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MARIA, MÃE DA MISERICÓRDIA E MODELO DO DISCÍPULO

 

MARIA, MÃE DA MISERICÓRDIA E MODELO DO DISCÍPULO

 

  1. Maria, mãe da misericórdia

 

A Sagrada Escritura e a Igreja falam da misericórdia divina quer em termos abstratos, quer em imagens, uma das quais é Maria; aquela que é imagem da Igreja, a imagem mais perfeita da misericórdia divina e um modelo da misericórdia humana e cristã. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença do olhar misericordioso.

São poucas as passagens na Sagrada Escritura que se referem a Maria, mas elas evidenciam que à mãe de Jesus corresponde uma posição importante e um significado singular na história de Deus com os seres humanos. No Novo Testamento temos dois textos que constituem um sólido fundamento para a espiritualidade mariana: a cena da Anunciação (Lc 1,26-38) e o episódio de Maria ao pé da cruz (Jo 19, 26ss). Maria tem um lugar e uma missão singulares ao lado e ao serviço de Cristo, da Igreja e da humanidade.

Maria recapitula no Magnificat toda a história da salvação, descrevendo-a como uma história da misericórdia de Deus. «A sua misericórdia se estende de geração em geração» (Lc 1,50). Com a eleição e vocação de Maria para ser a mãe do Salvador, esta história entra na sua fase definitiva. Deus, movido por infinita compaixão, leva a cabo o decisivo e definitivo intento de salvar o seu povo e a humanidade. Maria é escolhida para participar nesta grande obra de redenção. Ela «achou graça diante de Deus» (Lc 1,30). Isto significa que em si mesmo ela não é nada em absoluto, tudo o que é deve-o à graça. Não é mais que «a escrava do Senhor» (Lc 1, 38). A glória não lhe pertence a ela, mas é exclusiva de Deus, para quem nada é impossível (Lc 1,37). Daí que Maria proclame: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador… Porque o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o seu nome» (Lc 1, 46-55).

Porque vive exclusivamente da graça, Maria vive também «somente da fé». Converte-se em instrumento da compaixão de Deus através do sim crente, com o qual responde à mensagem do anjo, que ao princípio a surpreende, e para ela incompreensível, e que ultrapassa tudo o que possa imaginar. É então que se define como a «serva do Senhor» para significar a sua total disponibilidade para colaborar na obra da salvação realizada pelo Menino que vai nascer.

Nela está a promessa divina e a realização desta mesma promessa. Através do sim obediente, Maria possibilita a vinda de Deus a este mundo e converte-se na mãe de todos os viventes. Em virtude deste sim obediente, Maria torna-se a serva da misericórdia divina, escolhida e cheia de graça por Deus. O facto de que Deus a tenha escolhido e cumulado dos seus dons, significa que Maria, enquanto ser humano e simples mulher, é a melhor imagem da misericórdia divina, que ultrapassa todas as suas expectativas e todas as pretensões humanas. Vincula-se ao Filho não somente com laço biológico, mas pela fé, e procura que outros façam o mesmo. No Magnificat, o canto da misericórdia, Maria não só antecipa as bem-aventuranças aos pobres, aos perseguidos no Sermão da Montanha (cf. Mt 5,2-12), como as experimenta na sua própria pessoa. Este canto é a expressão ápice da opção preferencial de Deus pelos pobres: Deus “derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes”.

Maria também teve de realizar a sua peregrinação da fé. Na sua vida – tal como a narram os Evangelhos, não há nada de extraordinário – contemplamos a vida normal de uma família. Ela teve de suportar durante a sua vida diversas dificuldades e tribulações: o nascimento do seu Filho num presépio improvisado; a fuga para o Egito para salvar o seu Filho; a procura de Jesus quando ficou aos doze anos em Jerusalém; a incompreensão da vida pública e que desejava trazer novamente de regresso a casa e, por fim, o estar junto da cruz de Jesus. Então, suportou junto do seu filho a mais escura noite da cruz: «Junto à cruz está sua mãe» (Jo 19,25). Ao contrário dos apóstolos, Maria não foge.

Antes de declarar consumada a obra que o Pai lhe havia confiado, Jesus confia a João Maria como mãe, e confia a Maria o seu discípulo João como filho (cf. Jo 19,26). Em João, Jesus confia a Maria todos os discípulos como filhos e a todos eles dá Maria como mãe. O Concílio Vaticano II formulou, da seguinte forma, esta convicção de um imenso número de cristãos: «Com o seu amor materno cuida dos irmãos do seu Filho, que ainda peregrinam e se encontram entre perigos, até que sejam conduzidos à pátria bem-aventurada» (LG 62).

Se Jesus é o rosto da misericórdia, Maria é a Mãe da Misericórdia, porque é a Mãe da divina graça: é Mãe de Deus, autor da graça, Mãe do Redentor, e está associada mais intimamente do que ninguém ao Calvário, à obra da redenção. Maria resume em si os principais mistérios da nossa fé. Nela resplandece a imagem do homem novo, redimido e reconciliado, e do mundo novo e transfigurado. Maria ensina-nos que o evangelho da misericórdia divina em Jesus é o melhor que podemos dizer e o mais belo que pode existir, porque é capaz de nos transformar e de transformar o mundo através da glória de Deus. A vocação de Maria é como um espelho para a vocação cristã.

 

  1. Maria, modelo do discípulo

 

O discípulo de Jesus é aquele(a) que ouve o seu apelo, segue-o e aprende com ele no caminho da vida. Ao olhar para Maria, somos chamados a compreender a grandeza do discipulado, que passa pela abertura do coração ao projeto de adesão a Cristo e à proposta do seu Reino. Maria é a primeira discípula. Viveu toda a peregrinação da fé como mãe de Cristo e depois dos discípulos.

O evangelista São Lucas apresenta Maria como o protótipo do seguidor de Jesus; mostra-nos como, a partir do seu sim, ela acolhe, pela fé, fazer parte do projeto divino. Colocou-se totalmente à disposição do projeto salvífico de Deus. Acreditou naquele que a chamou e colocou-se como discípula do Mestre; como alguém disponível ao serviço: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,37). Pelo seu testemunho de escuta da Palavra de Deus, de oração, e de pronta e fiel disponibilidade ao serviço do Reino até à cruz, ela tornou-se o exemplo do verdadeiro seguidor de Jesus. O próprio Jesus enaltece a sua mãe como ouvinte da Palavra, que a torna membro da grande família espiritual que é a Igreja: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam a Palavra de Deus e a cumprem» (Lc 8, 18-21) e «Felizes antes aqueles que escutam a Palavra de Deus e a guardam» (Lc 11, 27-28). Com a sua vida, a sua obediência e a sua proximidade junto a seu Filho, é a perfeita discípula e modelo de seguimento para todos nós, e uma escola de fé: «Fazei tudo o que Ele vos disser». Mais ainda, não se exaltou por ser a mãe de Jesus; colocou-se ao serviço dos ensinamentos do seu filho Jesus. Maria, nas palavras de Santo Agostinho, «cumpriu perfeitamente, a vontade do Pai, e, por isso, Maria é maior por ter sido discípula de Cristo do que por te sido mãe de Cristo; mais ditosa é Maria por ter sido discípula de Cristo do que por ter sido mãe de Cristo».

Permanecendo junto dos apóstolos à espera do Espírito (cf. At 1, 13-14), Maria cooperou com o nascimento da Igreja. Também ela recebeu o Espírito do Pentecostes para realizar a sua missão na Igreja, mesmo sem receber a missão apostólica. A sua relação, a sua obediência, a sua humildade e a sua fé firme, inabalável, dá-nos a conhecer o que significa seguir a Jesus – o horizonte da Igreja.

 

  1. A Mensagem de Fátima e a Misericórdia

 

O Deus Trindade que é Amor

 

A realidade do Amor trinitário constitui o núcleo à volta do qual se desenrola toda a mensagem e a vida dos pastorinhos.

O Deus cristão é Trindade que ama e que convida a amar, porque oferece a capacidade de amar.

A presença de Deus torna-se, para os pastorinhos, percetível no meio da descrença, da falta de amor e dos ultrajes contra Deus.

            A Beata Jacinta manifestou uma sensibilidade profunda diante de Cristo Crucificado, que suscitava nela um intenso amor: ela gostava de beijar o Crucificado como gesto de agradecimento “porque morreu por nós”, dizia. Ela sentia-se protagonista de uma história de amor. Agradava-lhe dizer a Jesus que o amava (I, 56); por isso, procurava a solidão para “estar muito tempo sozinha, a falar com Jesus escondido” (Memórias I, 55).

O Beato Francisco expressou a sua alegria face à contemplação do Anjo: “Gostei muito de ver o Anjo, mas gostei ainda mais de Nossa Senhora. Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!” (M IV, 141[1]). Francisco estava tão profundamente penetrado pela beleza do Amor, que foi o que ficou menos impressionado com a visão do inferno, pois o que realmente o afetava era ver-se absorvido por Deus, pela Santíssima Trindade: “nessa luz imensa que nos penetrava no mais íntimo da alma” (M IV, 145).

A vida da Lúcia teve uma missão peculiar: transmitir a todos o amor de Deus manifestado no Imaculado Coração de Maria (M III, 130). Ela vai desenvolver a experiência da Trindade como amor que se comunica e como Amor que constitui o próprio ser de Deus, no qual ela vai encontrar o seu “mais belo recreio” (M 57[2]). Esse Deus é o único digno do seu amor, e ela deve pagar-lhe com o mesmo amor com que Ele a amou (M 21). Não se trata simplesmente do poder infinito ou do ser imenso de Deus, mas desse “mistério do amor dos Três por mim” (M 44); só esse amor “nos pode levar a mergulhar no imenso Ser de Deus, a ser um com Deus” (M 32).

O cerne da mensagem de Fátima é graça e misericórdia. Em Maria, encontramo-nos com o Filho, com o Pai e com o Espírito Santo, e da mesma forma com os irmãos. Este amor trinitário não pode deixar de se traduzir em amor aos irmãos, que se concretiza em gestos múltiplos de renúncia aos próprios bens ou às próprias conveniências em favor dos mais pobres ou necessitados. Se Deus é amor, e se a vida e a felicidade consistem em amar, o pecado consiste em deixar de amar e, por isso, “abrimos uma lacuna no amor” (A 255[3]). A necessidade dos outros e as “lacunas do amor” justificarão o oferecimento da própria vida, para assim travarmos o mal no mundo em que vivemos.

 

A misericórdia no testemunho dos pastorinhos

 

A ‘melodia’ que acompanha a mensagem de Fátima é esta: «Lá porque uns se obstinam no mal», dirá Lúcia (A 146), o Deus misericordioso revela o mistério de um Deus que não desiste de amar os homens, apesar do seu pecado.

A misericórdia é o fio condutor das aparições do Anjo e de Nossa Senhora em Fátima. O protagonismo da misericórdia está vinculado ao Imaculado Coração nos momentos mais decisivos.

Na primeira aparição do Anjo, em 1916, foi dito aos pastorinhos que «os corações e Jesus e Maria estão atentos à voz das suas súplicas» (M IV, 169) porque, dirá na segunda aparição, «têm sobre eles desígnios de misericórdia» (M IV, 170). A missão e o testemunho dos pastorinhos encontram-se, portanto, ao serviço da misericórdia porque vivem dela. A capacidade de amar destas crianças foi tão grande que chegou ao excesso de se oferecerem a Deus para vencer os horrores do mundo.

Na aparição de Nossa Senhora, em julho, e depois de mostrar o inferno e as situações infernais deste mundo, é feita uma referência ao Imaculado Coração de Maria para impedir o triunfo do mal. Sobre o pano de fundo do negativo, do perigo do Inferno, ouve-se a voz da esperança: «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará» (M IV, 177). No coração de Maria condensa-se o amor que não pode ser destruído por nenhum pecado, nem sequer pelo Inferno. Lúcia compreende que esse Imaculado Coração «seria o seu refúgio e o caminho que a conduziria até Deus» (M III, 125).

Na última das aparições a Lúcia, em Tuy, vê-se uma cruz de luz: sob o braço direito da cruz, estava Nossa Senhora de Fátima com o seu Imaculado Coração, e sob o braço esquerdo podia ler-se “Graça e Misericórdia”. Esta imagem é como que a síntese da Mensagem de Nossa Senhora em Fátima: a revelação do mistério da Santíssima Trindade é o amor de Deus derramado sobre a humanidade.

Deus-Trindade e Imaculado Coração constituem o núcleo central da experiência que os pastorinhos tiveram desde o início das aparições do Anjo e de Nossa Senhora. Estão presentes na mesma lógica, no mesmo esplendor, na mesma luz, na mesma beleza. “Imaculado” designa a pureza, a integridade que vive da santidade do Deus trinitário e pascal. A Virgem Maria é reflexo da misericórdia de Deus e a sua expressão; por isso, ela é invocada como a Mãe de misericórdia, a Senhora de Fátima ou o Imaculado Coração de Maria.

«Os três pastorinhos mostraram-se dispostos, pela boca de Lúcia, a serem louvor da glória de Deus e a entregarem-se plenamente aos desígnios de misericórdia que Deus manifestava através das aparições» (Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima, dezembro 2016). A Jacinta, antes de morrer, tal como refere Lúcia nas suas Memórias, tinha visto como sua missão ser testemunha da misericórdia (M III, 131). Maria dá-nos também olhos e coração para contemplar a ternura e a misericórdia de Deus, oferecendo o amparo maternal com que confortou a Lúcia: “Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus” (M 175). Rezai: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos… Santíssima Trindade, Pai Filho e Espírito Santo

 

  1. Algumas interpelações à nossa Diocese de Aveiro

 

A devoção a Nossa Senhora nasceu no seio da comunidade cristã como consequência da crescente compreensão do mistério da Encarnação do Filho de Deus. Deus revela-se na pessoa de Maria, chamando-nos a construir uma sociedade nova.

As Aparições de Nossa Senhora em Fátima são um acontecimento extraordinário para a Igreja e para o mundo. «Em sintonia com a piedade do nosso povo e sob a iluminação do Espírito Santo, nós, os bispos, sentimos a responsabilidade de aprofundar o significado deste acontecimento, de destacar a sua atualidade para a nossa vida cristã e de explicitar as suas potencialidades para nutrir a nossa conversão espiritual, pastoral e missionária» (Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima, dezembro 2016).

Maria torna-se para nós um ícone de quem nos indica que somente em Cristo está a plenitude da vida. A “cheia de graça” é o nosso exemplo e nossa intercessora. Nós não adoramos Maria – somente Deus merece a nossa adoração – mas veneramo-la enquanto a criatura mais perfeita que saiu das mãos de Deus e instrumento dócil nas suas mãos. A honra que lhe tributamos conduz naturalmente à adoração de seu divino Filho e à comunhão com o Deus amor.

A todos os que querem continuar a seguir Jesus, Ela mostra-nos a meta:

 

1ª Deus, como única causa

Em 1916, o Anjo apareceu aos pastorinhos e, após se ter identificado como o Anjo da Paz, ajoelhando-se em terra, curvou a fronte até ao chão e rezou por três vezes: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos; peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram e não Vos amam»;

Na aparição de 13 de maio de 1917, os pastorinhos, à pergunta de Nossa Senhora se queriam oferecer-se a Deus para repararem os pecados com que Ele é ofendido, caíram de joelhos e rezaram: «Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro!».

Uma das maiores novidades da revelação cristã é Deus sair do anonimato e mostrar o seu rosto na humanidade de Jesus: Se Deus é Pai (Abba) e nós somos seus filhos, é a experiência da filiação que nos leva a afirmar que todos os seus filhos são irmãos. Toda a nossa vida tem a sua fonte num Deus que é Pai e que ama, com amor paternal, todas as suas criaturas.

O amor é o que melhor manifesta a mais profunda identidade de Deus: amor pelo qual o Pai, o Filho e o Espírito Santo se unem entre si e com toda a humanidade. Foi isto que entenderam os pastorinhos ao darem conta da presença de Deus como uma «luz tão intensa, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos» (M IV, 175).

 

2ª A Eucaristia, centro da vida cristã

Na aparição do Anjo, na Loca do Cabeço, foi dada à Lúcia, em comunhão, a Hóstia, e o Sangue do cálice ao Francisco e à Jacinta, afirmando o Anjo: «Tomem e bebam o corpo e o Sangue de Jesus Cristo, horrivelmente ultrajado pelos homens ingratos. Reparem os seus crimes e consolem o vosso Deus».

A Eucaristia é o centro da vida cristã. Assim a compreenderam os pastorinhos e assim devemos vivê-la na nossa vida de cristãos.

O gesto de partir o pão aparece claramente no encontro que S. Paulo teve com a comunidade da pequena cidade de Tróade (cf. At 20). Paulo, na sua última viagem missionária, reúne-se com os irmãos crentes, no primeiro dia da semana, para partir o pão. Se a Eucaristia como fração do pão inclui a exigência interna do serviço fraterno, é porque constitui a recordação e a presença do Senhor ressuscitado, cuja vida e morte têm como principal chave de interpretação o serviço (diaconia) e a existência para os outros.

Todos os domingos, ao celebrarmos a Eucaristia, a Páscoa semanal dos cristãos, Jesus torna-se presente na comunidade cristã e oferece-se em alimento no seu Corpo e Sangue.

Os pastorinhos, à medida que foram aprofundando as mensagens do Anjo e de Nossa Senhora, foram crescendo no amor a Jesus Eucaristia. O grande desejo do Francisco e da Jacinta era receberem a primeira comunhão. A Jacinta, já doente, pede à Lúcia que diga a “Jesus escondido” que gosta muito dele e que o ama muito, enquanto o Francisco o que mais gostava de fazer era estar perto de Jesus no sacrário.

A Eucaristia dominical e a adoração a Jesus na Hóstia consagrada deviam ser para todos os cristãos um desafio a descobrir e a viver, numa fidelidade cada vez maior à Mensagem de Fátima.

 

3ª A vida como missão

Na aparição de treze de maio de 1917, Nossa Senhora pediu aos pastorinhos: «Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores? Estes responderam: Sim, queremos. E Nossa Senhora acrescentou: Vão, pois ter muito que sofrer; mas a graça de Deus será o vosso conforto» (M IV, 173-174).

Este pedido de Nossa Senhora foi cumprido na vida dos pastorinhos. Lúcia dirá que os pastorinhos, «sem se preocupar com os sofrimentos que Deus lhes iria enviar, entregam-se inteiramente à vontade de Deus». O sim dos pastorinhos tem a sua raiz no sim de Jesus à vontade do Pai – «Eis-me aqui, ó Pai, para fazer a tua vontade» (Heb 10,7), e no sim de Maria – «Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38).

A consciência vocacional não nos remete apenas para um horizonte de vida religiosa e consagrada ou o serviço do sacerdócio. Trata-se de uma realidade de fé que faz compreender a vida como dom de Deus e, por isso, vivida como entrega para os outros. Se for apenas pelas forças humanas, corre o risco de se traduzir em ativismo, levando à exaustão. Neste sentido, a oração faz-nos recordar que somos de Deus, que Ele é o nosso Pai e que queremos viver com Ele. Por isso, estar desperto para este horizonte vocacional é um dos sinais mais evidentes da vitalidade da fé e das nossas comunidades.

No Encontro Nacional da Pastoral Vocacional da Conferência Episcopal Italiana, o Papa Francisco afirmou: «Hoje é necessária uma Pastoral Vocacional de horizontes amplos e com o espírito de comunhão, capaz de ler com coragem a realidade assim como ela é, com suas fadigas e resistências, reconhecendo os sinais de generosidade e beleza do coração humano. É preciso levar novamente para dentro das comunidades cristãs uma nova cultura vocacional».

O amor a Maria, mulher atenta às necessidades e mulher de iniciativa, une-nos intimamente a Jesus e abre sempre caminhos novos. Guiados pelo seu olhar misericordioso para com as pessoas e o mundo, voltemos o olhar para a nossa real vocação de discípulos. Viver a vocação ao amor, ao jeito de Maria, é procurar a relação com o outro para o fazer viver, crescer e ser feliz: no matrimónio – marido e esposa, pais e filhos; no ministério ordenado – relação com o presbitério e relação com a Igreja por quem o sacerdote se entrega; na vida consagrada – relação com os irmãos da mesma comunidade.

 

4ª A Igreja, corpo de Cristo e povo de Deus

A diocese de Aveiro está empenhada em descobrir e viver as maravilhas da graça que Deus realizou em Maria. Assim, toda a atividade pastoral será um caminhar com a Mãe da Igreja. No dia 25 de junho, celebraremos o Dia da Igreja Diocesana. A Peregrinação Diocesana a Fátima seja um gesto de gratidão à Mãe enquanto povo de Deus peregrino e o Dia da Igreja Diocesana nos desperte para estar abertos aos apelos de Deus, quer na vida individual, quer na vida eclesial. Que todos saibamos acolher o dom da mensagem de Nossa Senhora de Fátima, vivendo-a e difundindo-a para o fortalecimento da fé, para a renovação da Igreja e a paz no mundo.

Os Corações de Jesus e de Maria estão atentos à voz das nossas súplicas. Por intercessão de Maria, que Deus opere em nós as suas maravilhas.

____________

4 de março de 2017

António Moiteiro, bispo de Aveiro

 

 

 

[1] As Memórias da Irmã Lúcia, vol. I e II, publicadas pelo Secretariado dos Pastorinhos, Fátima 2010, é citado indicando o número romano correspondente a cada uma das seis memórias seguido do número de página.

[2] Como vejo a Mensagem através dos tempos e dos acontecimentos, 3ª ed., Carmelo de Coimbra – Fundação Francisco e Jacinta Marto, Fátima 2015.

[3] Apelos da Mensagem de Fátima, 4ª ed., Secretariado dos Pastorinhos, Fátima 2007.

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