Pages Navigation Menu

XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Breve comentário

O texto deste domingo faz parte do capítulo 18 que refere o discurso eclesial ou discurso sobre a Igreja na sua concretização numa comunidade. Antes do texto de hoje é apresentada a parábola da ovelha «extraviada», que chama a atenção dos responsáveis da comunidade para o cuidado que devem ter para com aqueles que se afastam, terminando com a recomendação: «É da vontade do vosso Pai que está no céu que não se perca um só destes pequeninos».

Além desta atenção para com o irmão extraviado, o discurso é marcado pelo modelo do acolhimento e solicitude para com os «pequenos», na mesma linha da solicitude  do Pai celeste, e pelo modelo do perdão fraterno ilimitado. É importante ter em conta este pano de fundo para situar bem o texto de hoje que se mostra como um regulamento de tipo disciplinar.

A comunidade cristã é constituída pelo conjunto de pessoas que aderem à proposta dum estilo de vida no seguimento de Jesus Cristo e que querem fazer essa vivência de modo comunitário. No caso de alguém ter uma atitude ou vivência contrária, como deve a comunidade proceder? O texto de Mateus começa por recordar que se trata dum «irmão» que pecou. A seguir apresenta três degraus possíveis: chamada de atenção directa mas pessoal e privada; no caso de não resultar, nova tentativa com mais uma ou duas pessoas; não resultando, é chamada a comunidade a recordar ao «irmão» os princípios fundamentais do caminho cristão para que ele possa tomar uma decisão.

E se ele quiser continuar no seu erro? Isso significa que ele mesmo se coloca fora da comunidade; em linguagem judaica, está a agir como um pagão ou um publicano… Não se trata duma expulsão mas duma constatação dum irmão que se põe à margem, que não quer partilhar o mesmo estilo de vida dos outros irmãos. Este estilo de diálogo fraterno corresponde à vontade do Pai celeste que se preocupa com a procura e a recuperação do pequenino que se extraviou. Mesmo quando se afasta, não deixa de ser objecto do amor misericordioso de Deus.

Nesta perspectiva pastoral, a sentença sobre o princípio de autoridade tem uma tonalidade religiosa mais ampla. A expressão «ligar-desligar» não pode limitar-se à decisão autorizada no campo da interpretação da vontade de Deus nem reduzir-se ao âmbito disciplinar de excomunhão (este sentido só tardiamente ocorre em textos rabínicos).

Tendo em conta o contexto, a fórmula «ligar-desligar» refere o princípio de autoridade de todos os discípulos chamados a praticar a norma do diálogo pastoral até às últimas consequências, depois de todas as tentativas para «desligar» o irmão do pecado. Não se trata duma linha de conduta pessoal mas eclesial.

O mesmo sentido eclesial está presente na sentença seguinte. Aos dois irmãos que se põem de acordo «sobre a terra» é prometida a escuta da sua oração «no céu». O acento não está colocado tanto na oração comunitária como na concórdia. É o estar de acordo que dá eficácia à oração dos irmãos. A razão profunda está na promessa da sentença seguinte, a propósito de dois ou três que se reúnem em nome de Jesus. No judaísmo corria a sentença: «Onde estão dois sentados (juntos) e entre si falam as palavras da Torah (Lei), ali mora entre eles a Shekhinah (a Presença = Deus)». Agora é Jesus, verdadeiro «Emanuel», Deus connosco (1,23; 28,20) a prometer a sua presença activa  como garantia da escuta da oração.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube