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XIV Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

Para melhor entender o texto de hoje é bom situá-lo no seu contexto. No evangelho de Mateus, o discurso da Missão, em que Jesus dá instruções aos apóstolos enviados a anunciar o Reino, ocupa todo o cap. 10. Na parte narrativa encontramos incompreensões e resistências: João Baptista e o povo não o compreendem (Mt 11,1-15); as grandes cidades à volta do mar da Galileia não querem abrir-se à sua mensagem (Mt 11,20-24); os escribas e doutores não são capazes de perceber a pregação de Jesus (Mt 11,25), nem os parentes o entendem (Mt 12,46-50). Só os pequenos entendem e aceitam a Boa Nova do reino (Mt 11,25-30). Os outros querem holocaustos, isto é, os animais oferecidos em sacrifício a Deus, mas Jesus quer misericórdia (Mt 12, 8). A resistência contra Jesus leva os fariseus a procurar matá-lo (Mt 12, 9-14). Eles chamam-lhe Belzebu (Mt 12,22-32). Mas Jesus não volta atrás: continua a assumir a missão de Servo, descrito pelo profeta Isaías (Is 42,1-4) e citado por inteiro por Mateus (Mt 12, 15-21).

Na linha deste contexto, Jesus é apresentado como o Messias esperado, mas diferente do que a maioria esperava. Não é o Messias nacionalista, nem um juiz severo, nem um Messias rei poderoso. Mas é o Messias humilde e servo que não quebra a cana já fendida, nem apaga a torcida fumegante.

Encontramos no texto de hoje uma das raras orações de bênção referidas pelos evangelhos, mais ainda, a única, se excluirmos a invocação no Getsémani. À chegada dos seus discípulos que tinham sido enviados em missão, Jesus reconhece publicamente e proclama em louvor e acção de graças que o Pai, na sua livre iniciativa e benevolência escolheu «os pequeninos» como destinatários da revelação. Estes pequeninos são opostos aos «sábios e inteligentes» que, por sua vez, na tradição profética são opostos aos humildes e pobres.

Perante o acolhimento da mensagem do Reino por parte dos pequeninos, Jesus experimenta uma enorme alegria e, espontaneamente, transforma a sua alegria em oração de júbilo e acção de graças ao Pai. Os sábios e doutores daquele tempo tinham criado uma série de leis relacionadas com a pureza legal que impunham ao povo em nome de Deus (Mt 15,1-9). Eles pensavam que Deus exigia todas estas observâncias para que o povo pudesse ter paz.

Mas a lei do amor, revelada por Jesus, afirmava o contrário: o que importa não é o que fazemos a Deus, mas sobretudo o que Deus, no seu grande amor, faz por nós! Jesus, sendo o Filho, conhece o Pai e sabe que o que o Pai queria quando, no passado, tinha chamado Abraão e Sara para formar um povo ou quando entregou a Lei a Moisés para firmar a Aliança. A intimidade com o Pai oferecia-lhe um critério novo que o colocava em contacto directo com o autor da Bíblia.

Jesus convida todos os que estão cansados e promete-lhes repouso. O povo daquele tempo vivia cansado com o duplo peso dos impostos mas também das observâncias exigidas pelas leis da pureza legal. «Tomai o meu jugo sobre vós e aprendei de mim que sou manso e humilde coração».

Ao tempo de Jesus era costume os homens usarem um jugo curvo sobre os ombros para transportar cargas de uma forma equilibrada. Os fariseus comparavam Lei a um jugo glorioso que devia ser levado com alegria. No entanto, a maneira como apresentavam a lei com os seus 613 mandamentos, transformavam-na num jugo pesadíssimo que criava problemas de consciência pelo facto de não se conseguir cumprir tudo de forma perfeita, tornando-se, assim, num jugo insuportável e numa carga pesada. Jesus veio libertar o homem do jugo da lei.

O jugo da vontade de Deus deixou de ser um jugo opressivo e duro, mas gera agora a paz gloriosa prometida aos humildes e mansos, garantia da salvação definitiva. O jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve, não porque não seja exigente mas porque tirou carga legalista. Fazer a vontade de Deus deixou de ser um código ou um sistema moral a interpretar e a seguir, para ser simplesmente seguir Jesus, o Filho, que revela e realiza a vontade de Deus de modo definitivo e pleno.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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