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IV Domingo do Advento – Ano C

Breve comentário

A figura de Maria é posta perante os nossos olhos neste IV Domingo do Advento, embora a figura de João Batista continue em segundo plano.

No texto da Anunciação é dado a Maria um sinal de que para Deus nada é impossível: «A tua parenta Isabel concebeu um filho na velhice e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril» (Lc 1,36). Literariamente, o texto deste domingo surge, assim, como uma sequência natural, mas é mais do que uma simples narração dum acontecimento. A maneira como está descrito é sobretudo uma catequese.

O episódio insere-se nos dois primeiros capítulos do evangelho de Lucas, habitualmente chamados Evangelho da Infância, não porque sejam uma narração fidedigna de factos mas porque são um alegre anúncio acerca de Jesus. Os dois capítulos estão construídos em forma de díptico, fazendo uma apresentação da figura de João e de Jesus, enaltecendo, por um lado, a figura de João e mostrando as diferenças fundamentais deste em relação a Jesus. O episódio deste domingo é um encontro destes dois e das duas mães que têm uma conversa muito fora do comum. O evangelista Lucas põe na boca das duas mães uma recolha de textos do Antigo Testamento.

O sinal dado pelo anjo, relativo à maternidade de Isabel, como confirmação da maternidade de Maria, impele Maria a realizar a viagem de mais de 150 km. A pressa, referida por Lucas, é um sinal da plena obediência de Maria às palavras do anjo.

A saudação de Maria, que traz no seu ventre o Príncipe da Paz, provoca alegria em Isabel e no filho que tem no seu ventre. A habitual saudação judaica – «A paz esteja contigo» – atinge aqui uma profundidade que será explicada mais à frente. Aquele que vai nascer será motivo de Alegria para todo o povo e de Paz na terra.

As palavras de Isabel são ditas num «grande grito», uma expressão que faz lembrar textos do Antigo Testamento, num contexto litúrgico, relativos à arca da Aliança. Isabel saúda Maria como foram saudadas Jael (Jz 5,24) e Judite (Jt 13,18), duas mulheres de quem Deus se serviu para obter a libertação do seu povo. Maria é a jovem simples e humilde que se torna instrumento de salvação através do seu Sim que torna possível a encarnação do Filho de Deus, o fruto do seu ventre.

«E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor?». Também esta frase é tirada do Antigo Testamento que refere o transporte da Arca da Aliança para Jerusalém ao tempo de David, que exclama: «Como virá a Arca de Yahweh ficar na minha casa?». Por isso, a Arca ficou três meses na casa de Obed-Edom (2Sm 6,9-11). Também Maria, Arca da Aliança, irá permanecer três meses em casa de Zacarias e Isabel (Lc 1,56).

Lucas quer dizer que Maria é a verdadeira Arca da Aliança porque traz dentro de si o Verbo encarnado. Isabel, enquanto adverte a presença do Filho de Deus no seio de Maria é revestida pela acção do Espírito Santo e também, no seu seio, o futuro João Baptista «estremece de alegria», usando o mesmo verbo usado para a reacção de Esaú e Jacob no seio de sua mãe Rebeca.  A presença de Deus e a acção do seu Espírito são, no evangelho de Lucas, sempre motivo de alegria.

Sob a acção do Espírito Isabel profetiza, dizendo: «E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Feliz daquela que acreditou, porque tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido». Maria é feliz, não pela sua maternidade miraculosa, mas pela sua fé na Palavra de Deus, aquela fé que tornou possível o impossível: Deus faz-se homem entre os homens!

Isabel reconhece em Maria a mãe do seu Senhor. As suas primeiras palavras, o seu grito de fé aclamam a criança que Maria traz no seu seio como se aclamava o próprio Deus: «Bendito». Jesus recebe, assim, na bênção de Isabel, o lugar de Deus. Jesus é aqui chamado com o título de «Senhor», usado habitualmente por Lucas, e só por ele, já na parte narrativa do evangelho. É o nome que Jesus adquire com a Ressurreição, um título cristão, que resume tudo o que o anjo tinha afirmado a Maria (rei, Messias, Filho de Deus).

A conclusão das palavras de Isabel parece mais uma afirmação válida para todos os crentes, fazendo lembrar Lc 11,27-28: «Uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse: ‘Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!’. Ele, porém, retorquiu: ‘Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática’». Assim, Maria é apresentada por Isabel como figura dos crentes, que são felizes porque creem na palavra de Deus. Ela acreditou e, por isso, é a verdadeira mãe do Senhor.

O texto encerra com a exclamação de louvor por parte de Maria que entoa o início do Magnificat: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador».

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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