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III Domingo do Advento – Ano C

Breve comentário

O texto evangélico deste III Domingo do Advento está em continuidade com o texto do II Domingo, apresentando-nos o conteúdo da pregação de João Baptista na linha dos outros evangelhos, mas acrescentando uma parte própria (vv. 10-14). Às multidões que vinham para ser baptizadas, João pregava a conversão, isto é, uma mudança de mentalidade e chamava-lhes duramente «raça de víboras», pois a mudança de mentalidade deve ter consequências no modo de agir. Por isso, João dizia a todos: «Produzi frutos que provem a vossa conversão» (v. 8). É na sequência desta forte admoestação que surge o texto de hoje.

A primeira parte do texto apresenta três grupos de ouvintes da palavra de João, a quem pedem indicações concretas para a sua vida: multidões, publicanos e soldados. A conversão é necessária para todos, em geral, e é possível mesmo para aquelas pessoas que parecem estar mais longe, como é o caso dos publicanos (cobradores de impostos) e dos soldados.

A pergunta fundamental: «Que devemos fazer?» faz lembrar o itinerário baptismal cristão. Também os ouvintes de Pedro em dia de Pentecostes fazem a mesma pergunta (Act 2,37); o mesmo acontece com o carcereiro em relação a Paulo e a Silas (Act 16,30). O evangelista Lucas mostra claramente que uma verdadeira conversão exige uma mudança de vida que se traduza em acções de solidariedade e misericórdia para com os outros. É assim que é apresentada a comunidade primitiva (Act 2,44; 4,32).

A resposta de João, mesmo se genérica, indica no amor do próximo o princípio base da sua proposta ética. De resto, o conselho está na linha de diversas passagens proféticas e sapienciais que reconhecem o valor expiatório das boas obras (cf. Is 58,7; Mq 6,8; Pr 16,6). As indicações têm em conta a situação concreta; as pessoas que chegam junto de João vêm de longe e, por isso, devem preocupar-se com a comida e o pernoitar (o manto servia de coberta para a noite: cf. Mt 5,40; Ex 22,25). A atenção e ajuda ao outro começa hoje!

Nos versículos seguintes aparecem duas categorias particulares, olhadas habitualmente de forma negativa, a quem João dá indicações concretas, conforme a situação das suas vidas. São convidados a não se aproveitarem da sua actividade com fins egoístas e a comportarem-se de maneira honesta.

A pregação de João é muito semelhante à de Jesus e apresenta temas retomados ao longo da obra de Lucas, como a pobreza. Já o historiador judeu Flávio Josefo, que viveu no séc. I, deixou escrito no seu livro Antiguidades Judaicas: «(João) era um homem bom e dizia aos judeus que praticassem a virtude, assim como a justiça uns para com os outros e a devoção a Deus, e depois fossem ao baptismo».

A segunda parte do texto apresenta-nos o paralelo entre João e a figura do Cristo que está para se manifestar.

No anúncio que faz o Baptista da vinda do Messias Salvador entra também a apresentação que dele faz como alguém mais forte, do qual ele não é digno de desatar a correia das sandálias. Facilmente identificamos aqui uma atitude de humildade perante aquele que há-se vir, declarado «mais forte». O rabi Josué Ben Levi (séc. III) dizia: «Um discípulo deve fazer ao seu mestre todos os serviços que um escravo faz ao seu senhor, excepto desatar as suas sandálias».

Por detrás desta expressão poderá estar outra ideia mais profunda. Lucas parece aludir ao costume de tirar a sandália a alguém quando este renunciava ao direito de tomar como mulher a viúva do irmão defunto (Dt 25,5-10). João, aludindo a este rito, diria: não tenho autoridade de submeter Jesus ao rito da sandália; não tenho o direito de tomar a esposa (Israel); não sou eu o esposo; Jesus é o verdadeiro esposo. Teríamos assim uma alusão a passagens do Antigo Testamento em que se fala de Israel (ou Jerusalém) como esposa e de Deus como esposo (cf. Os 2,18-25; Is 54,6-7). Quando toda a gente se interroga se João não será o Messias-Esposo, ele deixa claro que não é.

João salienta a sua tarefa de preparação: baptismo com água como sinal de conversão, e, ao mesmo tempo aponta, não para um Cristo terreno, mas para alguém muito acima, de ordem divina, que triunfará sobre o mal e o pecado, isto é, em linguagem profética, separará o trigo da palha.

O baptismo no Espírito, agora anunciado, vai encontrar eco no livro dos Actos dos Apóstolos: «João baptizava com água; vós sereis baptizados com o Espírito Santo…» (Act 1,5; cf. 11,16; 19,4).

A narração da actividade de João conclui-se com uma frase que resume a sua pregação com os termos característicos da segunda parte do livro de Isaías (cc. 40–55): exortação, consolação e anúncio da Boa Nova. Tal como o antigo profeta, também João «evangeliza», ou seja, anuncia a Boa Nova ao povo de Deus, através de exortações que o levem a um regresso, não à pátria, como o antigo povo, mas a Deus, numa verdadeira conversão que será selada com o dom do Espírito Santo.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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