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XXIII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Breve comentário

Por vezes, Marcos apresenta-nos o ministério de Jesus fora do território de Israel. É o caso do presente texto que não tem paralelo noutros evangelistas. Querer ir da região de Tiro (costa do actual Líbano) para a Galileia e escolher passar por Sídon (ainda na costa do Líbano) e pela Decálope (zona da actual Síria e parte da Jordânia) não é sem dúvida alguma o trajecto mais breve. Vê-se que a intenção do evangelista é apresentar Jesus, missionário do Pai, a visita todos os territórios pagãos e, neles, todos os homens que estão à espera de salvação.

O final do texto apresenta Jesus a cumprir as profecias do profeta Isaías sobre os últimos dias: «Ele tem feito tudo bem (cf. Gn 1,31); faz tanto os surdos ouvirem como os mudos falarem (cf. Is 35,5-6). Além disso, a expressão «Jesus faz bem todas as coisas» ajuda-nos a colocar a acção de Jesus na linha no primeiro relato da criação (cf. Gn 1) em que é dita sete vezes a expressão: «Deus viu que era bom». O que Marcos afirma é que Jesus, com a sua palavra e acção, inicia uma nova criação em que todas as coisas são boas e bem feitas.

Realizar um milagre fora do clássico território de Israel significa a abertura universal do Evangelho. Todos, seja qual for a origem ou a cultura podem ser tocados pela misericórdia de Deus e atingidos pela sua Palavra. Por isso, a cura descrita nesta página do evangelho de Marcos tem um profundo significado simbólico.

Algumas pessoas apresentam a Jesus um homem, naturalmente de origem pagã. O surdo-mudo foi conduzido diante de Jesus. Sozinho, ele nunca iria ter com ele pois, nunca tendo ouvido falar dele nem a ele, como iria desejar encontrá-lo? Tem a particularidade de ser surdo e, portanto, de não conseguir falar. Para a mentalidade dos contemporâneos de Jesus, a surdez era um grande castigo de Deus, vista como maldição, na medida em que impedia a pessoa de ouvir a palavra de Deus. Estava, pois, impedido de chegar à salvação.

A cura do surdo-mudo assemelha-se a um exorcismo. Primeiro, Jesus afasta-o da multidão. O homem encontra-se sozinho diante de Jesus, como Adão, o primeiro homem «plasmado» pelas «mãos» de Deus, mas ainda não tornado «ser vivente» (cf. Gn 2). Jesus leva-o para um lugar à parte para evitar os entusiasmos fáceis da multidão e porque, por sua vez, o homem curado deverá ouvir e professar o mistério de Jesus filho de Deus. Primeiro, Jesus, depois de erguer os olhos ao céu, em atitude de oração, abre os ouvidos ao surdo, tocando-lhe. Depois toca com a sua saliva na língua do mudo que, finalmente, falará correctamente. Jesus faz passar o seu poder para este homem doente: a natureza é restaurada, os dedos e a saliva têm o efeito duma «nova criação. O suspiro de Jesus, por um lado é participação no sofrimento do surdo-mudo, por outro lado é antecipação da cura: «Effathá». Agora está em condições de ouvir e de poder falar, isto é, de escutar a Palavra e de poder comunicar com Deus.

O texto termina com a recomendação de Jesus, na linha do segredo messiânico, a que ninguém divulgasse o acontecimento. Mas o resultado, como habitualmente, é o contrário: o facto é apregoado pela multidão extasiada que vê em Jesus a realização da profecia de Isaías.

Por trás deste texto, Marcos apresenta a catequese baptismal que a igreja primitiva conservou e chegou aos nossos dias.

 P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

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