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IV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

O texto deste domingo é a continuação do domingo passado, como nos recorda o v. 21: «Hoje cumpriu-se esta Escritura aos vossos ouvidos». Hoje inicia o tempo da salvação: o acento é posto na Palavra, uma palavra acontecimento (cf. Act 10,36-37); a mesma palavra que também para os leitores de Lucas, e para todas as gerações cristãs, torna presente o Hoje inaugurado por Jesus em Nazaré. Tal anúncio torna-se, pois, importante. O Hoje da salvação chegou porque as Escrituras se cumprem em Jesus.

Para o evangelista Lucas, o início efectivo do ministério de Jesus Cristo, e portanto da salvação, é assinalado com o inaugurar do tempo de graça anunciado por Isaías e que se cumpre na sua pessoa.

A primeira reacção não é de hostilidade, mas de incompreensão. Os conterrâneos de Jesus não conseguem ver o nexo entre as «palavras de graça» e a origem de Jesus conhecida por todos: «Não é ele o filho de José?». A pergunta esconde uma ambiguidade que Jesus, logo a seguir, irá desmascarar. É como se dissessem: «Não é um dos nossos? Não temos nós direitos sobre ele?». Os nazarenos querem apoderar-se de Jesus para usá-lo em seu proveito. Repete-se, substancialmente, a primeira tentação do deserto (4,3). Assim se compreende a reacção dura de Jesus que começa por citar o provérbio bem conhecido: «Médico, cura-te a ti mesmo!». A escolha do dito popular contém um anúncio da tentação presente nas palavras do malfeitor no Calvário: «Não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!». Jesus reage contra a pretensão dos nazarenos em monopolizar a sua actividade, limitando-a à sua terra natal. Jesus deve ir mais longe. Todo o evangelho de Lucas, sobretudo a partir de Lc 9,51, nos mostrará Jesus «a caminho» para realizar a sua missão, para anunciar o alegre anúncio aos pobres.

«Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria». Jesus, como profeta messiânico, insere-se no destino dos profetas que sempre foram rejeitados pelo povo de Israel. O tempo da salvação, anunciado e oferecido, não pode tornar-se realidade para aqueles que o recusam: assim será para Israel, que se fecha ao cumprimento das promessas.

As figuras de Elias e Eliseu, célebres representantes do profetismo, conferem ao texto um carácter típico e exemplar. Elias quase nunca foi acolhido pelo seu povo e grande parte da sua actividade desenvolveu-se fora dos confins de Israel, tendo socorrido uma viúva fenícia. Eliseu, que lhe sucede, cura apenas um leproso que era sírio.

Como estrangeiros, a viúva e o leproso eram considerados separados de Israel. O desígnio da salvação manifestado pela Escritura é claro: a boa nova é destinada a todos sem excepção («Toda a carne verá a salvação de Deus»: 3,6). A história repete-se e o profeta, que não é escutado entre os seus, vai oferecer a salvação aos gentios. Para Lucas, a verdade desta cena cumpre-se de modo total na missão entre os gentios narrada no livro dos Actos.

A parte final do texto sublinha de novo a reacção de todos. Levantam-se com a intenção de matar Jesus. É o conflito já anunciado por Simeão: «Este menino foi colocado para a queda e o ressurgimento de muitos em Israel, e como sinal de contradição». É a sorte dos profetas (cf. 13,33). Tal como no momento da paixão, Jesus é levado para fora da cidade, mas passa pelo meio deles e «seguiu o seu caminho». Não se trata duma simples fuga ou dum desaparecimento milagroso, mas a apresentação do agir de Jesus: Jesus em caminhada desde Nazaré, sua terra natal, até Cafarnaum, por todo o país dos judeus (4,43ss), até Jerusalém (9,51) o centro de Israel. Este esquema corresponde, de modo contrário, à visão dos Actos: uma igreja missionária, em viagem, desde Jerusalém à Samaria, até aos confins da terra, cujo centro é Roma.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

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