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II Domingo da Quaresma – Ano B

Breve comentário

O texto situa-se no princípio da segunda parte do evangelho, em que Jesus começa lentamente a revelar-se. O momento de viragem está no diálogo entre Pedro e Jesus (Mc 8,27-30). A resposta de Pedro, amigo e discípulo mais preparado e mais próximo dele, não satisfez Jesus (8,30). O próprio Jesus começa então uma catequese que se desenvolverá através dos três anúncios da Paixão (8,31-33; 9,30-32; 10,32-34), mas que encontra um difícil acolhimento.

Nos anúncios da paixão o tema do sofrimento e da morte prevalece mas não está só; todo o anúncio termina com o aceno à ressurreição. A cena da transfiguração aparece colocada pouco depois do primeiro anúncio e é seguida quase imediatamente do segundo. Nela o tema da glória prevalece; mas também está aqui presente o tema da dor: o pressentimento da morte serve de fundo à perícopa. Esta página de catequese, destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projecto que Ele propõe vem de Deus, está construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento.

O monte situa-nos num contexto de revelação: é sempre num monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo de um monte que Ele faz uma aliança com o seu Povo.

A mudança do rosto e as vestes brilhantes, muitíssimo brancas, recordam o resplendor de Moisés, ao descer do Sinai (cf. Ex 34,29), depois de se encontrar com Deus e de ter as tábuas da Lei. A brancura, do mesmo modo que a luz, faz parte do simbolismo da época. Brancura resplandecente é própria dos personagens do céu. O anjo que anuncia a ressurreição está vestido de branco; igualmente vestidos de branco estão os dois homens que aparecem na ascensão de Jesus.

A nuvem indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto.

O Antigo Testamento (Elias representaria os profetas; Moisés a Lei) insere-se na vida de Jesus. De certo modo participa reverente no cumprimento das profecias e na inauguração da nova era; além disso, os dois personagens, de acordo com a catequese judaica, deviam aparecer no «dia do Senhor», quando se manifestasse a salvação definitiva.

O temor e a perturbação dos discípulos são a reacção lógica de qualquer homem ou mulher, diante da manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus.

As tendas parecem aludir à «festa das tendas», em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em «tendas», no deserto.

A mensagem fundamental, amassada com todos estes elementos, pretende dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias do Antigo Testamento, o autor deixa claro que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é, também, esse Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado pela Lei (Moisés) e pelos Profetas (Elias). Mais ainda: Ele é um novo Moisés – isto é, Aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e através de quem Deus propõe aos homens uma nova Aliança. É a ele que devemos escutar!

A narração da transfiguração une-se ao episódio do baptismo: a mesma voz sobre-humana (do céu – da nuvem), a mesma declaração do Pai (Tu és – este é). A presença dos três discípulos e o fundo das predições sobre a paixão trazem à mente o episódio da Agonia de Jesus no Getsémani, onde ele se dirige a Deus com o nome de Abba, Pai. Em Marcos esta é a única vez em que Jesus invoca Deus com o nome de Abba (14,36). No termo da vida pública e no início da narração da paixão, aquela súplica a Deus parece ser a resposta de Jesus à dupla voz do céu, no Jordão e no Monte da transfiguração, que o tinha proclamado «o meu filho amado».

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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