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A surpresa de ser amados e poder amar

A surpresa de ser amados e poder amar

 

Santa Joana Princesa, modelo de caridade

Continuamos a comemorar neste dia da nossa padroeira Santa Joana Princesa os 325 anos da sua beatificação, em 4 de abril de 1693, na qual foi reconhecida a santidade que desde o momento da sua morte o povo desta cidade de Aveiro começou a celebrar.

Também não podemos esquecer que esta celebração ocorre num ano em que a Diocese procurou refletir e levar à prática a ligação profunda que existe entre Eucaristia e caridade. O exercício da caridade é constitutivo do ser e da missão da Igreja. Refletir sobre a caridade é entrar no coração da vida cristã. «Para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência» (Deus caritas est 25). «Agora, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade. Mas a maior de todas é a caridade» (1Cor 13, 13). Aliás, o ícone que mandámos fazer relacionando Santa Joana com a caridade é exemplo claro de que sem amor aos irmãos não há identificação com Cristo, que deu a sua vida por nós.

Santa Joana, ainda jovem, vivendo no Paço da Rainha, em Lisboa, auxiliava os mais pobres e os mais necessitados de Lisboa e pelo seu mordomo mandava-lhes esmolas e roupas. A sua extraordinária devoção à paixão de Cristo fazia-a recordar o sofrimento do Senhor por ela própria e por todos nós, embora sentindo-se incapaz de corresponder a tão grande amor: «tenho confiança naquele Senhor de tanta misericórdia e piedade, que para nos salvar quis padecer e morrer». Este facto levou-a a pensar naqueles e naquelas a quem poderia ser útil para lhes atenuar o sofrimento e a pobreza.

Ainda em Lisboa, na quinta-feira santa, convidava doze mulheres humildes para lhes lavar e beijar os pés, imitando, assim, a Jesus Cristo; e elas não abandonavam o Paço sem levarem consigo peças de vestuário, que ela lhes dava com muita caridade.

Já no mosteiro de Jesus era tão caridosa para com conhecidos e desconhecidos que o humanista Cataldo Sículo, estando em Aveiro, como mestre e precetor do pequeno D. Jorge, filho bastardo de el-rei D. João II e sobrinho da nossa padroeira, escreveu num dos seus epigramas que ela era de uma generosidade extrema, senão mesmo ingénua, sendo dadivosa para com todos sem exceção, não distinguindo dos indigentes verdadeiros os que eram viciosos e falsos pedintes.

A ela, porém, não lhe incumbia julgar as consciências; isso era com eles e com Deus. A Princesa sabia concretizar bem o conselho de Jesus: «dai-lhes vós mesmos de comer».

 

A vida como dom e doação

Olhando para a vida da nossa padroeira, Santa Joana Princesa, aprendemos que a vida é um dom e ao mesmo tempo uma doação aos outros. A discussão sobre a legalização da eutanásia, em que se encontra o nosso país, não é uma questão de natureza religiosa, mas sim de humanidade. É matéria que diz respeito ao nosso modo de nos entendermos como seres sociais, interdependentes, solidários ou, simplesmente, como meros indivíduos, indiferentes aos demais. Isto diz respeito à escolha de uma ideia de sociedade em que cada um não se pensa como alguém em relação com os demais, mas fechado sobre si mesmo. A cultura do cuidado não pode desistir, perante tal visão. A linha orientadora do agir cristão de Santa Joana é a mesma que hoje a nossa cidade e Diocese de Aveiro assume na sua peregrinação na história: «Amar a Deus é servir».

Para os cristãos, para quem a vida é dom, perante o sofrimento só faz sentido a doação. Desistir, dando a morte, é a recusa de que dos outros poderemos esperar o amor. Uma sociedade que deixe de amar não pode continuar a crescer em humanidade e atenção aos outros, sobretudo aos que mais sofrem.

 

Chamados a ser santos

A santidade, que significa gastar a vida ao serviço dos outros, tendo como modelo a Jesus Cristo, é um convite de Deus que irrompe na nossa vida, nos une com Deus e nos estimula a ter os sentimentos de Deus. A santidade é “andar na presença de outro”, é uma relação, é uma vida com Deus, uma amizade, tal como afirmava Santa Joana: «Trabalhai muito, estimai sobre todas as coisas por andar com a consciência sempre limpa».

Ao longo da nossa vida a santidade vai-se fazendo com uma familiaridade e intimidade com Deus que nos abre aos outros. Nessa viagem da nossa vida, há oportunidades, há obstáculos, há momentos tristes e alegres, mas em todos se vai forjando a amizade com Deus. Por isso é uma obra de artesanato paciente: a arte de aprender a amar e de aprender a ser amado por Deus.

O Papa Francisco é consciente de que quem procura viver santamente vai contracorrente e é julgado pelo mundo como pessoa incómoda, mas «para viver o Evangelho, não podemos esperar que tudo a? nossa volta seja favorável, porque muitas vezes as ambições de poder e os interesses mundanos jogam contra nós» (G et E 91). Quem quer ser santo não pode esperar por uma tranquilidade que lhe permita amar a Deus e aos outros. É nas circunstâncias em que já vive que vai encontrar-se com Deus e com o próximo.

«Para ser santo, não e? necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo a? oração. Não e? assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra» (G et E 14).

 

Hoje pedimos a Santa Joana Princesa que todos aqueles que têm o Evangelho como fonte de inspiração para o seu agir em sociedade, incluindo os nossos deputados e os que se preocupam com a causa pública, não se esqueçam de colocar a vida como a fonte primeira do bem comum.

 

Assim seja!

 

Aveiro, 12 de maio de 2018.

+ António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.

Solenidade de Santa Joana - Eucaristia

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