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Homilia de D. António Moiteiro na peregrinação diocesana ao Santuário de Fátima

D. António Moiteiro, na Basílica da Santíssima Trindade. Peregrinação diocesana a Fátima – 29 setembro 2018. Foto: AJ/Correio do Vouga

PEREGRINOS COM MARIA, MULHER, MÃE E DISCÍPULA

«Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12,21)

  1. Os anjos são portadores de boas notícias

As palavras da Carta de S. Paulo aos Romanos são a síntese da festa litúrgica que hoje celebramos: o Filho do homem virá sobre as nuvens do céu e «foi-lhe entregue o poder, a honra e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram». O mal foi derrotado graças «ao sangue do Cordeiro e à palavra do testemunho» que deram os discípulos de Jesus.

Na Sagrada Escritura, os anjos aparecem com uma missão especial e a Igreja celebra-os, de um modo particular, na festa dos arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael. Os seus nomes, enquanto mensageiros de Deus, indicam a missão para a qual foram criados, uma vez que são criaturas puramente espirituais. Miguel significa «Quem como Deus?», é o anjo dos grandes combates, o guia da viagem da nossa vida e o protetor da Igreja; Gabriel significa «Deus é a minha força», é o enviado por Deus para anunciar a Zacarias o nascimento do Precursor e revelar a Maria que ela está predestinada a ser Mãe do Filho de Deus; Rafael significa «Medicina de Deus», manifesta-se na Bíblia como protetor de uma família, a de Tobias, que luta perante as dificuldades e provações a que é submetida, é companheiro de viagem, defensor dos mais pobres e medicina de Deus para os mais desfavorecidos.

Na vida de Jesus a presença dos anjos está muito presente na infância, na vida pública, na Sua paixão e morte e, sobretudo, no anúncio da Sua ressurreição: «Da Encarnação à Ascensão, a vida do Verbo Encarnado é rodeada da adoração e serviço dos anjos. Quando Deus “introduziu no mundo o seu Primogénito, disse: Adorem-n’O todos os anjos de Deus” (Heb 1, 6). O seu cântico de louvor, na altura do nascimento de Cristo, nunca deixou de se ouvir no louvor da Igreja: “Glória a Deus […]” (Lc 2, 14). Eles protegem a infância de Jesus, servem-n’O no deserto e confortam-n’O na agonia no momento em que por eles poderia ter sido salvo das mãos dos inimigos, como outrora Israel. São ainda os anjos que “evangelizam”, anunciando a Boa-Nova da Encarnação e da Ressurreição de Cristo. E estarão presentes aquando da segunda vinda de Cristo, que anunciam, ao serviço do seu juízo» (CCE 333).

2º Chamados a sermos discípulos

No Evangelho de hoje – o chamamento de Natanael ou do apóstolo S. Bartolomeu – vemos como a vida humana, desde o seu começo até à morte, é acompanhada pela assistência e intercessão dos anjos. «Cada fiel tem a seu lado um anjo como protetor e pastor para o guiar na vida. Desde este mundo, a vida cristã participa, pela fé, na sociedade bem-aventurada dos anjos e dos homens, unidos em Deus» (CCE 336)

Uma consequência imediata da fé é a necessidade de a transmitir, de evangelizar outros. A fé cristã não é “acreditar em algo”, mas abrir-se profundamente a uma relação pessoal com Deus, que se comunica a nós.

Acompanhado pelo Seu pequeno grupo, Jesus entra na Galileia, lugar de formação da sua comunidade. E continua a chamar novos discípulos. Chama Filipe, e como aconteceu com André que conduziu Pedro a Jesus, também agora chama Natanael, um israelita convicto (1, 47) a quem, com a linguagem dos profetas, poderíamos designar como um do “resto de Israel” ou dos “pobres de Javé”. As palavras de Filipe indicam que ele estava convencido de ter encontrado o Messias anunciado por Moisés.

No triénio pastoral, que estamos a iniciar na nossa Diocese de Aveiro, pretende-se descobrir o dom da vocação como seguimento de Jesus, como resposta ao Seu chamamento.

A opção por um triénio dedicado à vocação, ao seguimento de Jesus, faz-nos recentrar a vida da Igreja em Jesus – opção que a Igreja sempre tomou em tempos de crise e de dificuldade.

Seguir Jesus não é uma opção cuja iniciativa seja nossa: os discípulos são destinatários de um convite; é Ele quem toma a iniciativa. O conteúdo do convite é o próprio Jesus; por isso, a resposta ao Seu chamamento exige entrar na mesma dinâmica que Ele imprimiu à sua vida. (Carta Pastoral Jesus chamou os que Ele quis… 1).

  1. Desafios pastorais

Para o triénio pastoral que agora estamos a iniciar foi publicada a Carta Pastoral Jesus chamou os que Ele quis… eles foram…, para a qual chamo a atenção da Diocese e proponho dois desafios pastorais para irmos concretizando ao longo deste ano de 2018-2019.

1º Descobrir o caminho que Deus pede à nossa Diocese de Aveiro

O caminho só se faz caminhando. Jesus, depois de ter chamado os discípulos, propôs-lhes, com palavras e com gestos, o mistério e a realidade do Reino de Deus. Agora, envia-os ao mundo para testemunhar e anunciar este Reino.

Toda a renovação autêntica exige coragem, dinamismo e conversão interior de pessoas e estruturas. «Como podemos despertar a grandeza e a coragem de escolhas de amplo alcance, de impulsos de coração para enfrentar desafios educativos e afetivos?”. Já repeti muitas vezes: arrisca! Arrisca! Quem não arrisca não caminha. “Mas se eu errar?”. Bendito o Senhor! Errarás mais se permaneceres parado, parada» (Papa Francisco, Discurso na Villa Nazareth, 18/6/2016). É este o desafio que a todos se nos coloca; ter a audácia suficiente para romper com certos preconceitos, medos e comodismos. A alegria do Evangelho é a nossa missão. Em fidelidade a Cristo e à missão confiada à Igreja, exorto todos os fiéis, em particular os jovens, para que tenham o coração aberto ao chamamento do Senhor Jesus que convida a segui-lo – a enamorarem-se por Cristo (Carta Pastoral Jesus chamou os que Ele quis… 22).

2º Fortalecer a Iniciação Cristã como caminho para ser discípulo

A resposta ao chamamento supõe um caminho de fé. Só é possível haver na Igreja vocação laical, sacerdotal, ou de consagração, se houver educação da fé. Num mundo muito diferenciado, não faltam sinais de esperança, de vitalidade religiosa e espiritual, que se podem aproveitar se efetivamente soubermos ser criativos, permanecendo fiéis ao que queremos transmitir. Temos de garantir a transmissão do núcleo fundamental da nossa fé: o mistério de Cristo morto e ressuscitado. A Iniciação Cristã, nas suas várias etapas, tem de estar muito presente na vida de todos os batizados. Somente cristãos convencidos da sua fé podem ser testemunhas do Ressuscitado e membros ativos da Igreja.

 

Nas vésperas do Sínodo dos Bispos sobre «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», atenção particular deve ser dada aos jovens no aprofundamento da sua fé e nas suas escolhas vocacionais que são chamados a fazer. É necessário saber escutar os jovens, dar-lhes a palavra, confiar neles e acompanhá-los; proporcionar-lhes experiências que deem sentido à sua vida, ajudá-los a discernir as ações dos seus corações e orientá-los nos momentos particularmente significativos (Carta Pastoral Jesus chamou os que Ele quis… 23).

 

Contemplando Maria, a jovem que acolheu a vontade do Senhor, mãe e mestra de discernimento, de seguimento incondicional e de serviço atento aos outros, e a vida de Santa Joana Princesa, nossa padroeira, compreenderemos a beleza da vida entregue ao projeto de Deus. Guiados pelo seu exemplo seremos capazes de discernir, fazer opções vocacionais para que esta beleza se torne vida e resplandeça no mundo.

 

 

Pai Santo,

fonte perene de existência e de amor,

Tu manifestas, no ser humano,

o esplendor da tua glória,

e colocas no seu coração

a semente do teu chamamento.

Faz de nós teus autênticos discípulos,

no matrimónio, no sacerdócio e na vida consagrada

e, abrindo-nos ao dinamismo do Espírito Santo,

cheguemos a ser imagem

do teu ser e do teu amor.

Ámen.

 

Santuário de Fátima, 29 de setembro de 2018

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Avei

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