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II Domingo da Quaresma – Ano C

Breve comentário

A narração da transfiguração ocupa um lugar central nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas). A relação com a cena do baptismo é evidente: a manifestação do Filho de Deus e o ser provado como tal encontra-se no início da pregação, tal como a revelação filial de Jesus agora é um prelúdio do caminho para Jerusalém e do êxodo (partida).

No contexto mais imediato do evangelho de Lucas, em ambiente de oração, Jesus pergunta: «Quem dizem as multidões que eu sou?» (9,18ss) e ainda: «E vós quem dizeis que eu sou?». «O Cristo de Deus» – é a resposta que Pedro que precisa de ser esclarecida com o 1º anúncio da paixão e ressurreição (9,22) e com as exigências àqueles que querem seguir Jesus: «Se alguém quer vir após mim…» (9,23ss).

O episódio da transfiguração que se segue imediatamente reafirma a ligação indissolúvel entre paixão e glória que constitui o mistério pascal. O esplendor que irradia dor rosto de Jesus é já o fim antecipado do seu caminho para o «êxodo».

O evangelho de Lucas segue de perto o texto de Marcos, mas dá-lhe o seu retoque muito particular e de acordo com a sua teologia. O grupo que acompanha Jesus ao monte (Pedro, João e Tiago) é o mesmo que estará mais perto de Jesus no Monte das Oliveiras (Mc 14,33), na sua oração ao Pai.

A oração, uma constante em Lucas, precede e introduz a transfiguração. Em Mateus e Marcos Jesus sobe ao monte para se transfigurar, ao passo que, em Lucas, Jesus sobe para orar. «Enquanto orava, o aspecto do seu rosto alterou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante», simbolizando a condição celeste de Jesus, reflexo da glória divina. Em vez de falar de transfiguração, Lucas refere que o aspecto do rosto se alterou. O livro do Êxodo narra-nos (34,29-35) que o rosto de Moisés se tornava brilhante quando ele entrava em diálogo com o Senhor na Tenda da Reunião. A luz do rosto de Jesus indica que, na oração, ele compreendeu e fez seu o projecto do Pai que iria passar pelo seu «êxodo», logo adiante referido.

Dois homens, «envoltos em glória», isto é, vindos do mundo celeste, conversam com Jesus: Moisés e Elias, símbolos da Lei e os Profetas. Mateus e Marcos não nos esclarecem o tema da conversa. Mas Lucas é claro: «falavam do seu êxodo, que se iria consumar em Jerusalém». Assim, aqueles personagens representam toda a Escritura que preanuncia o destino de sofrimento de Jesus (cf. Lc 24,27). A partida (morte) de Jesus é apresentada com a palavra «êxodo» como um desígnio divino como expressão dum cumprimento salvífico anunciado no Antigo Testamento («devia consumar-se») a ser realizado em Jerusalém, cujo caminho Jesus está para iniciar (9,51ss).

A cena de glória é contemplada pelos discípulos que «estavam pesados de sono», estabelecendo, uma vez mais, uma ligação à oração e agonia de Jesus no monte das Oliveiras, em que igualmente estão a dormir, numa combinação perfeita entre glória/paixão e paixão/glória.

Pedro «não sabia o que estava a dizer» quando sugeriu fazer três tendas. Ele queria atrasar a partida dos dois homens e eternizar a experiência de glória, recusando-se, de alguma forma, a passar pela experiência do sofrimento e morte de Jesus que era objecto da conversa de Jesus com Moisés e Elias. O ficar «aqui» contrapõe-se a «Jerusalém» com tudo o que em Lucas esta cidade representa. Pedro não entende agora a glória de Jesus tal como não irá entender a sua humilhação no Getsémani. Ele quer permanecer ali, contrariando a atitude de Jesus que está para iniciar de forma resoluta o seu caminho para Jerusalém (9,51).

A nuvem que envolve também os discípulos  é uma imagem bíblica usada como sinal da presença invisível de Deus e da sua glória (Ex 24,15-18; 40,34ss). É esta presença que cria nos discípulos um sentido de respeito sagrado e de temor.

A voz divina faz espontaneamente pensar na voz da cena do baptismo (Lc 3,22) mas agora não se dirige directamente apenas a Jesus, mas aos discípulos. Combinando duas citações do Antigo Testamento (Sl 2,7 e Is 42,1) são afirmados dois títulos de Jesus que sintetizam a estreita ligação entre a glória de Jesus e a necessidade de passar através do sofrimento: «o meu Filho», mais que um título messiânico, exprime a relação profunda de Jesus com Deus; «o Eleito» é o título característico do Servo de Yahweh chamado a sofrer (Is 42,1).

«Escutai-o!». Este apelo é tomado de Deuteronómio (18,15) e dizia respeito ao profeta que havia de surgir, semelhante a Moisés. A voz convida os discípulos a «escutar» Jesus, confirmando as exigências de Jesus dirigidas aos discípulos quando os chama a levar a cruz, todos os dias, para o seguir. Jesus é realmente o profeta esperado, semelhante a Moisés, que agora é necessário seguir no novo Êxodo.

Os discípulos guardaram silêncio acerca do que tinham visto simplesmente porque nada tinham entendido. Será à luz da paixão/morte/ressurreição que irão finalmente perceber a profundidade da experiência que Jesus lhes proporcionou.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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