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II Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

Uma primeira nota fundamental para a compreensão do texto deste domingo é o facto de S. João chamar sinais aos gestos miraculosos de Jesus, conforme refere claramente no final desta narração e no primeiro epílogo do seu evangelho: «Jesus fez muitos outros sinais…» (Jo 20,30). Por isso, por detrás da narração do milagre da transformação da água em vinho, ocorrido durante as bodas dum casamento, devemos estar atentos para descobrir a realidade profunda que o evangelista está a apresentar.

S. João começa o seu evangelho por apresentar uma semana de actividade de Jesus. No terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá. Esta referência ao terceiro dia liga-se a quanto foi narrado imediatamente antes, isto é, o chamamento dos discípulos Filipe e Natanael (1,43-51); com as bodas de Caná conclui-se a semana inaugural da actividade de Jesus no texto de João, um eco intencional da semana da criação (cf. Gn 1). O «terceiro dia» é uma expressão típica na tradição cristã pois recorda a Páscoa de Jesus e esta ideia é aqui reforçada pela referência à hora de Jesus.

As bodas realizam-se em Caná, nome que, em hebraico, está relacionado com o verbo qanah (adquirir), provavelmente para aludir ao «povo adquirido por Deus» (Ex 15,16; Dt 32,6; Sl 72,4). Caná da Galileia é uma pequena povoação pouco distante de Nazaré, embora mais importante que esta porque se encontrava à beira da estrada principal conhecida como Via Maris.

Estranho casamento este. Não se fala da noiva; o noivo, de quem não se diz sequer o nome, não sabe o que se passa. Mais activos são os serventes, que se limitam a cumprir ordens, e o mestre-sala que verifica a qualidade do vinho. Intervenientes activos são a mãe de Jesus e o próprio Jesus. Os discípulos estão presentes, vêem a glória de Jesus e crêem nele.

A mãe de Jesus aparece aqui no início do seu ministério e no final da vida pública, junto à cruz, sem que, no entanto seja mencionado o seu nome. A vida de Jesus foi distante de sua mãe. Jesus destacou-se dela, viveu a sua vida e fez as suas experiências. No entanto, Maria esteve sempre presente, mesmo na ausência. Ela é bem a figura da comunidade que adverte a falta de alegria, de festa, simbolizada na falta de vinho. No Antigo Testamento, o povo de «Israel» (nome feminino na língua hebraica) é chamado «esposa». E os profetas tinham anunciado o reino de Deus na imagem dum banquete com vinhos excelentes (Is 25,6). A mãe de Jesus estava lá…

«Jesus foi convidado para a boda e os seus discípulos também». É Jesus o convidado ou é ele quem convida para as núpcias do vinho novo, as núpcias do homem com Deus?

Depois da introdução, João passa à narração: a mãe de Jesus apercebe-se que está para faltar o vinho e transmite essa preocupação ao seu filho: «Não têm vinho». Na sua afirmação vê-se a atenção em relação às pessoas, no caso os esposos, que estão para passar por uma triste figura.

«Mulher, que há entre mim e ti?». É uma frase dura que sublinha a distância entre dois interlocutores. Jesus parece não querer saber do problema. Ele agia em nome de Deus e em nome de mais ninguém; é um homem livre que quer cumprir somente a vontade do Pai.

«Ainda não chegou a minha hora ». A novidade radical que Jesus traz está ligada a um momento futuro, «a sua hora», que será a sua morte, a sua hora de passar deste mundo para o Pai (13,1). É aí que começará a nova criação, a Nova Aliança, o culminar do «casamento» de Jesus com o novo Povo-esposa. A indicação da hora sugere, de certo modo, que o sinal de Caná antecipa a hora de Jesus, ou seja, a manifestação da sua glória que, para o IV Evangelho a crucifixão é a glorificação de Cristo.

«Fazei o que Ele vos disser». O que Maria diz aos serventes retoma alguns textos do Êxodo (Ex 19,8; 23,3.7) que indicam a obediência de Israel à lei de Deus. Portanto, ela representa o novo Israel que colabora com a obra da redenção realizada pelo Messias, dizendo aos serventes que ajam com obediência às ordens de seu filho.

«Havia ali seis talhas de pedra para a purificação dos judeus, cada uma contendo de duas ou três medidas». O número 6 indica a nossa imperfeição (o 7 é a perfeição, a maturidade): falta alguma coisa de essencial, de vital. São talhas de pedra, de material frio, sem vida, destinadas a conter água para os gestos rituais dos judeus, segundo a Lei. Mesmo levando muita água, 500-600 litros, falta algo de essencial e estavam vazias, pois os serventes tiveram que as encher…

Com as 6 talhas, João representa a Lei de Moisés, escrita em tábuas de pedra, algo frio e ineficaz, que Jesus vem completar e transformar. Agora, aquela grande quantidade de água transforma-se numa grande quantidade de vinho bom, sinal da enorme abundância do dom de graça oferecido por Cristo.

Chegamos ao centro da narração: com a ordem de encher Jesus realiza o milagre. A pessoa encarregada de orientar o banquete prova o vinho sem nada saber acerca da sua proveniência. O texto insiste na origem misteriosa do vinho, tal como a água que Jesus quer dar à mulher da Samaria (4,11) e o pão que multiplicará (6,5); dons misteriosos que simbolizam a pessoa e a obra do próprio Jesus.

E eis que entra em cena a figura do esposo. Torna-se evidente, na narração de João, que ele está a referir-se a Jesus, o verdadeiro esposo. Temos aqui um dos casos de equívoco ou de duplicidade de significado, próprios do quarto evangelista.

Com um versículo conclusivo, em que se refere novamente Caná da Galileia, João encerra a narração dizendo explicitamente que este é o início dos sinais. Portanto, não o primeiro, mas o início dos sinais, o ponto de partida da completa revelação que Jesus faz de si mesmo através dos sinais. O significado do sinal de Caná é, portanto, cristológico: indica em Jesus o Messias esperado; o contexto nupcial remete-nos para a visão bíblica da era messiânica como uma celebração nupcial; igualmente o sinal do vinho, com a sua abundância e excelência têm muitas referências bíblicas.

Os milagres de Jesus são sinais porque manifestam a sua glória. João está interessado no significado dos gestos prodigiosos de Jesus, que manifestam a sua divindade, mais do que no seu poder, que é sublinhado pelos outros evangelistas.

O evangelista fala aqui, pela primeira vez, da fé dos discípulos de Jesus: é o primeiro passo dum percurso que João descreve em diversas etapas. A fé dos discípulos, como dos cristãos de todos os tempos, deve crescer e aprofundar-se até à sua plenitude.

Agora, a antiga Aliança passou. Com Jesus chegou o Reino de Deus, o tempo do banquete que celebra a nova Aliança, o novo casamento, do Filho de Deus, o verdadeiro Noivo, com o seu povo.

 

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

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