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V Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

A leitura deste domingo abre uma nova secção do evangelho de Lucas. Começam a aparecer os discípulos, o núcleo da que será depois a comunidade cristã. É descrita a pregação e a acção de Jesus a envolver por vezes a multidão ou o povo e outros grupos de discípulos. Nesta secção não faltam também os embates com os fariseus e doutores da lei e o anunciar da relação privilegiada de Jesus com os pecadores no episódio da ceia em casa de Levi.

O texto, próprio de Lucas, começa por apresentar o ensino de Jesus, agora às multidões, não no ambiente de sinagoga (4,15), como aconteceu em Nazaré (4,16ss) ou em Cafarnaum (4,31). É junto ao lago de Genesaré, utilizando como púlpito a barca de Simão, mais tarde conhecido por Pedro.

Pedro tinha acolhido Jesus como hóspede em sua casa, em Cafarnaum. Já tinha presenciado como Jesus expulsou um demónio (4,35) e foi testemunha privilegiada da cura realizada por Jesus em relação à sua sogra (4,38-39). Agora o rabi galileu utiliza a sua barca, sentado em atitude de mestre, para ensinar as multidões. Talvez esta honra faça esquecer uma noite sem pescar nada…

Mas a ordem surge depressa: «Faz-te ao largo…!». Começamos a entrever aqui a comunidade cristã que, tendo escutado a mensagem, se dispersa para longe das estreitas fronteiras do povo hebreu. Pedro executa a ordem, apesar de ter apresentado motivos para não o fazer: «Mestre, afadigámo-nos toda a noite e não           apanhámos nada». É motivado pela força da Palavra que foi ouvindo. «Mas à tua palavra…»:  é o primeiro acto de fé, pois arrisca-se a ser mal sucedido. Aquela hora não é de pescar, mas de limpar e arranjar as redes… Porém, o resultado surpreendeu Pedro, vencido na sua segurança de hábil pescador. É capaz de reconhecer no acontecimento a actuação de Deus na pessoa daquele mestre, perante quem se sente muito pequeno e pecador. Chama-lhe Senhor, recomendando: «Afasta-te de mim porque sou um homem pecador!». Pedro adverte a sua indignidade, não em sentido moral, mas pela distância que separa o homem do mundo divino.

O evangelista apresenta esta atitude de Pedro para sublinhar que o encargo que o apóstolo irá receber não é motivado pelas suas capacidades pessoais, pelas forças humanas, mas apoia-se no poder da palavra de Jesus. É precisamente agora, para este homem que se sente fraco, que vai começar uma nova história: «Doravante…». O novo trabalho já não será baseado na habilidade de cada um mas na certeza da presença actuante de Deus: «Não temas!», tal como aconteceu a Zacarias (1,13), a Maria (1,30), aos pastores (2,10).

A bênção recebida por Pedro envolve o futuro: pescador de homens. É este o tema central do texto deste domingo. Mas a palavra usada para pescador (do verbo grego zôgreîn – apanhar vivos) sugere que a tarefa agora será arrancar os homens do poder da morte para que tenham a vida, simbolizada pela quantidade de peixes tirados do mar que, para os judeus, significa abismo e morte.

Figura fundamental da narração é a pessoa de Pedro. O texto desenrola-se de maneira a salientar o ministério a ele confiado: faz um acto de fé na palavra de Jesus, a quem reconhece como Senhor, recebendo directamente o convite para ser pescador de homens.

Simão e os seus companheiros aceitam o desafio agora lançado por Jesus. Para seguir Jesus, deixam a sua vida de pescadores, o seu ambiente e seu passado – «tudo» – e avançam para aquela que será a pesca mais longa e mais prodigiosa de toda a sua vida: levar, primeiro a Israel, e depois a todo o mundo a bênção de Deus e, assim, «apanhar vivos» os homens, tal como eles foram apanhados. O «tudo» que eles deixaram para seguir Jesus está na linha do espírito do evangelho de Lucas que apresenta outras passagens semelhantes: «Se alguém quiser seguir-me, diga não a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias, e siga-me» (9,23); «Vendei tudo o que tendes e dai-o em esmola» (12,33); «Aquele de vós que não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo» (14,33); «Vende tudo o que tens e distribui-o aos pobres» (18,21).

 

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

 

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