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Quarta Feira de Cinzas

Breve comentário

É sabido que o Evangelho segundo Mateus se dirige a uma comunidade de cristãos provenientes do judaísmo. Por isso, é natural que a forma de viver o cristianismo seja adaptada à sua religiosidade, tendo
em conta o princípio de que tudo o que existe de bom numa determinada cultura social e religiosa deve ser feito pelos cristãos, procurando ir sempre mais além, impulsionados pela novidade radical do
Evangelho.
O texto, claramente estruturado em paralelismo antitético, apresenta-nos as práticas religiosas comuns ao seu tempo, sinais dum judeu devoto, resumidas na esmola, oração e jejum.
Jesus não critica estas práticas religiosas, mas propõe uma nova atitude, uma nova Justiça diferente da justiça farisaica.
Para os fariseus, constantemente chamados «hipócritas», a Justiça consistia na observância da Lei e das práticas religiosas, muitas vezes de forma exterior, à letra e não no espírito, pelo que eram vistos
e elogiados pelos outros: já receberam a recompensa.
Para Jesus, a verdadeira Justiça consiste em fazer a vontade do Pai, indo além da letra da Lei para realizar o espírito mais profundo, como Ele já tinha ensinado (Mt 5,17-37). Por isso, as acções boas,
como a esmola, a oração e o jejum, não devem ser propagandeadas aos homens mas realizadas para Deus, que vê o que é feito em segredo e dará a sua recompensa.
Jesus faz um resumo das três actividades fundamentais do israelita piedoso. A primeira é a esmola.
Na Lei Estavam previstos procedimentos precisos para matar a fome aos pobres (cf. Dt 14,28-29), mas a esmola pessoal e espontânea era considerada um elemento de distinção das pessoas piedosas.
Precisamente por isso, Jesus recorda que deve ser feita com discrição, sem dar nas vistas para receber o louvor dos outros. A insistência a que a esmola seja dada em segredo poderá significar que nem sequer
um amigo íntimo deverá saber. Porém, Deus, que vê no segredo, irá recompensar.
Havia momentos de oração comum no Templo ou nas sinagogas, mas havia pessoas que rezavam sozinhas nestes lugares ou até no exterior, nas praças, para serem vistas. Jesus convida a uma atitude antitética: entrar no quarto, isto é, na parte mais recôndita da casa, que não tinha janelas, não podendo, por isso, ser visto. Além disso recomenda que se feche a porta, para não ser ouvido. A oração é vista como algo pessoal, um encontro com Deus, não como um modo de ostentar a piedade religiosa. De novo se repete o conhecimento da parte de Deus e a sua recompensa.
O jejum exigido pela Lei era o jejum do Dia da Expiação (Lv 16,31). Além disso, em caso de desastres nacionais ou momentos de particular necessidade pública era indicado um jejum público. A atitude que Jesus quer criticar é o jejum privado que os fariseus praticavam à segunda feira e à quinta feira. Em relação a este jejum, havia quem o fizesse de maneira a toda a gente saber. O que Jesus dá não são conselhos de beleza, nem de assumir um estilo de luto, mas de alegria. Perfumar a cabeça fazia-se em dias de festa. O jejum, se for feito com o desejo de encontrar o Senhor é um momento de festa e alegria.

P. Franclim Pacheco
Diocese de Aveiro

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