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III Domingo da Quaresma – Ano B

Breve comentário

A cidade de Jerusalém, que habitualmente teria 50 000 habitantes, em alturas de Páscoa albergava à volta de 150 000 para a celebração da grande festividade. Chegava gente de toda a região da Palestina mas também de todos os pontos do Império Romano, alguns deles provavelmente para fazerem a sua única peregrinação à Cidade Santa.

Todos precisavam de adquirir um cordeiro para a ceia pascal, todos compravam ovelhas ou bois ou pombas para oferecerem em holocausto no altar do Senhor. Os que vinham de fora precisavam de trocar as suas moedas romanas, impuras perante a Lei judaica, por outras de cobre que ofereciam ao Templo.

Tratava-se, portanto, duma ocasião que os comerciantes e cambistas não podiam perder para, por um lado, prestar um serviço aos que chegavam e, por outro, obter um bom lucro. E todo este negócio era controlado pelas grandes famílias sacerdotais, na altura a família de Anás e Caifás.

Neste ambiente, o evangelista João apresenta um episódio dando, ao mesmo tempo, o significado profundo da acção de Jesus. Ele tinha entrado no templo outras vezes. Recordemos a narração de Lucas, quando Jesus aos doze anos se sente de tal modo na «Casa do Pai» que até se esquece de regressar para Nazaré. Por isso, não era novidade o que se passava naquele lugar santo. Mas chegou a hora de realizar, como em Caná, um novo sinal. O templo tornou-se um lugar de comércio. Em vez de encontrar pessoas enamoradas por Deus, Jesus vê gente ávida de lucro, não querendo saber do lugar onde se encontravam.

Assim, Jesus cumpre o acto profético anunciado pelo profeta Zacarias (14,21): «Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio», ao proclamar a presença do «dia do Senhor». Jesus é o Filho que vem no dia do Senhor à casa de seu Pai.

Uma interpretação surge na forma de entender por parte dos discípulos: «O zelo da tua casa me devorará», passagem do Salmo 69,10 – salmo dos justos que sofrem – que também se irá realizar na pessoa de Jesus que purificará verdadeiramente o templo à custa da sua vida.

O desafio lançado por Jesus, como sinal da sua acção, irá constituir uma ofensa para os defensores da continuidade: «Destruí este Templo, e em três dias o farei ressurgir».

Não se trata dum sinal de poder, mas dum gesto profético. O evangelista joga intencionalmente com a ambiguidade do verbo grego eghéiro, que significa tanto significa «levantar», «erguer», como «ressuscitar». Ao indicar a sua ressurreição, afirma que iria transformar o velho templo (de pedras) num novo que revelaria a sua divindade. O templo identifica-se, assim, com o seu corpo; é o sinal de Jonas de que falam os evangelistas.

Percebido à letra pelos seus opositores, apenas captado pelos discípulos após a ressurreição de Jesus, este sinal anuncia a grande substituição que se irá operar. Todo o verdadeiro culto deixará de estar ligado ao templo de Jerusalém para se deslocar para a pessoa de Jesus, verdadeiro Templo de Deus em que se realiza realmente o encontro de Deus e o homem. A afirmação «absurda» de Jesus será usada mais tarde no Sinédrio como acusação contra ele.

A parte final manifesta a liberdade de Jesus e o seu conhecimento profundo do coração humano. Não se deixa prender por entusiasmos momentâneos de quem, movido pelas suas acções grandiosas, adere a Ele mas está longe de captar a sua mensagem.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

 

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