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XVI Domingo do Tempo Comum – Ano A

FETTI, Domenico_La parábola de la cizaña, c. 1622_140 (1979.62)

 

Breve comentário

Continuamos a escutar neste domingo o discurso das parábolas em que é revelado progressivamente o mistério do Reino de Deus ou, na linguagem do evangelista Mateus, do Reino dos Céus. Habitualmente não é feita a explicação das parábolas. A parábola do trigo e do joio é uma das poucas, juntamente com a do semeador, que é interpretada. Mas a parábola e a sua interpretação são colocadas em dois contextos, com destinatários diferentes: a parábola é dirigida à multidão enquanto a explicação é dada apenas aos discípulos em casa.

Sem ter em conta a interpretação, é fácil identificar o sentido da boa semente/trigo com a «palavra do reino» (Mt 13,19) da parábola do semeador. Tal como naquela parábola existe um opositor, o maligno, assim na nova parábola há o «inimigo» que semeia o joio, opondo-se, desta maneira, à missão de Jesus que proclama o evangelho do Reino. Ao tempo da comunidade, a parábola constitui uma resposta às dificuldades dos discípulos que constatam as resistências e a rejeição da parte dum grupo crescente de judeus.

A resposta que a parábola dá pode ser resumida assim: a oposição é obra do adversário; bem e mal, crentes e incrédulos coexistem ao longo da história que vai do primeiro anúncio ao juízo definitivo; no tempo intermédio não se podem antecipar o juízo e a separação reservados para o fim e que são da competência do Senhor, único juiz; este é o tempo de crescimento e de actuação da palavra proclamada e acolhida, isto é, o tempo da missão, da paciente e perseverança espera.

Também é fácil estabelecer os pontos de contacto entre as duas parábolas gémeas do grão de mostarda e do fermento. Os elementos narrativos estão dispostos de modo a dar realce ao contraste entre um início pequeno e insignificante e o momento final: o grão de mostarda era conhecido popularmente como a semente mais pequena, podendo tornar-se, em condições ambientais favoráveis, numa árvore de 3/4 metros de altura.

O mesmo contraste está presente numa pequena porção de fermento colocado em três medidas farinha, ou seja, a cerca de 60/70 quilos. Aos judeus que aguardam uma manifestação prodígios e triunfalista do Reino de Deus, o evangelista responde com a história paradoxal destas duas parábolas. A manifestação da realeza de Deus é insignificante, mas a esperança dos discípulos, como a de Jesus, está projectada para o cumprimento final que corresponde às promessas de Deus testemunhadas pelas Escrituras. De facto, quando o evangelista Mateus escreve aos cristãos do seu tempo, já se começam a ver sinais da abertura missionária da Igreja aos povos, preanunciada por Ezequiel (17,22-23) na imagem dos pássaros que se acolhem à sombra da árvore plantada por Deus.

Mateus conclui as três parábolas com uma breve reflexão sobre o significado de falar em parábolas: trata-se da revelação do reino aos crentes (discípulos) e o ocultar do projecto de Deus aos não-crentes (judeus). Este modo de ver corresponde à visão histórico-salvífica de Mateus, apresentada como de costume numa citação bíblica adaptada com liberdade ao contexto. Nas parábolas de Jesus cumpre-se a palavra profética do Antigo Testamento, quer para a forma «em parábolas» quer para o conteúdo, ou seja a revelação do desígnio misterioso de Deus que abraça toda a história salvífica.

Na parte final o cenário muda. Jesus volta a entrar em casa e os discípulos pedem-lhe que explique a parábola do joio. Mas, ao lermos com atenção, verificamos que estamos perante um novo texto que só vagamente tem a ver com a parábola do joio. Pela linguagem usada vê-se que se trata duma catequese tardia adaptada à comunidade cristã de origem judaica, com o objectivo de a incentivar num tempo de desmotivação.

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

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