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Festa da Sagrada Família – Ano C

Breve comentário

Geralmente lê-se este episódio da infância de Jesus em chave psicológica, lendo aí a ânsia de tantos pais chamados a aceitar as escolhas dos filhos, pais que vêem os seus filhos a tomarem os seus próprios rumos e a afastarem-se de casa e do olhar vigilante de quem constantemente os seguiu; este aspecto é verdadeiro e legível na narração, mas uma análise mais atenta e profunda revela-nos outros dados que estão no pensamento do evangelista.

O evangelista Lucas narra a infância do Salvador à luz dos acontecimentos da sua Páscoa. O quadro da perda e encontro de Jesus apresenta antecipadamente o mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Maria e José representam a comunidade cristã que perdeu de repente o seu mestre mas depois de «três dias» de espera e de procura consegue encontrá-lo ressuscitado na glória do Pai.

Colocado como final dos dois primeiros capítulos de Lucas, este episódio tem valor de profecia e projecta-se para o futuro. A primeira palavra de Jesus lança uma nova luz sobre tudo o que foi dito até aqui a propósito do filho-servo e, ao mesmo tempo, fornece a chave de leitura de todo o resto do evangelho. A primeira palavra: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar nas (coisas) de meu Pai?», dada como resposta a quem o procurou e encontrou ao terceiro dia, manifesta o modo filial como Jesus se empenhou na história dos homens. Numa submissão absoluta em relação ao Pai, Jesus introduz-nos no coração do mistério da sua pessoa, que escapa à nossa compreensão: «Eles não compreenderam» (v. 50). «Não sabíeis que eu devia…?». O evangelista, ao longo do seu evangelho, irá retomar mais 18 vezes este sentido de necessidade imperiosa de realizar o projecto do Pai.

A narração começa com um acto de obediência de Jesus à Lei e termina com um gesto de submissão em relação aos pais. O menino tornou-se um homem: livremente «desceu com eles, voltou a Nazaré e era-lhes submisso» (v. 51). Todo o episódio deixa perceber que esta obediência é algo mais profundo que o respeito ou a reverência que cada judeu devia ter para com os seus pais.

Chegada à maioridade religiosa, normalmente com a idade de 13 anos, o menino hebreu tornava-se «bar mitzvah», isto é, «filho do preceito». A partir daí devia observar as prescrições da Lei, em particular no que respeita às 3 festas principais (Páscoa, Pentecostes, Tabernáculos) que deviam ser acompanhadas com uma peregrinação a Jerusalém. O evangelista Lucas apresenta esta subida de Jesus a Jerusalém aos 12 anos, naturalmente inspirando-se na figura do profeta Samuel que foi apresentado no templo de Silo, na festa da Páscoa, quando tinha 12 anos.

A escolha do Templo como lugar de manifestação do Filho é tipicamente lucana: Nele tem início o evangelho (1,8-9) e Simeão reconhece a salvação esperada por Israel (2,29-32). É com uma referência ao Templo que termina o evangelho (Lc 24,53).

A insistência de Lucas na sabedoria de Jesus não deve passar despercebida. No v. 47, o menino que interroga os rabinos peritos no conhecimento da Torah (Lei) é apresentado como um mestre que responde às suas perguntas. Surge a maravilha, tão comum em Lucas, diante daquele que se apresenta como a Palavra de graça e à luz do qual todo o Antigo Testamento irá ter sentido. Por isso, Jesus ressuscitado interpreta as Escrituras aos discípulos de Emaús e, aos discípulos reunidos, abriu-lhes a mente para que as entendessem (24,45).

É a sabedoria do Filho que vive na intimidade do Pai e no qual confia. Por isso, a oração confiante ao Pai no monte das Oliveiras ou a sua última palavra antes de morrer: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito». Também Jesus ressuscitado, antes de deixar os seus, lhes indicará o Espírito como «a promessa do Pai» (24,49).

Com a resposta a Maria e a José, Jesus começa a distanciar-se dos seus. A Páscoa em que se situa este texto é uma prefiguração da última Páscoa de Jesus na qual, depois de três dias, as mulheres e os discípulos, não encontrando o corpo de Jesus, se rendem à evidência: realmente Jesus está junto do seu Pai. E as duas testemunhas, no túmulo, recordarão às mulheres a palavra de Jesus: «é necessário que seja entregue…» (24,7).

O final do texto apresenta um refrão muito caro a Lucas: «Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração», na esperança de que um dia lhe seja dado perceber o que sucedeu. Esta primeira ruptura anuncia a última em que ela perderá definitivamente o seu Filho para, depois de três dias o reencontrar para sempre na fé.

«E desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso». À primeira vista, parece-nos que a partir daqui Jesus nunca mais desobedeceu aos pais e passou a ser bem comportado. Mas o que Lucas quer dizer é algo de diferente e mais profundo. O mandamento «honra teu pai e tua mãe» tornou-se uma realidade visível na pessoa de Jesus. De facto, este mandamento significa fundamentalmente acolher todos os ensinamentos transmitidos pelos pais (Dt 6,20-25) e imitar a sua fidelidade a Deus na linha da tradição dos antepassados. Neste sentido os pais de Jesus puderam sentir-se muito «honrados» naquele filho que aprendeu a fé dos pais e o amor à palavra de Deus, referência fundamental da sua vida e que ele iria cumprir e levar à plenitude.

Jesus viveu em família como qualquer pessoa, o que significa que a salvação não é estranha à vida comum dos homens. Com efeito, em Nazaré não há milagres nem pregações nem ajuntamentos de multidões. A família de Jesus era uma família comum, simples, mas exemplar: amavam-se, mesmo no meio de incompreensões e correções, como nos apresenta o episódio deste domingo. Porém, naquela família há uma profundidade que é revelada pelo evangelho: a centralidade de Jesus. É este o segredo da família de Nazaré. Não será por acaso que o nome Nazaré significa «aquela que guarda», representando toda a vida do discípulo que acolhe, guarda e faz crescer o Senhor no seu coração e na sua vida.

A frase final estabelece uma vez mais a comparação com o profeta Samuel (cf. 1Sm 2,26: «o menino Samuel desenvolvia-se em altura e beleza, diante do Senhor e dos homens»).

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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