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I Domingo da Quaresma – Ano C

Breve comentário

O texto deste Domingo é vulgarmente conhecido como «as tentações de Jesus», o que nos pode trazer alguma ambiguidade. Na linguagem corrente, ser tentado significa ser atraído para algo proibido, ser levado a cometer um pecado. Mas, na Bíblia e no nosso texto, a perspectiva é diferente. O verbo (peirázein) e o termo (peirásmos), usados no texto, não têm o sentido de tentar, mas de pôr à prova, fazer um teste para verificar a fidelidade e o valor de alguém. Jesus é «tentado», não porque pode ser levado a cometer um mal, mas para manifestar o que de mais profundo existe nele, o que não significa que ele não tivesse de fazer escolhas fundamentais muito exigentes.

O texto, longe de ser um relato de episódios da vida de Jesus no início do seu ministério público, quer ser uma catequese sobre o modo como Jesus foi posto à prova com toda a espécie de tentação (v. 13).

Servindo-se de imagens bíblica e citações do Antigo Testamento, o autor constrói um texto que sintetiza simbolicamente a luta contra o mal que Jesus manteve, não apenas durante algum tempo, mas durante toda a sua vida.

No evangelho de Lucas este texto prepara Jesus para a actividade que está para inaugurar, ou

melhor, manifesta a sua serena superioridade sobre o adversário que encontrará no ministério. Jesus permanecerá permanentemente fiel à vontade de Deus; nenhuma ambição pessoal, sede de poder ou egocentrismo o afastará da sua missão; vive a sua realidade de Filho de Deus como homem autêntico, sem procurar fugir da condição humana comum a todos.

Os elementos comuns – tentação, deserto, 40 dias – sugerem um paralelo entre este texto e a prova de Israel no deserto, durante o Êxodo. As respostas de Jesus são citações que provêm do livro do Deuteronómio (8,3; 6,16.13), que considera a experiência de Israel no deserto como uma prova a superar, e que se referem a três acontecimentos característicos do Êxodo: murmuração do povo antes do milagre do maná, antes do milagre da água em Massa, e chamada de atenção de Moisés ao povo contra o perigo da idolatria.

Nas primeiras tradições cristãs a expressão «filho de Deus» tinha um acento messiânico: Jesus,

vitorioso sobre Satanás, neste novo êxodo revelava-se como o messias esperado. Mas Lucas não se fixa na história passada de Israel, demonstrando-se menos sensível que Mateus em relação à experiência de Israel no deserto. Para ele, o novo êxodo é, em primeiro lugar, o drama pascal que se desenrolará em Jerusalém, ponto central de toda a sua obra (Evangelho e Actos dos Apóstolos). Por isso mesmo, ele inverte a ordem das tentações, apresentando Jesus no templo, em Jerusalém, e não sobre um monte altíssimo, como lemos em Mateus. A insistência de Lucas sobre o «diabo» tem a intenção de apresentar desde já o personagem que reentrará em cena no momento da paixão – o tempo oportuno – para entrar em Judas (22,3) e para inspirar os responsáveis do drama.

O pão já não se refere directamente ao maná do deserto, como em Mateus, que fala de pães no plural. Mais que a imagem dos dons de Deus e do dom por excelência que alimenta o povo – a Lei – aqui o pão aparece simplesmente como o símbolo da vida, aquela vida que somos sempre tentados a compreender não como um dom, mas como algo de que queremos ser senhores. Também Jesus, ao longo da sua vida e não só desta vez, foi tentado a servir-se do seu poder divino, como Filho de Deus, para resolver as suas dificuldades e problemas comuns a todos os homens. Agindo desta maneira, Jesus afastar-se-ia da sua condição humana, deixando de ser solidário com os outros. Neste sentido se compreende a tentação do malfeitor sobre a cruz: «Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!» (23,29).

O poder-autoridade tem um significado de domínio, enquanto em Mateus indica sobretudo a autoridade. Nos Actos dos Apóstolos fala-se claramente do «poder de Satanás» (Act 26,18). A grande tentação está entre o dominar e o servir. Também Jesus é naturalmente tentado a dominar os que o rodeiam, servindo-se do seu estatuto de mestre e Filho de Deus. A opção dele foi a do serviço: «Eu estou no meio de vós como aquele que serve» (22,29). No Calvário os soldados desafiarão Jesus: «Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!» (23,27). Jesus recusa esta concepção de poder; já no momento da sua prisão ele tinha dito: «Esta é a vossa hora e o poder das trevas!» (22,53).

A tentação do templo, em Jerusalém, não é em primeiro lugar a de se apropriar dos dons de Deus, de colocar o poder de Deus ao serviço dos seus projectos particulares, mas de fugir ao seu destino, de evitar a prova. É a tentação fácil para quem procura viver uma relação íntima com Deus, exigindo de Deus uma prova do seu amor e uma protecção especial. «Salvou outros! Salve-se a si mesmo, se ele é o Cristo de Deus, o Eleito!», irão ironizar os chefes do povo, propondo ao crucificado que assumisse um destino fora do comum. Jesus quer viver a sua confiança filial em Deus na obediência quotidiana, como um homem que não espera privilégios especiais nem intervenções extraordinárias, mas aceita pacientemente o seu destino até ao fim e nele reconhece a proximidade divina; e isto não como uma resignação, mas no pleno uso da liberdade pessoal.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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