Pages Navigation Menu

Festa do Baptismo do Senhor – Ano C

Breve comentário

O espaço que o evangelista Lucas dá ao episódio do baptismo de Jesus limita-se a dois versículos, o que não quer dizer que sejam de pouca importância, muito pelo contrário. Por causa da brevidade do texto, a liturgia faz anteceder o texto com a pregação de João Baptista (vv. 15-16) que já foi lida no 3º Domingo do Advento.

A esperança do Reino de Deus estava profundamente enraizada em todo o povo. A figura de João provoca, naturalmente, a pergunta se ele não seria o Messias esperado, que viria instaurar esse Reino tão desejado. Mas João Baptista é claro na sua pregação: o baptismo pregado e realizado por ele era um rito de iniciação duma nova comunidade que, arrependida dos seus pecados, devia preparar-se para o Reino concretizado em alguém mais forte do que eu. Esta expressão, em linguagem escatológica, refere-se a um ser celeste, mesmo ao próprio Deus: daí o facto de João sublinhar a sua inferioridade perante o que virá depois dele. É com Jesus que vem o Espírito Santo, o dom dos últimos tempos, prometido pelo profeta Ezequiel (36,25-29). João, consciente do seu papel preparador e orientador, acredita que Aquele que anuncia comunicará essa força.

O texto que se segue, na sua brevidade, é profundamente teológico e merece especial atenção. Com a delicadeza própria de Lucas, a atenção do leitor é colocada não tanto sobre o baptismo mas sobre o abrir-se dos céus e a teofania que vem a seguir. Embora pelo contexto seja óbvio que foi o Baptista a baptizar Jesus, todavia isto não é dito. O acento está em que todo o povo era baptizado. E Jesus está entre a multidão… A razão deste acento talvez esteja numa ligação de Lucas ao pensamento de Paulo, segundo o qual Jesus redimiu os homens inserindo-se na massa, aceitando a condição de escravo, submetendo-se à maldição que sobre eles pesava (cf. Gl 3,13; 4,4; Flp 2,6-8).

Quando se abriu o céu, Jesus estava em oração: um detalhe acrescentado por Lucas, na linha do seu evangelho, chamado «Evangelho da oração».

Quem se aproximava do Baptista para ser baptizado, descendo nas águas do Jordão, «confessava os próprios pecados» em voz alta (Mc 1,5). Submeter-se àquele rito equivalia, portanto, a declarar-se necessitado de conversão e de perdão, o que poderia ser motivo de escândalo ou abalo da fé para o leitor ou o ouvinte: como é que Jesus se submeteu a um rito «para a remissão dos pecados»? Que pecados poderia ele ter? Esta reelaboração da narração de Marcos contribui para tornar mais rico e variado o episódio, mas sobretudo atenua a dureza da recordação que Jesus «foi baptizado por João Baptista com um baptismo para a remissão dos pecados».

O resto da narração soa quase como em Marcos: o céu (não os céus) abre-se; o Espírito (Lucas acrescenta Santo) manifesta-se; o evangelista sublinha a aparência corpórea, como uma pomba.

No Antigo Testamento, o texto mais próximo do nosso é o texto de Ezequiel: «Abriram-se os céus (plural) e vi visões divinas» (Ez 1,1). É a visão que consagra Ezequiel como profeta. Tal como Ezequiel, e bastante mais do que ele, Jesus é admitido à visão dos segredos de Deus; é-lhe revelada a predilecção que tem por ele o Omnipotente, predilecção do Pai pelo filho único; e recebe uma comunicação muito pessoal do Espírito. Esta investidura do carisma profético não tem paralelo em nenhum profeta do Antigo Testamento. Toda a atenção está fixa apenas sobre Jesus, para o qual é reservada a visão, assim como para ele é enviado o Espírito.

O que poderia compreender Lucas na aparição do Espírito em forma de pomba? Talvez a primeira ideia que podia surgir, num judeu habituado a escutar a Bíblia, fosse a da familiaridade, da amizade. «Pomba» é o termo que ocorre no Cântico dos Cânticos. Também a conhecida narração do dilúvio falava da pomba como de um animal familiar a Noé. Provavelmente a cena levava o pensamento também a uma outra recordação bíblica: Gn 1,2: «E o espírito de Deus pairava sobre as águas». O termo grego pneuma traduz aí o hebraico ruah, que significa «vento», «sopro vital», mas também «espírito» (Santo). O Espírito de Deus pairava sobre as águas primordiais para dar início à criação e à vida: um início novo, uma nova criação se actuava também no Jordão.

No Antigo Testamento, o termo «Espírito de Deus» é de extrema importância. Sobre Jesus desce o Espírito de Deus que se encontrava junto de Deus no início da criação, que tinha estado nos reis e profetas, prometido ao Servo de Yahweh e ao Messias. Desce sobre ele como sobre pessoa familiar, amiga.

A voz do Pai ressoa dos céus, há pouco escancarados, dirigida pessoalmente a Jesus para lhe declarar o amor de predilecção que o Altíssimo nutre por ele.

E veio uma voz do céu: ‘Tu és o meu Filho muito amado: em ti pus o meu enlevo – Se Lucas tem no pensamento um texto, este é provavelmente Gn 22, onde o adjectivo predilecto/unigénito é dito repetidamente acerca de Isaac. É evidente que o termo exprime antes de mais a ideia dum amor paterno, terno, sem rival. Na 2ª parte do livro de Isaías a predilecção de Yahweh pelo Servo era expressa com o mesmo tom de doçura (Is 42,1).

A proclamação é dirigida pessoalmente a Jesus. O diálogo entre Deus e o filho predilecto é sem intermediários e sem testemunhas, numa intimidade de amor. Para Jesus desceu o Espírito; para ele se abriram os céus; a ele fala o Pai: «tu és …».

Num formidável encontro de afecto, Jesus é reconhecido por Deus não só como Messias davídico (alusão ao Sl 2) e Servo de Yahweh (alusão a Is 42) mas, bem mais, como Filho Único. Enquanto ele se submete em silêncio ao rito dos pecadores, Yahweh lhe atesta um amor sem comparação. Ele pertence a Deus; para ele é o amor de Deus.

Em ti pus o meu enlevo – A referência aos cantos do Servo de Yahweh, apenas acenada no adjectivo «predilecto», torna-se agora explícita. Acerca do Servo sofredor, o Deutero Isaías dizia: «Eis o meu servo que eu sustenho, o meu eleito em quem pus as minhas complacências. Eu pus o meu espírito sobre ele» (Is 42,1). Na passagem profética, Deus garantia ao Servo o seu sustento e o dom do Espírito; proclamava-o seu eleito e declarava comprazer-se nele. A afinidade com o texto de Lucas é grande e evidente. Descendo nas águas para o rito do perdão, Jesus tomou sobre os ombros a parte do Servo; o Pai confirma-o solenemente.

Ao longo do seu ministério, Jesus manifestará a convicção profunda, evidente, a tranquila consciência de Filho de Deus. Para o antigo leitor de Lucas esta consciência tinha a sua origem exactamente no princípio do evangelho, na palavra do Pai, embora no primeiro e segundo capítulos, o leitor já tivesse sido informado acerca da verdadeira origem de Jesus. A resposta do Filho irá aparecer de forma muito especial no final da sua vida terrena: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito».

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Facebook
  • Google+
  • Twitter
  • YouTube