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PERDOAR DE TODO O CORAÇÃO. SEMPRE!

Georgino Rocha

Dom António Francisco dos Santos, conhecido por ser o bispo da bondade, deixa-nos um belo exemplo de como ser misericordioso e reconciliador, ir ao encontro dos outros, fazer-se próximo, acolher sem condições, dar e receber o perdão. As suas ricas mensagens e, sobretudo, o seu estilo de vida, garantem que é possível viver o Evangelho a tempo inteiro no emaranhado do quotidiano, sem alarmismos nem ansiedades. A sua memória abençoada certamente vai fazer-nos ser mais atentos à Palavra de Deus que, hoje, nos convida a varrer do coração todo o rancor, como aconselha a 1ª leitura, a ousar perdoar incondicionalmente, seguindo a viva recomendação de Jesus, a pertencer sempre ao Senhor da vida e da morte, de acordo com a afirmação de fé de São Paulo.

A vida humana está marcada pelo limite e pela relação. A convivência nem sempre é harmoniosa e pacífica. Surgem tensões e conflitos, ofensas e outras atitudes mais agressivas. Que fazer? O que é melhor para reequilibrar o que se entortou e azedou a cidadania? Retaliar? Com que medida? Recorrer ao tribunal? Em que assuntos? Pedir a amigos que sirvam de mediadores e ajudem a lançar alguma ponte a fim de sanar a ferida e reatar a harmonia perdida? E entretanto o que diz a consciência pessoal e a voz da dignidade do outro, a sabedoria dos povos e a novidade do Evangelho? Ter em conta este rico património estimula a coragem a tomar uma decisão oportuna e acertada.

Pedro, segundo a versão de Mateus, o evangelista que narra o episódio (Mt 18, 21-35) quer viver a prática do perdão como Jesus vivamente exortava. De modo justo e generoso. Entre os Judeus, a medida prevista chegava a três vezes, oscilando conforme as escolas dos rabinos mais reconhecidos. Por isso, a Pedro parecia-lhe que sete seria o máximo e esperava confirmação do Mestre. A resposta de Jesus deixa-o sem palavra. “Não te digo até sete, mas setenta vezes sete”. E, para lhe fazer ver como estamos chamados a ser misericordiosos e a perdoar, conta a parábola do rei misericordioso e do servo sem entranhas de compaixão, em que surgem outros elementos esclarecedores. E conclui, afirmando que Deus procede connosco conforme nós procedermos uns com os outros. Quer dizer, deixa nas nossas mãos a medida do perdão. E para nos lembrar desta verdade ensina-nos a rezar no Pai Nosso: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.Que responsabilidade e interpelação! Sejamos dignos desta ousadia confiante!

O Papa Francisco, na sua histórica Viagem Apostólica à Colômbia, reafirma muitas vezes a importância do perdão como caminho para a paz e exorta veementemente a que todos se esforcem para construir uma sociedade justa, sem feridas sangrentas nem ódios congelados. Dirige-se especialmente aos jovens na mensagem à multidão (mais de um milhão de pessoas), na praça Bolivar em Bogotá e diz-lhes: “A vossa juventude também vos torna capazes duma coisa muito difícil na vida: perdoar. Perdoar a quem nos feriu; é digno de nota ver como não vos deixais enredar por velhas histórias, como olhais de modo estranho quando nós, adultos, repetimos histórias de divisão simplesmente porque estamos presos a rancores. Ajudais-nos neste intento de deixar para trás aquilo que nos ofendeu, ajudais-nos a olhar para a frente sem o obstáculo do ódio, porque nos fazeis ver toda a realidade que temos à nossa frente, toda a Colômbia que deseja crescer e continuar a desenvolver-se; esta Colômbia que precisa de todos e que nós, os mais velhos, devemos entregar a vós.

Por isso mesmo vós, jovens, enfrentais o enorme desafio de nos ajudar a sanar o nosso coração, de nos contagiar com a esperança juvenil que está sempre disposta a conceder aos outros uma segunda oportunidade. Os ambientes de desespero e incredulidade fazem adoecer a alma: são ambientes que não encontram saída para os problemas e boicotam aqueles que procuram encontrá-la, danificam a esperança de que toda a comunidade necessita para avançar. Que as vossas aspirações e projetos oxigenem a Colômbia e a encham de salutares utopias!”

O perdão é a convicção firme de um caminho a percorrer na humanização das relações humanas, qual seiva revigorante em que se encontra o Deus da bondade, o nosso Deus. “Posso estar verdadeiramente magoado e ofendido, mas reconheço que mais vale ultrapassar, ir «mais além» disso. É o «per» do «doar». E o padre jesuíta Vasco de Magalhães conclui: “O grande problema é pesar bem o que vale mais”.

E não há nada mais valioso do que aceitarmos percorrer os caminhos de Jesus, do seu amor incondicional, do seu perdão misericordioso, da sua doação irradiante que faz da cruz horrorosa a porta aberta para a feliz ressurreição. E tanto nos humaniza que “diviniza” a nossa relação. Demos mais um passo e aprendamos a perdoar mais e melhor.

 

 

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