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III Domingo da Quaresma – Ano C

Breve comentário

O texto deste domingo apresenta-nos factos que, apesar de não serem mencionados pelas crónicas da época, serão sem dúvida históricos, servindo de introdução a uma parábola.

Uma análise do texto mostra-nos bem o pensamento geral de Jesus: a convicção de que todos são pecadores e têm necessidade de conversão; a eminência do juízo para quem não acolhe a sua mensagem; a recusa em ver nas doenças ou incidentes uma punição divina para pecados pessoais; o descobrir o dedo de Deus por detrás dos acontecimentos, da natureza e da própria actividade.

O primeiro facto deve ter-se dado por alturas da Páscoa, quando também os leigos podiam participar nos sacrifícios do Templo, durante a qual vinham multidões de todos os lados para a celebração anual, aproveitando para ir ao Templo apresentar as suas ofertas no altar.

Vêm alguns contar a Jesus um incidente grave que se tinha passado. O tempo da festa era uma altura propícia para os diversos grupos revolucionários, opostos a Roma, cometerem assassínios «políticos». Muitos destes grupos provinham da Galileia, pelo que o nome «galileu» se tinha tornado sinónimo de revolucionário.

O governador Pilatos, representante de Roma, era um homem conhecido pela sua crueldade. Talvez tenha havido da parte dum grupo de galileus atitudes provocatórias, em relação aos guardas, reprimidas de forma violenta ou Pilatos deve ter aproveitado a presença desses galileus no Templo para os matar, no momento em que estavam a sacrificar os animais e a oferecê-los no altar.

Devem ter contado isto a Jesus pelo facto de ele também ser galileu. Não sabemos com que intenção: se para provocar nele uma reacção hostil em relação a Pilatos ou para o poderem denunciar às autoridades. Seja como for, Jesus não toma posição perante o acto sacrílego de entrarem soldados estrangeiros no Templo para actos violentos, mas aproveita para dar uma lição. A morte daqueles galileus não é uma punição divina por pecados pessoais, mas pode servir de chamada de atenção para os presentes: é fundamental perceber a importância decisiva do tempo actual e converter-se. É natural que esteja aqui presente um anúncio da destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70.

Estava difundida a crença popular segundo a qual qualquer desgraça é consequência e pena de determinados pecados. É um modo de pensar que, num certo sentido pode tranquilizar a consciência: este mal não me aconteceu a mim; portanto, comigo está tudo bem. Para Jesus, a desgraça não é o sinal do pecado, porque muitas pessoas, não menos pecadoras que as vítimas, nunca foram atingidas.

O segundo facto, apresentado de forma paralela ao primeiro, reforça a lição do primeiro. A desgraça bem conhecida de todos que atingiu 18 pessoas não deve ser olhada como um castigo de Deus para os que foram atingidos. Todo o homem é pecador e tem necessidade de conversão, não apenas para melhorar o seu comportamento, mas pela radicalidade do Reino de Deus que está próximo.

A parábola é uma ilustração do ensinamento que acaba de ser dado. A figueira muitas vezes é usada pelos profetas como símbolo de Israel: Os 9,10; Jr 8,13; 24,1-10; Mq 7,1. Uma figueira sem frutos, ano após ano, não serve para nada e só está a sugar o terreno com as suas raízes que se estendem por todo o lado.

Por detrás da reacção do dono da vinha está a pregação severa de João Baptista: «O machado já se encontra à raiz das árvores; por isso, toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Lc 3,9). Mas Jesus apresenta o modo de agir de Deus que se identifica com a posição do encarregado da vinha: «talvez dê fruto no futuro…».

Israel está longe de Deus. Mas Deus, na sua misericórdia e «paciência», oferece-lhe, no ministério de Jesus, a reconciliação: é o tempo decisivo antes da vinda final do Reino, o ano da graça (cf. Lc 4,19), para acolher o anúncio de Jesus e deixar-se mover por esta graça.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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