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Solenidade da Epifania do Senhor – Ano B

Breve comentário

A solenidade da Epifania encerra o ciclo da celebração natalícia, na data em que a Igreja Ortodoxa celebra o Natal; o domingo do Baptismo do Senhor abre um novo ciclo dos domingos comuns (domingos de cor verde). O textos da Epifania ajudam-nos a compreender esta celebração como a manifestação (= epifania) de Jesus Messias a todos os povos.

Todo o capítulo II do evangelho de Mateus é composto por quatro episódios que formam uma unidade: a visita dos magos, a matança das crianças de Belém e consequente fuga para o Egipto de José com Maria e Jesus; o quarto episódio é o seu regresso depois da morte de Herodes, texto que já foi lido este ano na festa da Sagrada Família.

Trata-se duma pequena recolha de textos bíblicos, com muitas referências a Antigo Testamento, uma narração de tipo «midrashico» que apresenta a catequese primitiva acerca do chamamento à fé dos povos pagãos, em que se misturam história, poesia, teologia, apologética e polémica.

O Evangelho de Mateus, escrito originariamente para uma comunidade judeo-cristã e em polémica com a sinagoga, põe a claro logo desde o início que o acolhimento de Jesus por parte dos seus não foi nada triunfal, pelo contrário, encontrou hostilidade ou indiferença (S. João escreverá mais tarde: «Veio para o que era seu e os seus não O receberam»). A nota negativa inicial acentua-se no decurso do evangelho, anunciando-se que «os filhos do reino serão lançados fora nas trevas» (Mt 8,12); filhos degenerados, presentes simbolicamente na parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mt 21,33-44) e realisticamente quando «todos eles responderam: seja crucificado» (Mt 27,22).

Os magos são personagens misteriosos, talvez peritos em astrologia ou uma casta sacerdotal e funcionários reais; vêm do Oriente, indicação demasiado vaga, que poderia indicar a Pérsia ou a Mesopotâmia, ou até a Arábia ou o deserto sírio.

Admira, à primeira vista, a presença de magos, referidos com toda a naturalidade, quando em toda a Sagrada Escritura eles são condenados. A nossa narração não tem nada de condenação: é sobretudo um delicadíssimo canto à Providência que guia os Magos ao encontro de Cristo. São as primícias da futura profecia de Jesus: «Eu digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão à mesa com Abraão, Isaac e Jacob no reino dos céus» (Mt 8,11) e penhor da futura missão da Igreja: «Ide e ensinai todas as nações, baptizando-as…» (Mt 28,19). A sua viagem, os seus dons, a sua atitude, são expressões daquela prostração-adoração que, como trama unificadora, serve à teologia de Mateus para mostrar como Cristo deve ser procurado e por quem ele se deixa encontrar.

A estrela que guia os magos é muito peculiar: aparece, desaparece, anda, pára, move-se de norte para sul e não de este para oeste como as outras. É na Sagrada Escritura que vamos encontrar este astro preanunciado pelo profeta Balaão (Nm 24,17.19) referindo-se à «estrela que se ergue de Jacob e ao ceptro que se ergue de Israel». Jesus é a Estrela que conduz até Ele, a verdadeira Luz que ilumina todos e cada um dos homens.

O texto tem o seu centro ideal e teológico em Cristo. Ele é apresentado como o verdadeiro Rei que merece ser procurado e adorado. A Ele vêm pessoas de longe, guiadas pela luz da estrela e pelas Escrituras. Jesus é uma criança, não diz uma palavra e, no entanto, a sua existência divide os homens. Sinistros indícios atravessam a perícopa, seja na intenção persecutória de Herodes que acabará em tragédia, seja na irresponsável atitude das pessoas de Jerusalém, a começar pelos sumos-sacerdotes e escribas do povo. A morte do Messias, com a qual culminará a rejeição de Jerusalém, lança a sua sombra nesta recusa inicial. Maldade e irresponsabilidade invocam renovação e redenção. O menino está ali para isso. É necessário sabê-lo reconhecer.

Com este objectivo Mateus ajuda o leitor com a citação bíblica (Mq 5,1) e com a figura dos Magos. Com a citação preanuncia-se a vinda do mais ilustre descendente de David que cuidará do seu povo, fazendo sua a actividade própria de Deus (cf. Ez 34). A adoração dos Magos remete o leitor para a grandeza de Cristo, filho de David, Filho de Deus e Emanuel.

A homenagem dos Magos ao rei menino é a correcta resposta humana ao Emanuel, Deus connosco. O c. 1, apresentando a genealogia e o nascimento, ficava no mundo judaico. Com o presente texto o mundo passa a englobar todos os povos. O episódio dos Magos pode ser lido como uma grande profecia: oferece indícios dum futuro inaugurado, enquanto se declara já iniciada a peregrinação dos povos anunciada por Is 60 e pelo Salmo 72. A nova comunidade é a Igreja sem fronteiras que se deixa guiar pelos sinais e pelas palavras proféticas ao encontro do seu Senhor.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

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