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VI Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

Jesus tinha subido à montanha para orar, passando toda a noite em oração, numa atitude que repetidamente Lucas refere. Ao nascer do dia, convocou os discípulos, isto é, o grupo que habitualmente o seguia, e escolheu doze, a quem chamou «apóstolos» (= enviados, cf. Lc 6,12-16).

Descendo com eles, ficou num sítio plano, onde o espera um grupo mais alargado de gente de todo o lado, mesmo de fora da Palestina.

«Erguendo os olhos para os discípulos…». No discurso que se segue, que começa com as Bem-aventuranças, Jesus está ao mesmo nível dos ouvintes, salientando uma proximidade com os seus. É diferente a perspectiva apresentada por Mateus que nos apresenta Jesus sentado num monte a transmitir, com autoridade, a Nova Lei, num paralelo com a Lei do monte Sinai que Moisés recebeu para, por sua vez, a transmitir ao povo.

Confrontando o texto de Lucas com o de Mateus, nota-se antes de mais o número reduzido das Bem-aventuranças: quatro contra nove; o uso da 2ª pessoa do plural, dirigido directamente aos discípulos, enquanto Mateus usa a forma bíblica tradicional, na 3ª pessoa. Por outro lado, Lucas é mais concreto, mais terreno do que Mateus, que espiritualiza as Bem-aventuranças, e faz um paralelo antitético entre «felizes» e «Ai». Devemos ter em conta toda a obra de Lucas, Evangelho e Actos dos Apóstolos, para melhor situar a perspectiva deste texto.

O modo como Lucas entende os «pobres» deve ser compreendido à luz das duas bem-aventuranças seguintes, que a retomam, e, mais ainda, à luz da quarta que revela a verdadeira situação do testemunho. Trata-se da pobreza concreta e crítica do discípulo no mundo. Por isso, os discípulos são aconselhados a «deixar tudo» (5,11.28). A pobreza e as dificuldades são inseparáveis da pessoa do Filho do Homem e do caminho de testemunho.

Numa tal situação de pobreza, os discípulos são declarados felizes desde já, não apenas no futuro Reino de Deus: não porque a pobreza seja felicidade mas porque, estando em tal situação, eles são, já agora, seguros destinatários do futuro Reino que porá fim a todos os sofrimentos.

O pobre é aquele a quem falta o necessário (14,12-14.21; 16,20-22), que é objecto do dever da esmola (18,22; 19,8); assemelha-se a ele o faminto que não tem nada para comer. O rico, porém, não conhece a necessidade e goza a vida à vontade; quem está saciado ou plenamente saciado não é mais que um rico que faz lautos banquetes (12,19).

Este modo de unir pobres e famintos traz à luz o carácter muito concreto da pobreza de que Lucas está a falar. A segunda, todavia, acrescenta um elemento novo. Notamos que a única passagem em que Jesus tem fome é a das tentações no deserto. Em tal contexto, a fome é a consequência duma escolha. Assim se exprime o modo como Jesus concebe a sua missão e o exercício da sua autoridade como Filho do Homem. O diabo não se engana quando o tenta precisamente neste aspecto.

A bem-aventurança pronunciada sobre aqueles que choram – com a correspondente lamentação sobre aqueles que riem – também acrescenta uma perspectiva particular. À primeira vista parece referir-se a uma tristeza concreta, à angústia ligada com à pobreza e à fome. Porém, não falta uma referência ao choro de Jesus diante de Jerusalém (19,41), um choro que exprime o sofrimento da testemunha perante a rejeição da boa nova e a todas as suas consequências. Jesus não chora sobre si mesmo, e pede que não chorem por ele (23,28); chora sobre a cidade, sentindo profundamente o aproximar da ruína de Jerusalém (21,20), incapaz de reconhecer aquele que vem em nome do Senhor.

Vemos, assim, que as três primeiras bem-aventuranças, embora muito concretas, não se deixam facilmente encerrar num simples esquema de oposição pobres-ricos. A quarta bem-aventurança irá precisar melhor a perspectiva. Ela diz respeito àqueles que sofrem maus tratos por causa do Filho do Homem; sobre os seus adversários, diz-se que imitam a conduta dos seus pais em relação aos profetas. A graça oferecida é a de permanecer constantemente com Jesus na prova (cf. 22,28), de se deixar chamar ao testemunho, a exemplo dos profetas, como farão os apóstolos no livro dos Actos. Atingidos pela perseguição (Act 8,1), eles deverão atravessar muitas tribulações (cf. Act 14,22), mas tudo isto será ocasião de crescimento para a Palavra que, graças a eles, chegará aos confins da terra.

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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