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II Domingo do Advento – Ano B

Breve comentário

O texto deste domingo apresenta-nos o início do Evangelho segundo Marcos. A primeira frase não é um título, nem marca apenas o início do livro, mas apresenta-se, na sua simplicidade, como um condensado teológico para responder à pergunta de ontem e de hoje: «quem é Jesus?».

Marcos escreve a pensar nos cristãos de Roma convertidos do paganismo, habituados a usarem a palavra «Evangelho» (Boa Nova) para indicar a notícia duma vitória do Imperador romano, de acontecimentos felizes, do nascimento dum filho do imperador, ou seja, tudo o que tivesse a ver com o imperador. Este, com o seu poder «divino», reunia tudo sob a sua pessoa, exercendo o seu poder sobre homens e animais.

Uma inscrição do ano 9 d.C., que festeja o aniversário do Imperador Augusto, refere que o dia do seu nascimento «foi para o mundo o início dos Evangelhos recebidos graças a ele». Quando Marcos escreve, esse imperador já morreu há muito tempo, tal como outros que se seguiram e que não trouxeram às pessoas bem-estar, saúde e paz.

Com a frase inicial «Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus», Marcos diz algo de concreto para os leitores, apresentando Jesus ao mesmo nível do imperador, passando para Ele os atributos e as honras. Jesus é a incarnação de Deus, trazendo consigo a salvação do mundo e o caminho para o Reino de Deus de que Ele será o anunciador e o próprio centro.

Por isso, Jesus é o «Messias» (Cristo) e, ao longo do texto de Marcos, também o «Filho do Homem», mas é essencialmente o «Filho de Deus», assim proclamado pelo centurião romano encarregado da crucifixão (15,39). Em Jesus o Evangelho tem o seu «princípio» para nunca mais deixar de ser proclamado.

Tudo começou com a pregação de João no deserto. Por isso, Marcos apresenta logo a seguir a figura grandiosa de João, com frases do Antigo Testamento, como «o mensageiro» que precede imediatamente o «Senhor», numa nova alusão à divindade de Jesus.

À primeira vista parece estarmos perante um texto do profeta Isaías, quando de facto começa com um texto de Malaquias (3,1), alterando «o meu caminho» para «o teu caminho». João é o mensageiro do Senhor enviado a preparar o caminho de Deus, agora incarnado em Jesus. O outro texto, Isaías 40,3, apresenta João como a voz que anuncia, não já a libertação e o regresso do exílio da Babilónia, mas a libertação do pecado e o encontro com Deus operados por e em Jesus, o Filho de Deus.

A referência ao deserto é uma recordação das grandes obras realizadas por Deus a favor do povo  e da Aliança do Sinai (Ex 19-24; Jr 2,2-3), mas também lugar de tentação e da rebelião de Israel (Ex 16; Nm 11). Estes versículos, densos de ligações ao Antigo Testamento preanunciam igualmente os acontecimentos que estão para ser narrados.

A importância deste momento de salvação é sublinhada pela própria figura de João: a sua sobriedade e rigor estimulam à renúncia dos bens da terra a fim de se estar livre para Deus. O seu porte profético evoca o estilo de Elias que se «vestia de peles» e «trazia um cinto de couro em volta dos rins» (cf. 2Rs 1,8) e que, segundo a espectativa judaica, devia vir um dia para anunciar a chegada eminente do Messias.

O reino de Deus estava próximo e, com a sua vinda, o perdão dos pecados. O baptismo pregado e realizado por João era um rito de iniciação duma nova comunidade («toda a região…») que, arrependida dos seus pecados, esperava o Reino concretizado no mais forte que ele. É com Jesus que vem o «Espírito Santo», o dom dos últimos tempos, prometido pelo profeta Ezequiel (36,25-29). João, consciente do seu papel preparador e orientador, acredita que Aquele a quem anuncia comunicará essa força.

 

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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