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JESUS, A SÓS, COM A MULHER ADÚLTERA

Georgino Rocha

Jesus vem do Monte das Oliveiras, onde tinha pernoitado. É de manhã cedo. A cidade desperta para um novo dia portador de uma nova esperança. Em frente, ergue-se o Templo, centro da vida religiosa e social, memória de uma história atribulada, presença viva de acontecimentos notáveis, que, em breve, irão consumar-se na tragédia do Calvário e, sobretudo, no vazio surpreendente do túmulo de José de Arimateia.

Chegado ao Templo, Jesus senta-se na esplanada. João, 8, 1-11, faz o relato numa narração que parece de repórter, evidenciando a importância da cena. O povo vai-se reunindo e Jesus inicia os seus ensinamentos. Acorrem também escribas e fariseus acompanhados por uma mulher forçada que, sem demoras, acusam de adultério, de ter sido apanhada em “flagrante”. O centro da atenção transfere-se imediatamente. Os ouvintes tornam-se expectadores. A acusada sente-se observada e incriminada. Os acusadores fazem-se porta-vozes da indignação pelo delito ocorrido. E Jesus suspende o que faz, acolhe quem chega, escuta com ouvidos do coração, “desacelera” a pressa e a emoção e começa a marcar o ritmo do processo.

Que pedagogia de Mestre! Que exemplo nos deixa, sobretudo neste tempo de vozes cruzadas em que parece ter razão quem fala mais ou enfeita melhor!

O silêncio, acompanhado de uns gestos expressivos, vai indiciando a resposta desejada. Nem a insistência o força a pronunciar-se. Livre, como é, toma a palavra que faz de “espelho” a quem acusa e remete o assunto para a consciência pessoal. “Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou-nos apedrejar tais mulheres. Tu que dizes?”

Que feixe de sentimentos terá provocado esta acusação/declaração! Na mulher que vê a sua vida oculta ser tornada pública, nos fariseus e escribas que pretendiam armar uma cilada fatal, no grupo de ouvintes dos ensinamentos, apanhados pela surpresa, em Jesus, o Mestre vigiado sob suspeita.

E como cada um fazia a gestão das suas expectativas! O tempo nestas circunstâncias acelera e cada segundo parece uma hora.

“Quem dentre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”, sentencia o Mestre, após ter decorrido o tempo suficiente para a interiorização pretendida. Sentencia o Mestre que provoca uma reviravolta espantosa nos acusadores. Todos, a começar pelos mais velhos, começam a retirar-se. Só lhes interessava a acusação/condenação. Com o gesto da retirada, vai cada um declarando o seu pecado. O que estava oculto, surge à luz do dia. A presumida fidelidade a Moisés levanta o véu da hipocrisia. As pedras da punição ficam inofensivas, por enquanto, e a armadilha de acusação converte-se em oportunidade de trazer à luz a verdade libertadora. Como se mantém atual um quadro ético semelhante!

O Papa Francisco, na exortação pós-sinodal «Cristo Vive» publicada esta semana dirigida a todos, mas sobretudo aos Jovens, reconhece que “o abuso não é o único pecado dos membros da Igreja. «Os nossos pecados estão à vista de todos; refletem-se, impiedosamente, nas rugas do rosto milenário da nossa Mãe», mas a Igreja não recorre a cirurgias estéticas, «não tem medo de mostrar os pecados dos seus membros». «Lembremo-nos, porém, que não se abandona a Mãe quando está ferida» (101). Este momento sombrio, com a ajuda preciosa dos jovens, «pode verdadeiramente ser uma oportunidade para uma reforma de alcance histórico para se abrir a um novo Pentecostes» (102). E recorda aos jovens que «há uma via de saída» em todas as situações escuras e dolorosas”.

“E ficou só Jesus e a mulher que estava no meio”, anota o evangelista narrador. Que momento este! Que aguardaria a mulher adúltera, enxovalhada e incriminada! A sua sorte depende de uma palavra, a de Jesus, o único que podia atirar a pedra de punição. De facto, Ele não apenas estava sem pecado, mas é sua missão tirar o pecado do mundo.

“Vai e não tornes a pecar”, diz-lhe Jesus, infringindo a Lei e fazendo triunfar a misericórdia. Não condena a mulher, que mantém a sua dignidade, mas exorta-a a deixar o pecado que envilece a pessoa, a esquecer o que fica para trás (como São Paulo na 2ª leitura), a enveredar por um caminho novo que já começa a aparecer (como anuncia Isaías aos exilados de Babilónio prestes e regressar a Jerusalém, a reconhecer que o Senhor faz maravilhas em favor do seu povo.

Que bom ver a caminhada quaresmal chegar ao fim com este olhar espiritual! “Grandes maravilhas fez por nós o Senhor”, rezamos como o refrão do salmo.

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