquias; com os estudantes e professores do secundário (nomeadamente com os de EMRC).

IV. Agir para construir o Reino

11. Evangelizar implica um reconhecimento ao ponto de encarnar a realidade ‘que se quer amar’. Para tal, a criatividade e as novas linguagens são essenciais para alcançar o objectivo de levar a Boa Nova a um Ensino que também se deseja ‘superior’ numa perspectiva cristã.

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12. Face à indiferença urge apresentar propostas no Ensino Superior, que tenham em conta o diálogo entre as várias áreas do saber, numa lógica de universalidade/universidade própria da formação integral da pessoa humana constitutiva deste ‘lugar teológico’.

13. É necessário ainda envolver articuladamente estudantes, docentes, funcionários e investigadores, sublinhando as consequências sociais, culturais, políticas, económicas e religiosas, que se apontam como desafios à criação de projectos e ideias, como o voluntariado, a entreajuda, a solidariedade e o associativismo.

14. Em todo este ‘agir para construir o Reino’ nunca podemos esquecer que no essencial a pastoral no Ensino Superior implica a busca da verdade do Homem, a partir das ‘duas asas’ (cf. Introdução à Fides et Ratio), que são a Fé e a Razão, num voo que nos leve cada vez mais longe e mais alto – até tocar a eternidade que habita cada ser humano.

Todos estes desafios pastorais carecem de uma releitura e de uma operacionalização a partir da realidade própria de cada um. Nesta atitude importa assumir uma linguagem capaz de ‘dizer bem’ e um dinamismo que seja progressivo. Aqui a capacidade, a avaliação e o envolvimento podem ser determinantes.

Conscientes da comunhão trinitária, pedimos ao Pai, através do Filho, que pela acção do Espírito Santo, seja o grande dinamizador de todo este trabalho. Pedimos ainda que Nossa Senhora de Fátima como discípulo fiel que acolhe o eterno nas suas ‘entranhas’ seja a nossa referência neste sermos ‘peregrinos do eterno’.

Fátima, 5 de Fevereiro de 2011

Publicado a 3 de Julho 2011

SERVIÇO NACIONAL DA PASTORAL DO ENSINO SUPERIOR

CONFERÊNCIA EPISCOPAL PORTUGUESA