Pages Navigation Menu

Mudar de mentalidade – A propósito dos incêndios

Mudar de mentalidade

A propósito dos incêndios

Que fazer? Vamos resignar-nos a uma chaga com tais dimensões, como se de uma fatalidade impossível de contrariar se tratasse? De modo algum. Estamos convencidos de que as causas do flagelo dependem direta ou indiretamente da vontade humana. E, como tal, só pode prevenir-se ou combater-se com eficácia, se todos nós, desde o cidadão mais simples ao mais responsável, em vez de vãs lamentações, mudarmos realmente de mentalidade e de hábitos sociais…”

Assim diziam os nosso bispos em nota sobre os incêndios publicada em Abril de 2017.

A verdade é que nos resignámos  à situação e tudo continuou  como se  de nada se tratasse! E nós recordamos Pedrógrão  e  todos os Conselhos afectados pela calamidade dos incêndios em Junho  e com eles  todo o cortejo de vidas ceifadas na altura: 64 ou 65! Seguiram-se  relatórios  e mais relatórios, entrevistas em directo e palavras de ocasião, culpas passadas de uns para outros e também  para o tempo que se fez sentir,  e um raio que teve a infelicidade de cair em sítio errado. E passou Pedrógrão e as gentes foram rumando por novos caminhos e a caridade nacional apareceu e o povo português mobilizou-se mais que palavras ou juras passou  aos actos: desataram as bolsas e foi um cortejo de ofertas  canalizadas  para as vítimas,  tantas delas feitas no silêncio  da caridade que só Deus conhece ou em associações das mais variadas, paróquias e dioceses, coordenadas por organismos de que a  Caritas é exemplar.

Fomos heróis na partilha mas, mais uma vez, esquecemos ou fizeram-nos esquecer  a natureza, esse dom que vem das mãos de Deus e que nos é dado como casa comum para o podermos utilizar e pôr ao nosso serviço, mas como  dom a ser entregue àqueles  que vierem depois de nós. Dessa natureza faz parte a floresta. E nós, passados os fogos,  esquecemo-la novamente: as mãos criminosas que foram, a limpeza das matas particulares ou do Estado,  a negligência de tantos actos  mal pensados e os incentivos para que uns e outros se tivessem realizado e  ajudado a provocar  uma mudança de mentalidade e de hábitos sociais de forma concertada que a todos dissesse respeito.

E chegámos a este domingo fatídico : 500 e tal  fogos ateados, 36 mortos e 7 desaparecidos, sem saber quantos hectares de mata ardida, casas destruídas, armazéns feitos em sucata, lágrimas  semeadas à medida do olhar, campos devastados, bombeiros exaustos, forças policiais no limite e gente, gente desesperada pelo sufoco do fumo, pela falta de informações, pelo sem sentido da vida.

Tivemos  a oportunidade de percorrer muitas das áreas ardidas da nossa diocese, depois de tudo o que passou na tarde deste domingo que dificilmente esqueceremos. Tivemos  a oportunidade de dialogar no terreno com  alguns padres  das paróquias mais afectadas  e que fizeram da noite momento de comunhão com os mais atingidos  pela calamidade,  calcorreando caminhos, abrindo portas,  acolhendo  desalojados e levando  leite a crianças  em sobressalto. Tivemos oportunidade de falar com gente que junto às paredes das suas casas olhava o terreno queimado, o pinhal ainda em fumo, o barracão feito monte de destroços. “O fogo é pior que um ladrão – dizia um homem já entrado na idade ao olhar o espaço queimado à sua volta – não precisa de arrombar nada e leva-nos tudo”.  Vimos o campo-escola dos escuteiros da Palhaça semi-destruído e o  choro de alguém que ali tinha muito de seu, muito amor e cansaço, aliviado pela capela onde estava o crucifixo e a um quadro da Virgem  Maria,  livre das labaredas. “Valha-nos isso, concluiu ela”.  Vimos os olhos dos Bombeiros, vermelhos de cansaço  e de sono, mas sem abandonar o seu posto: “… estamos aqui há 24 horas  porque não chegamos para tudo …”e a  sandes amainava a revolta de quem tem a impressão que houve mãos  criminosas e não apenas falhas da natureza no começo de mais este incêndio. Vimos gente de mãos erguidas porque, apesar de tudo, houve muitas coisas que ainda ficaram… e puxando-nos pela mão levou-nos à capoeira onde dizia estarem 35 frangos, reduzidos a alguns montes de carvão. E foram as paletes reduzidas a cinzas, mas os camiões salvaram-se.  E vimos uma idosa, sozinha na sua casa pobre e  salva das chamas  porque os vizinhos acorreram a borrifar o seu telhado de água, muita água tirada de uma bomba manual  porque a rede pública esgotou. A nossa volta terminou junto ao Colégio de Calvão, barrados pela GNR, porque a história ainda não tinha acabado… nem sei como acabará.

E o fim voltou ao princípio: Que fazer? Vamos resignar-nos a uma chaga com tais dimensões, como se de uma fatalidade impossível de contrariar se tratasse?

Discursos e comentários, opiniões e desejos, de tudo ouvimos e lemos e a pergunta mantém-se: Que fazer?  Não sou entendido na matéria mas partilho três ideias:

Tenho para mim, e só para mim, que a maior parte deste fogos têm mãos criminosas. Dizia-nos alguém que este obedeceu a uma estratégia nos locais escolhidos, na direcção do vento que se fazia sentir, na hora a que tudo começou. Tudo por acaso? Talvez, mas não acredito. Por isso não há que ter medo em falar de fogo posto, descobrir as mãos criminosas e responsabilizá-los pelos seus actos. Espero  que não sejam todos  inimputáveis .

Depois, cuidar da floresta, sem dúvida a começar pela limpeza das matas e as que são do Estado em primeiro lugar. Passámos por muitos pinhais cheios de mato e acácias e  ramos secos. Mas isto exige exemplo e apoio do Estado aos proprietários é essencial. Afinal 80% do pinhal de Leiria também ardeu… e é do Estado.

Por fim, diz-se que o eucalipto é a árvore dos países pobres. E é verdade. Mas porque será que os eucaliptais das empresas de celulose, normalmente, não ardem? Ajuda na solução a mudança da floresta? Sim, mas não resolve o problema.

Como conclusão, não queríamos deixar este apontamento, sem duas  notas: a primeira para toda esta gente que sentiu na pele o calor do incêndio, o sufoco  do ar  e a dor de nada poder fazer, mas de  tudo terem feito  em favor de todos sem olhar   a quem: pobres ou ricos, vizinhos ou afastados,  amigos ou desavindos. Ao longo de todo o percurso, foi uma lição de proximidade que lemos em todos os rostos.  A segunda nota fica para nós, Igreja, na pessoa de todos e cada um dos párocos e da diocese em geral: fazermos tudo o que nos for possível para amenizar a dor e reparar os estragos na medida do possível sem esquecer um bem-haja a todos os padres que se esqueceram de dormir para que outros pudessem ter conforto e companhia.

Que fazer?  Termino com as palavras dos nossos Bispos:“…Todos nós, desde o cidadão mais simples ao mais responsável, em vez de vãs lamentações, mudarmos realmente de mentalidade e de hábitos sociais…”

 

P. Manuel Joaquim Rocha

Vigário Geral

 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube