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II Domingo da Páscoa – Ano B

Breve comentário

A ressurreição de Jesus é um acontecimento de ordem sobrenatural. S. João já tinha falado da ressurreição de Lázaro como um sinal de que Jesus era a Ressurreição e a Vida. Mas a ressurreição de Lázaro foi um tornar a viver, um voltar atrás à vida natural para, um tempo mais tarde, voltar a morrer. A ressurreição de Jesus é um passo para a frente: é um vencer a morte para uma vida que não mais acaba. Jesus continua a ser o mesmo, mas de modo diferente, tendo ultrapassado as barreiras naturais e físicas. É isto que S. João começa por dizer ao apresentar Jesus no meio dos seus discípulos, estando as portas fechadas.

«Paz a vós!» não é um simples cumprimento, mas a paz que Jesus tinha prometido quando estavam tristes com a sua partida, a paz messiânica, o cumprimento das promessas de Deus, a libertação de todo o medo, a vitória sobre o pecado e sobre a morte, a reconciliação com Deus, fruto da sua paixão, dom gratuito de Deus. O texto repete três vezes a mesma expressão.

Ao mostrar as mãos e o lado, Jesus fornece provas evidentes e tangíveis que é aquele que foi crucificado. Só o evangelista João nos recorda o pormenor da ferida no lado feita pela lança dum soldado romano. Jesus quer ensinar que a paz que ele dá vem da cruz. Fazem parte da sua identidade de ressuscitado.

Terminada a sua missão na história, Jesus envia os discípulos. Não se trata duma missão nova, mas da mesma missão de Jesus que se estende àqueles que são seus discípulos, ligados a ele como o ramo à videira, tal como à sua igreja (Mt 28,18-20; Mc 16,15-18; Lc 24,47-49). O Filho eterno de Deus foi enviado para que «o mundo se salve por meio dele» (Jo 3,17) e toda a sua existência terrena, de plena identificação com a vontade salvífica do Pai, é uma constante manifestação daquela vontade divina que todos se salvem. É este projecto de salvação que agora Jesus ressuscitado entrega a toda a Igreja.

«Soprou sobre eles… Recebei o Espírito Santo». Este gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação do homem (Gn 2,7). Isto significa que o homem está dependente do sopro de Deus. Trata-se, pois, duma nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem. O dom do Espírito é feito com vista à missão de que são investidos os discípulos. O poder de perdoar os pecados, que é reservado a Deus e ao seu Filho, é conferido por Jesus aos seus discípulos, na medida em que se trata da mesma missão salvífica.

O reconhecimento de Jesus ressuscitado dá-se sempre no primeiro dia da semana (e «oito dias depois»), assinalado progressivamente como dia do Senhor, quando a comunidade está reunida para fazer a experiência de perceber a presença do Senhor na sua vida, receber a força do Espírito e a paz de Cristo. Quem não está presente, como Tomé, não percebe nem quer perceber o anúncio: «Vimos o Senhor», e quer provas físicas.

A figura de Tomé tem aparecido como modelo de incredulidade e de fé. Mas ele é, sobretudo, o discípulo que, não admitindo o testemunho da comunidade, mantém-se fiel à sua própria convicção, mas cede lealmente diante da evidência. Tomé crê na ressurreição dos mortos, mas queria verificar se Cristo era já participante desta ressurreição tocando nas suas feridas. É que a doutrina do tempo a respeito da ressurreição dos mortos supunha uma continuidade sensível entre os dois mundos, o de antes e o seguinte, embora não excluindo uma transformação gloriosa.

Oito dias antes, os dez presentes tinham exultado de alegria e, depois, tentaram convencer Tomé, porém sem sucesso. Era necessária a presença e a palavra do Vivente. O narrador passa ao lado do facto de que o discípulo já não faz questão de estender a mão. Relata a reacção imediata de Tomé: em vez de aceitar a oferta que lhe é feita, ele entra no pensamento de Jesus e faz a sua confissão de fé.

Não precisamos de fé para aquilo que vemos, sentimos fisicamente, e que nos aparece com a certeza da evidência física. Por isso, aqueles que acreditam sem verem são mais felizes porque têm a fé no seu estado mais puro, isto é, a única Fé. Só assim consegue fazer a verdadeira profissão de fé em Jesus, reconhecendo-o como: «Meu Senhor e meu Deus». O facto  de o termo «Senhor» estar  unido a «Deus» exprime a evidência produzida pela presença do ressuscitado.

«Porque me viste, creste. Felizes os que não viram e creram». Estas duas palavras de Jesus estão centradas no verbo «crer» e apresentam dois modos de acesso à fé, o de Tomé e o dos futuros discípulos. O primeiro poderia ser compreendido como uma reserva em relação ao discípulo: Jesus reprovaria o facto de Tomé ter tido necessidade de ver para crer. Mas, de facto, trata-se duma palavra de felicitação da parte do Vivente que foi reconhecido na fé.

A segunda frase parece atenuar o elogio, insinuando quase que é preferível crer sem ver. Na realidade ela não se dirige a Tomé, mas aos discípulos futuros: o evangelista dirige-se à sua comunidade, já distante das origens. A comunidade não deve lamentar o facto de não ter vivido ao tempo de Jesus. Mesmo se o seu modo de acesso à fé não é o mesmo, são felizes aqueles que no curso dos tempos crerão sem ver.

Finalmente, o evangelista lembra aos leitores que fez uma selecção de palavras e acções de Jesus, a que chama sinais, com a finalidade de levar o leitor/ouvinte à fé e «para que, crendo, tenhais a vida em seu nome». Este pequeno texto é a chave de interpretação de todo o evangelho de João. A sua finalidade é universal, conforme a medida do projecto de Deus. O Messias esperado por Israel seria, segundo os profetas, salvador para a humanidade inteira. Narrando o itinerário do Verbo feito carne e, depois, do Filho que volta à glória que era sua antes da criação do mundo, o evangelista sublinhou com frequência que o dom da «vida» era destinado por Deus a todos os que, além de todas as fronteiras, creriam no Amor que ele manifestou em Jesus, Aquele que reúne na Unidade os filhos de Deus dispersos.

 

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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