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X Domingo do Tempo Comum -Ano B

Breve comentário

Quando Jesus começou o seu ministério, as multidões reagiram de maneira muito positiva, mas bem cedo começa a experimentar a oposição dos escribas e fariseus que chegam a conspirar com os herodianos sobre o modo de eliminar Jesus (Mc 3,6). No texto deste domingo Marcos apresenta-nos a opinião dos familiares e a dos escribas acerca da acção de Jesus. O texto termina com a apresentação da nova família de Jesus.

A actividade de Jesus e dos seus discípulos é tão intensa que nem conseguem alimentar-se. Todo este movimento de multidões em torno de Jesus provoca reacções e boatos que chegam longe, aos ouvidos dos familiares. «Está fora de si!» – pensa muita gente e assim pensam os seus familiares que resolvem ir de Nazaré a Cafarnaum para deterem Jesus e o levarem para casa (v. 21). É natural que se preocupem com a reputação da família e queiram evitar a vergonha de ter um membro louco a «fazer figuras tristes».

Enquanto os familiares de Jesus não chegam, Marcos intercala a opinião dos escribas de Jerusalém: «Ele tem Belzebu!»; «É pelo príncipe dos demónios que ele expulsa os demónios» e «Tem um espírito maligno». Tentam, desta forma, desacreditar Jesus perante o povo, fazendo crer que Jesus age pela força do demónio e não pela força de Deus. Começa, assim, a acção dos opositores de Jesus no sentido de o destruírem. Esta acusação poderia levar Jesus a ser julgado pelo Sinédrio.

Por meio de «parábolas», Jesus mostra o ridículo desta acusação: Satanás a combater-se a si mesmo. Porém, a acção de Jesus mostra bem que ele tem poder sobre Satanás, isto é, já «amarrou o homem forte» para o poder combater e destruir. Por isso, qualquer pessoa pode reconhecer claramente na acção de Jesus o poder actuante de Deus sobre o mal. A não ser que negue a ver a evidência! Os escribas declararam que a obra de Deus era má e que a acção de Jesus era demoníaca, fechando-se assim à sua ajuda e recusando a salvação que Deus oferece aos homens por meio do seu Filho.

Para quem se recusa a aceitar a evidência de Deus na sua vida, atribuindo ao demónio o que é divino («Tem um espírito maligno»), Deus não tem lugar, isto é, não há espaço para o perdão que Deus oferece, simplesmente porque este perdão é recusado: «Não tem perdão para a eternidade, mas é réu de pecado eterno».

Quando os familiares de Jesus chegam, ficam do lado de fora. Dentro, ao redor de Jesus, há uma multidão de gente… «Quem são minha mãe e meus irmãos?». Parece uma pergunta pouco respeitosa para com os familiares. Porém, Jesus não quer excluir a sua mãe e os seus irmãos (familiares) mas estabelecer um conceito de família que inclua todos os que cumprem a vontade de Deus.

Ao pedido da parte dos parentes para ver Jesus, ele responde com uma pergunta: Quem são…?» com a qual parece criar distância em relação aos que estão fora. Depois dirige o olhar para os que estão sentados à sua volta e revela que eles são «sua mãe» e «seus irmãos» porque fazem a vontade de Deus.  Perante os parentes que desejam reconduzi-lo a casa, Jesus não volta atrás, mas reconhece que o elemento importante não é o vínculo de sangue mas o desejo comum de fazer a vontade do Pai. Jesus, desde o momento que escolheu realizar o projecto do Pai, a ligação a ele só pode existir se se vive nesta dimensão de obediência ao Pai: a ligação a Jesus não é questão de sangue, mas de relação com Deus.

Os parentes de Jesus estão «fora», mas os verdadeiros parentes de Jesus estão «dentro» e escutam a Palavra. Quem está «fora» não a escuta e, por isso, não aprende a fazer a vontade do Pai.  A atitude de Jesus não significa, concretamente, uma rejeição de sua Mãe. Ele quere-a junto de si até ao momento supremo da sua morte na cruz. Mas a sua missão é instaurar uma nova família em que os laços não são de sangue. Nele todos se tornam filhos de Deus. A filiação à qual nos chama não é um direito de natureza mas pode ser conquistada apenas com o nosso empenho pessoal em seguir a sua vontade. Maria, com o seu «sim» completo e total está já agregada entre os discípulos de Jesus e com a sua vida dá-nos um exemplo luminoso de dedicação.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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