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II Domingo da Páscoa – Ano A

Breve comentário

A ressurreição de Jesus é um acontecimento de ordem sobrenatural. O evangelista João já tinha falado da ressurreição de Lázaro como um sinal de que Jesus era a Ressurreição e a Vida. Mas a ressurreição de Lázaro foi um tornar a viver, um voltar atrás à vida natural para, um tempo mais tarde, voltar a morrer. A ressurreição de Jesus é um passo para a frente: é um vencer a morte para uma vida que não mais acaba. Jesus continua a ser o mesmo, mas de modo diferente, tendo ultrapassado as barreiras naturais e físicas.

É isto que o evangelista João começa por dizer ao apresentar Jesus, que surge no meio dos seus discípulos, estando as portas fechadas.

Jesus veio e pôs-se no meio deles. Agora, Jesus é capaz de se tornar presente para os seus quando ele quer e em qualquer circunstância. A «Paz» não é apenas uma saudação ou um desejo, mas o dom efectivo da paz, conforme Jesus já tinha dito: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz (Jo 14,27). A seguir, faz-se reconhecer, apresentando-se como o mesmo que foi crucificado, com os sinais da morte: o lado, as mãos e os pés. Aquele que se apresenta diante dos discípulos já não é apenas o Mestre, o personagem do passado, mas o «Senhor». Com a sua ressurreição, Jesus demonstrou ser verdadeiro Deus porque é senhor da vida e da morte. Ele já tinha anunciado aos seus amigos que, com a sua visita depois da paixão e morte, o seu coração seria inundado por uma enorme alegria (Jo 16,22). Por isso, os discípulos alegram-se ao verem o Senhor.

«Como o Pai me enviou, também eu vos envio». Jesus, o Enviado por excelência, envia os seus discípulos. O «como» não é uma simples comparação entre dois actos de envio, mas a continuidade intrínseca de uma missão única: o Filho estende aos discípulos a sua própria missão, que ele recebeu do Pai. Para esta missão, Jesus comunica (soprando) aos seus discípulos o Espírito (sopro) Santo, ao mesmo tempo que lhes confere o poder de perdoar os pecados. O poder que é reservado a Deus e a seu Filho é conferido por Jesus aos seus discípulos, na medida em que se trata da mesma missão salvífica.

O reconhecimento de Jesus ressuscitado dá-se sempre no primeiro dia da semana (e «oito dias depois»), assinalado progressivamente como dia do Senhor, quando a comunidade está reunida para fazer a experiência de perceber a presença do Senhor na sua vida, receber a força do Espírito e a paz de Cristo. Quem não está presente, como Tomé, não percebe nem quer perceber o anúncio: «Vimos o Senhor», e quer provas físicas.

A figura de Tomé tem aparecido como modelo de incredulidade e de fé. Mas ele é, sobretudo, o discípulo que, não admitindo o testemunho da comunidade, mantém-se fiel à sua própria convicção, mas cede lealmente diante da evidência. A vida do Senhor ressuscitado escapa aos nossos sentidos, não pode ser tocada com as nossas mãos nem ser vista com os nossos olhos. Só pode ser alcançada através da fé.

Oito dias antes, os dez tinham exultado de alegria e, depois, tentaram convencer Tomé, embora sem sucesso. Era necessária a presença e a palavra do Vivente. O narrador passa ao lado do facto de que o discípulo já não faz questão de estender a mão. Relata a reacção imediata de Tomé: em vez de aceitar a oferta que lhe é feita, ele entra no pensamento de Jesus e faz a sua confissão de fé.

Não precisamos de fé para aquilo que vemos, sentimos fisicamente e que nos aparece com a certeza da evidência física. Por isso aqueles que acreditam sem verem são mais felizes porque têm a fé no seu estado mais puro, isto é, a única Fé. Só assim consegue fazer a verdadeira profissão de fé em Jesus, reconhecendo-o como: «Meu Senhor e meu Deus».

Finalmente, o evangelista lembra aos leitores que o seu livro foi composto «para que, crendo, tenhais a vida em seu nome». Este pequeno texto é a chave de interpretação de todo o evangelho de João. A sua finalidade é universal, conforme a medida do projecto de Deus. O Messias esperado por Israel seria, segundo os profetas, salvador para a humanidade inteira. Narrando o itinerário do Logos feito carne e, depois, do Filho que volta à glória que era sua antes da criação do mundo, o evangelista sublinhou com frequência que o dom da «vida» era destinado por Deus a todos os que, além de todas as fronteiras, creriam no Amor que ele manifestou em Jesus, Aquele que reúne na Unidade os filhos de Deus dispersos.

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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