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XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Breve comentário

O evangelista começa por recordar que Jesus está a caminho de Jerusalém, onde completará a sua missão de entrega, doação e serviço. Por outro lado, já tinha feito dois anúncios da paixão, com o convite a todos a seguir o mesmo caminho e com as respectivas incompreensões por parte dos discípulos.

O texto apresenta-nos um homem sincero, cumpridor dos mandamentos, o que, segundo a mentalidade da época já era o suficiente para «merecer» a vida eterna. Mas este homem procura algo mais. Tem consciência que a vida eterna não se merece, mas alcança-se por herança, é dada gratuitamente por Deus. A resposta que ele dá a Jesus («… desde a juventude») leva-nos a concluir que não se trata duma pessoa muito jovem (o que acontece no texto paralelo de Mt 19,20).

Jesus olha para ele com simpatia, fazendo-lhe uma segunda proposta na linha do convite antes feito a todos: o não apego aos bens, a ajuda aos pobres e a segui-lo. Aqui reside a maior dificuldade daquele homem que, apesar de observar piedosamente a lei, está demasiado agarrado aos seus bens.

A lição de Jesus mostra a impossibilidade de conciliar o Reino de Deus com o apego às coisas. Quem está encerrado em si mesmo, cheio e rico de si mesmo, está encerrado a uma abertura aos outros e a Deus.

Para a mentalidade da época, Deus abençoava com os bens da terra (saúde, filhos, longa vida, riquezas) aqueles que cumpriam os mandamentos e, por isso, eram considerados justos. Daí que ter saúde, muitos filhos, ter longa vida e ser rico era um sinal de bênção para quem era bom e justo. Por isso a incompreensão perante o que Jesus diz: «É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus». Trata-se dum dito autêntico de Jesus em forma de provérbio. Existe a versão em que a palavra kamelos («camelo») é substituída por kamilos («amarra», corda grossa usada nas embarcações). De qualquer modo, o provérbio salienta uma impossibilidade. Não admira, portanto, a exclamação de Pedro: «Se este não se salva, quem poderá salvar-se?».

Jesus resolve o dilema recordando que «tudo é possível a Deus». Esta afirmação encontra-se pela primeira vez referida à maternidade inesperada de Sara, a idosa mulher do ancião Abraão (Gn 18,14). Da mesma maneira que Deus pode fazer um seio estéril e velho gerar, tal como pode fazer das pedras filhos de Abraão (Lc 3,8), Ele pode também fazer de modo que um rico entre no seu reino. Quando os recursos humanos parecem estar esgotados, abre-se sempre uma possibilidade por acção de Deus. Portanto, existe essa possibilidade para o rico, mas não graças a esforços pessoais, mas apenas em virtude da graça de Deus.

Jesus apela a uma visão diferente da vida e das coisas. Não se trata duma renúncia das coisas pela renúncia em si mesma mas por um valor maior: seguir Jesus e o anúncio do evangelho. São valores que só podem ser vistos com os olhos de Deus. Nem todos estão em condições de perceber esta forma de vida, pelo que quem a vive terá de enfrentar oposições, perseguições. Mas existe uma garantia de felicidade (cem vezes mais) para quem faz esta opção de renúncia de si mesmo e a certeza de ter a vida eterna.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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