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V Domingo da Quaresma – Ano C

Breve comentário

Após uma dura discussão, descrita no final do capítulo 7, acerca da pessoa de Jesus, todos regressam a casa. Jesus não tem casa em Jerusalém. Costuma usar o jardim e uma gruta natural no Monte das Oliveiras. É ali que habitualmente passa a noite, muitas vezes em oração, tal como acontece quando o prendem na véspera da sua morte.

Antes do nascer do sol, Jesus está de novo no Templo. A multidão aproxima-se para poder escutá-lo. Habitualmente, as pessoas sentavam-se em círculo à volta de Jesus e ele ensinava. É a partir desta perspectiva de «ensino» que podemos compreender o resto do texto, pois todo ele é um ensinamento.

Uma vez mais entram em cena os escribas e os fariseus, dois grupos muito zelosos no cumprimento da Lei sagrada de Moisés, uns porque a estudavam e ensinavam, os outros porque a cumpriam, escrupulosamente, em todos os seus detalhes. E trazem a Jesus uma mulher surpreendida em acto de adultério. Não é caso para começarmos a perguntar: onde está o homem? Fiquemo-nos ao nível do que o texto diz e não no que gostaríamos de saber…

Jesus é tratado por «Mestre», denunciando a intenção em trazer-lhe aquela mulher. A Lei da Sagrada Escritura é clara, mas eles querem saber a opinião de Jesus: «E tu, que dizes?». É uma pergunta hábil e astuta, muito na linha da pergunta sobre pagar ou não o imposto a César (cf. Mc 12,4 e paralelos). Era uma provocação, uma armadilha. Se Jesus tivesse dito: «Aplicai a lei», os escribas diriam à multidão: «Não é assim tão bom como parece, pois está de acordo com a pena de morte. Se Jesus tivesse dito: «Não a mateis», diriam: «Não é tão bom como parece, porque não observa a lei!». Sob a aparência de fidelidade a Deus, eles manipulam a lei e servem-se duma mulher para poder acusar Jesus.

É interessante notar que Jesus permanece sempre sentado, enquanto a mulher está de pé. Perante a provocação, Jesus não se intimida, nem se enerva. Pelo contrário, com calma, como senhor da situação, começa a escrever no chão com o dedo. Qual o significado desta escrita? Serão os pecados dos acusadores, como pensam alguns? Uma atitude de não querer fazer caso das acusações feitas?

É natural que esta atitude de Jesus seja um acto simbólico, uma alusão a algo comum e entendido pelos circunstantes. O que se escreve no chão facilmente desaparece. Talvez Jesus queira dizer: o pecado de que acusais esta mulher foi escrito no chão, isto é, já foi perdoado por Deus.

Esta calma de Jesus enerva os fariseus e escribas que insistem numa resposta concreta. É então que Jesus ergue a cabeça para declarar: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!». É um apelo à Lei (Dt 13,10) que ordena que as testemunhas devem dar início à execução da condenação, isto é, atirem a primeira pedra. É uma resposta inesperada, cheia de sabedoria, simplicidade e profundidade, tirando aos escribas e fariseus qualquer arma para condenar, quer a adúltera quer Jesus.

Jesus muda o centro da discussão. Em vez de permitir que se coloque a luz da lei acima da mulher para a poder condenar, pede que os seus adversários se examinem à luz do que a lei exige deles. Jesus não discute a letra da lei. Discute e condena a atitude maléfica de quem manipula as pessoas e a lei para defender os interesses que são contrários a Deus, autor da Lei.

Os adversários de Jesus ficam desconcertados. Esperavam que Jesus tomasse uma posição sobre uma questão legal, mas ele recorda aos «juízes» que são pecadores e, como tal, não podem condenar. O facto de Jesus baixar a cabeça deixa espaço à liberdade e à responsabilidade. Num momento de sinceridade, reconheceram serem pecadores e, por isso, preferem ir embora.

Sem testemunhas acusatórias não pode haver condenação. Ninguém condenou a mulher. Em cena fica apenas Jesus e a mulher, no meio, para ser julgada por Jesus. Mas ele não veio ao mundo para condenar, mas para salvar.

A atitude final de Jesus: «Nem eu te condeno!» não é um atestado de bondade para qualquer acção. Jesus odeia o pecado porque é um mal em si mesmo, mas ama ainda mais a humanidade, convidando-a à libertação de tudo aquilo que a impede de viver. Não se põe de pé, mas ergue simplesmente a cabeça, como fez com os outros, para lançar o desafio: «Vai e de agora em diante não tornes a pecar».

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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