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JESUS, TENTADO, ANUNCIA O EVANGELHO DE DEUS

Georgino Rocha
 
Jesus recebe no baptismo do Jordão a declaração da sua identidade. João realiza o rito. Jesus sai da água e acontece uma série de sinais reveladores: Vê os céus abertos e o Espírito descer sobre Ele na forma de pomba; escuta uma voz vinda do céu que diz: “Tu és o Meu Filho amado; em Ti encontro o Meu agrado”. (Mc 1, 12-15).
Credenciado como Filho, o encanto do Pai, é impelido para o deserto pelo Espírito Santo. Esta afirmação do autor do relato, simples e densa, realça que Jesus, no seu agir histórico, está envolvido na comunhão de Deus, das pessoas divinas. E esta é a primeira boa notícia do Evangelho. Jesus não se move por outros interesses ou intenções: de benefício pessoal ou familiar, de projecção pública ou religiosa. É o Espírito Santo que o anima e ilumina nas suas opções. E leva ao deserto.

O deserto geográfico é uma região da Judeia que tem como referências principais Jerusalém e Belém, terras com estilo de vida organizada, citadino, e memória histórica de feitos inesquecíveis. Ao atravessá-lo, o povo de Deus faz experiências marcantes, onde ocorrem as tentações, aquando da fuga do Egipto, do acampamento junto ao Sinai, da travessia de outros locais até chegar ao destino. Durante a sua atribulada viagem, recebe as bênçãos de Deus, as Tábuas da Lei com os mandamentos, e faz a experiência salutar de confiar nas promessas, de aprender com as crises, de se deixar encontrar por Deus em festiva aliança de amor.

A opção de Jesus pelo deserto, como primerio acto da vida pública, tem um grande alcance simbólico. Fica em contraste a acomodação e segurança da vida organizada face à intempérie e à surpresa da vida exposta aos maiores perigos, fica em aberto o exercício da liberdade tentada e do risco assumido. Provoca uma ruptura com o sistema de vida e a sociedade em que se vivia. O frente-a-frente de Jesus com o Tentador espelha bem a condição humana, a sua capacidade de discernir e de afirmar a verdade do ser e de rejeitar a adulação, a mentira, ainda que bem “enroupada”, a alienação escondida em propostas sedutoras.

“O lugar da tentação, para Jesus, como para todo o homem, é o coração”, afirma Manicardi na reflexão sobre o I Domingo da Quaresma. E prossegue, chamando a atenção para “ a difícil empresa de discernir o seu próprio coração, reconhecer os impulsos de separação de Deus e de idolatria que o atravessam, e fazer reinar a vontade de Deus”. E o autor insiste no sentido moral de toda a acção humana e no discernimento entre o que é bem e o que é mal. “A tentação mais grave hoje é o desaparecimento da tentação”, afirma como conclusão da reflexão sobre a inconsciência do bem e do mal e a indiferença do agir.

Sem consciência moral afinada, a pessoa fica à deriva no combate interior e facilmente se deixa seduzir por aquilo que é mais fácil e atraente ou abdica do que é sério e honesto; obedece ao impulso espontâneo e ao gosto da comodidade assumida. E assim corre o risco de esquecer a fidelidade ao Senhor, que envolve sempre atitudes humanas com elevado sentido ético.

O Papa Francisco, na mensagem para a Quaresma de 2018, chama a atenção para a situação actual, fruto do resfriamento do amor e da perda do sentido ético da vida. “Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

E mais adiante, garante que “a própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são rasgados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E a concluir deixa-nos um apelo caloroso e vibrante: “Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!”.

Jesus, tentado, anuncia o Evangelho de Deus. Marcos desenvolve em relatos breves e significativos nos capítulos seguintes a caminhada para Jerusalém, onde acontece a Páscoa, festa que estamos convivados a celebrar, desde já. A quaresma, tempo de 40 dias que vamos viver, constitui um caminho aberto aos discípulos e uma oportunidade de visitar a consciência, pessoal e comunitária, para reforçar o seu alinhamento pelas atitudes modelares de Jesus.

O Bispo de Aveiro, António Moiteiro, na sua mensagem quaresmal «viver a caridade na alegria da misericórdia» lembra que é preciso perfumar os nossos caminhos. “O amor sincero e o serviço alegre, ao estilo de Jesus, hão de ser o modo de presença de cada um neste mundo: despir a roupagem inútil, tornar-se escravo, pôr o avental, servir com caridade. O dom de si mesmo é o único caminho que leva à alegria. Felizes os que perfumam os caminhos com a virtude da caridade!”

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