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VI Domingo do Tempo Comum – Ano B

Breve comentário

Como ponto de partida para a compreensão do texto deste domingo, temos de nos colocar na mentalidade da época, não muito diferente do que vulgarmente pensamos hoje. A pobreza, esterilidade, uma desgraça e qualquer doença eram um sinal de que a pessoa tinha sido castigada por Deus por causa do seu pecado.

Entre as doenças, a lepra ocupava um lugar especial porque excluía a pessoa da comunidade, não apenas por motivo de contágio, mas como uma verdadeira excomunhão, devido ao aspecto e gravidade da doença. Tratava-se duma «impureza» irremediável. O leproso, na aproximação de alguém, devia gritar: «Impuro, impuro!», mantendo-se à distância. Nem pensar em entrar numa sinagoga ao sábado e, muito menos, em ir ao templo de Jerusalém…

É fundamental ler pausadamente o texto que o evangelista Marcos nos apresenta pois, mais do que contar como se deu uma cura, ele pretende fazer uma catequese acerca de Jesus.

O leproso quebra a lei, aproximando-se de Jesus que, por sua vez, também quebra a lei, não se afastando. O que o leproso pede vai muito além duma cura que, por si, já era considerada impossível, apenas reservada a Deus (2Rs 5,7). Ele quer ser «purificado», isto é, reintegrado na comunidade, voltar à sua dignidade de membro do Povo de Deus.

A primeira atitude de Jesus é descrita com um verbo: «compadecendo-se…». O verbo grego splánchnízomai, que em toda a Bíblia só se refere a Deus ou a Jesus, significa «ter vísceras de compaixão, experimentar comoção visceral, misericórdia e ternura»; é o apertar do coração perante qualquer miséria humana. É assim que Jesus sente e age; é assim que Deus sente e age.

O segundo aspecto mais significativo é que Jesus estendeu a sua mão e tocou-o, estabelecendo um contacto físico que implica pelo menos duas coisas: primeiro, Jesus parece querer contagiar-se por aquela doença, como que quisesse tomá-la sobre si, para libertar aquele homem; segundo, Jesus ultrapassa a legislação sobre a impureza (cf. Lv 13-14), segundo a qual a lepra contaminava toda a gente e, portanto, o leproso devia ser considerado um pecador, um amaldiçoado por Deus, um homem que devia ser excluído do culto.

Jesus, em vez de se afastar ou o afastar a ele, aproxima-se, toca nele e cura-o, aceitando o risco de se contagiar. Depois de ter «purificado» o leproso, Jesus quer reintegrá-lo oficialmente no povo de Deus, mandando-o aos sacerdotes para que reconheçam a sua cura.

A presença do antigo leproso junto dos sacerdotes deve servir também de testemunho para eles. Uma cura daquelas só podia ser realizada por acção de Deus. Por isso, a cura do leproso era um sinal evidente de que o Reino estava já presente no meio deles: o facto devia servir para os líderes do Povo concluírem que o Messias tinha chegado e que o «Reino de Deus» estava já presente no meio do mundo. Os novos tempos – o tempo do Messias – tinham chegado.

A ordem de não divulgar o acontecimento, que afinal não é cumprida, insere-se no «segredo messiânico». Uma vez mais, Jesus não quer ser considerado apenas um Messias corporal, um curandeiro extraordinário. Daí a ordem: «Não digas nada a ninguém».

Como consequência da acção de Jesus, os papéis invertem-se. Antes, era o leproso que vivia afastado de tudo e de todos. Agora é Jesus que já não pode entrar numa cidade. Está fora, em lugares desertos, onde todos o vêm procurar, certos do seu acolhimento.

 

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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