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Missa da Ceia do Senhor | Homilia

Missa da Ceia do Senhor 2017
 

Missa da Ceia do Senhor | Homilia

 1. A eucaristia, memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo

Com a solene celebração da eucaristia desta tarde inicia-se o tríduo pascal, destacando-se nela três temas: a eucaristia, memorial da paixão e morte do Senhor até que Ele venha; o desejo de Cristo de repetir a sua ceia pascal através do ministério sacerdotal; e o serviço do amor materializado no gesto do lava-pés.

A lenta manifestação que Jesus foi fazendo de Si mesmo, primeiro nos diálogos com vários interlocutores e, mais tarde, de modo polémico com os judeus, encontra aqui pleno desenvolvimento na intimidade com os discípulos.

O longo discurso (Jo 13, 17), com carácter de testamento, é dirigido aos discípulos, no qual quer deixar bem constituída a Sua comunidade antes de partir para o Pai e de enviar o Espírito Santo.

O texto da segunda leitura, da Primeira Carta aos Coríntios é, no tempo, o relato mais antigo da instituição da eucaristia. Escrita em Éfeso, durante a terceira viagem missionária de S. Paulo (entre os anos 53-57), responde às questões colocadas ao apóstolo pela comunidade cristã, procurando incarnar o Evangelho na cultura helénica e fortalecer os cristãos na fé em Jesus. Isto é o que deseja o apóstolo Paulo ao narrar, tal como ele a recebeu, a instituição da eucaristia. Também hoje as nossas comunidades cristãs precisam de colocar a eucaristia no centro da sua vida cristã, mas sempre em relação com a Páscoa de Jesus.

Antes de tudo, a última ceia é entendida como refeição, com tudo o que isto comporta. A refeição aponta para o alimento, a união fraterna, a relação da comunhão com Deus – tudo isto está presente quando celebramos a eucaristia.

 

2. A eucaristia e o serviço aos irmãos

Durante a última ceia, Jesus lava os pés aos seus discípulos para, simbolicamente, lhes ensinar o fundamento da comunidade; o serviço aos irmãos e a igualdade fraterna constituem, pois, o fundamento da nova comunidade do Reino. Seria lógico realizar esta purificação antes de se sentar à mesa, mas o evangelista diz-nos que estavam a cear quando Jesus se levantou, cinge-se com a toalha e começa a lavar os pés aos discípulos. Bastará este gesto para lembrarmos a Ceia eucarística, fundamental na nova comunidade, onde a verdadeira dignidade do ser humano reside na entrega aos outros. Esta é a maneira de atuar de Deus, tal como se revelou em Jesus: «Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também» (Jo 13, 14-15).

É uma refeição pascal na linha do que tinha sido a experiência do povo de Deus durante o êxodo do Egito para a Terra Prometida. A referência à Páscoa, no primeiro versículo do Evangelho, recorda os elementos que a constituem: o memorial, a alegria, a renovação da aliança, o louvor, a bênção escatológica e os laços comunitários.

A ceia de Jesus foi de despedida, de solidariedade entre aquele que se despede e os que ficam, e de participação no mesmo projeto salvador. Esta é a última refeição de Jesus antes de inaugurar o Reino, tornando-se iminente a sua consumação. Jesus vai morrer, mas nem por isso a sua confiança vai diminuir: com a sua morte inaugura-se de um modo definitivo o novo Reino, que se inicia na manhã do dia de Páscoa, com a sua ressurreição.

Esta ceia pascal, e também a eucaristia, apontam para a morte de Cristo como morte salvadora, tendo como acontecimento central a morte de Cristo na cruz. É um novo êxodo, uma nova passagem, porque Ele entrega o seu corpo e derrama o seu sangue por nós e pela humanidade. Deus assume, com a morte do seu Filho na cruz, o pecado da humanidade e a atitude de total entrega de Jesus pelos outros – atinge na cruz a sua máxima expressão.

As palavras de Cristo sobre o pão (Tomai e comei isto é o meu corpo) e sobre o vinho (Tomai e bebei este é o meu sangue derramado…) adquirem assim o seu mais profundo sentido na entrega de Jesus por nós. Depois da sua morte, na sua nova vida gloriosa, o Senhor quer continuar dando-se e comunicando-se aos seus discípulos, para que participem da sua vida. Este pão e este vinho, que são o seu corpo e o seu sangue, serão um modo privilegiado de encontro e comunhão com a sua comunidade – uma das exigências mais fortes da eucaristia. Se o pão partido significava sempre para os judeus a comunicação de uma bênção, o próprio Messias vai ser bênção e alimento para os que nele acreditam. A sua morte não vai romper os laços de comunhão, bem pelo contrário, tornará possível uma comunhão mais profunda e universal pela nova presença de Cristo, na doação de si mesmo por meio dos gestos eucarísticos.

 

3. O mistério pascal de Cristo

O mistério pascal de Cristo é a chave que nos abre as portas ao mistério cristão: a pessoa de Cristo, a sua morte e ressurreição, o mistério da Igreja, a vida do cristão e também os sacramentos. Todos os sacramentos provêm da Páscoa, do Cristo pascal que nos incorpora a si mesmo (batismo), nos dá o seu Espírito de vida (confirmação), oferece-se a nós como alimento de vida (eucaristia), torna-nos participantes da sua vitória sobre o pecado e o mal (reconciliação), dá-nos alento nos momentos de dor (unção dos doentes), abençoa o amor do homem e da mulher (matrimónio) e dá à sua Igreja ministros que o representam na comunidade (ordem).

Na Eucaristia Jesus está presente enquanto ressuscitado. É presença verdadeira: Cristo oferece-se por nós. Não é uma figura ou uma imagem ou um sinal recordatório, mas presença real; o pão e o vinho já não são alimento e bebida, mas são o corpo do Senhor (Kyrios) ressuscitado.

Que a celebração da Última Ceia do Senhor, dom grandioso, seja para cada um de nós um momento privilegiado para afirmarmos a nossa fé na presença de Cristo Ressuscitado na eucaristia e vivermos como ressuscitados, caminhando com Cristo vivo e ressuscitado que nos introduz na vida íntima de Deus.

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Catedral de Aveiro, 13 de abril de 2017

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro

 

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