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II Domingo da Páscoa – Ano C

 

Breve comentário

 

Nos domingos de Páscoa somos sempre acompanhados pelo texto do evangelho segundo S. João que nos apresenta, de modo muito particular, um olhar contemplativo sobre Jesus Ressuscitado. Neste 2º domingo meditamos sobre a narração do capítulo 20 que liga o dia da ressurreição ao domingo seguinte, oito dias depois, apresentando o primeiro dia de cada semana como um dia de páscoa.

No evangelho de S. João o encontro de Jesus ressuscitado no primeiro dia da semana é marcado também pelo dom do Espírito Santo (Lucas coloca-o 50 dias depois da ressurreição), que os capacita para a missão. O episódio da incredulidade de Tomé é ocasião para definir a fé em Jesus Cristo e indicar as modalidades desta fé aos crentes de todos os tempos.

A cena desenrola-se em Jerusalém num lugar não especificado. A tradição coloca-o no Cenáculo, isto é, na sala superior onde os discípulos estavam reunidos antes do Pentecostes e onde foi instituída a Eucaristia. O narrador quer simplesmente dizer que estavam reunidos num só lugar, vincando o carácter eclesial da aparição. João fala aqui de discípulos e não somente de Onze. Parece que o evangelista quer estender o conceito de discípulos, não apenas aos que historicamente acompanharam Jesus mas àqueles que a Ele aderem em todas as épocas.

Os discípulos estavam fechados com medo dos judeus, talvez pelo facto de circular já a acusação de terem ocultado o cadáver de Jesus. Algo diferente acontece. Jesus veio e pôs-se no meio deles: o anúncio «virei a vós» feito no primeiro discurso de adeus (Jo 14,18.28) realiza-se agora.

A ressurreição de Jesus é um acontecimento de ordem sobrenatural. O evangelista João já tinha falado da ressurreição de Lázaro como um sinal de que Jesus era a Ressurreição e a Vida. Mas a ressurreição de Lázaro foi um tornar a viver, um voltar atrás à vida natural para, um tempo mais tarde, voltar a morrer. A ressurreição de Jesus é um passo para a frente: é um vencer a morte para uma vida que não mais acaba. Jesus continua a ser o mesmo, mas de modo diferente, tendo ultrapassado as barreiras naturais e físicas. É isto que S. João quer dizer ao apresentar Jesus, que surge no meio dos seus discípulos, estando as portas fechadas.

Jesus veio e pôs-se no meio deles. Agora, Jesus é capaz de se tornar presente aos seus quando quer; ele quer estar com os seus discípulos em qualquer circunstância. A «Paz» não é apenas uma saudação ou um desejo, mas o dom efectivo da paz, conforme Jesus já tinha dito: «Deixo-os a paz, dou-vos a minha paz» (Jo 14,27). A seguir, faz-se reconhecer, apresentando-se como o mesmo que foi crucificado, com os sinais da morte: o lado, as mãos e os pés. Aquele que se apresenta diante dos discípulos não é apenas o Mestre, o personagem do passado, mas o «Senhor». Com a sua ressurreição, Jesus demonstrou ser verdadeiro Deus porque é Senhor da vida e da morte. Ele já tinha anunciado aos seus amigos que, com a sua visita depois da paixão e morte, o seu coração seria inundado por uma enorme alegria (Jo 16,22). Por isso, os discípulos alegram-se ao verem «o Senhor».

            Mas o encontro de Jesus com os discípulos não se esgota no reconhecimento do Ressuscitado. Anuncia também a missão dos discípulos. Jesus renova-lhes o dom da paz, sublinhando desde modo o facto fundamental de que começou um tempo novo. Depois, pela primeira vez, e de modo explícito, envia  os seus discípulos. «Como o Pai me enviou, também eu vos envio», melhor dizendo, porque o Pai enviou o seu filho, também os discípulos, e os discípulos de todos os tempos, são enviados, mostrando desta maneira uma continuidade de missão, com as mesmas tarefas contidas na missão de Jesus: glorificar o Pai, dando a conhecer o seu nome e manifestar o seu amor (Jo 17,6.26).

«Soprou sobre eles… Recebei o Espírito Santo». Este gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação do homem (Gn 2,7). Isto significa que o homem está dependente do sopro de Deus. Trata-se, pois, duma nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem. O dom do Espírito é feito com vista à missão de que são investidos os discípulos. O poder de perdoar os pecados, que é reservado a Deus e ao seu Filho, é conferido por Jesus aos seus discípulos, na medida em que se trata da mesma missão salvífica.

O reconhecimento de Jesus ressuscitado dá-se sempre no primeiro dia da semana (e «oito dias depois»), assinalado progressivamente como dia do Senhor, quando a comunidade está reunida para fazer a experiência de perceber a presença do Senhor na sua vida, receber a força do Espírito e a paz de Cristo. Quem não está presente, como Tomé, não percebe nem quer perceber o anúncio: «Vimos o Senhor», e quer provas físicas.

A figura de Tomé tem aparecido como modelo de incredulidade e de fé. Mas ele é, sobretudo, o discípulo que, não admitindo o testemunho da comunidade, se mantém fiel à sua própria convicção, mas cede lealmente diante da evidência. Tomé crê na ressurreição dos mortos, mas queria verificar se Cristo era já participante desta ressurreição tocando nas suas feridas. É que a doutrina do tempo a respeito da ressurreição dos mortos supunha uma continuidade sensível entre os dois mundos, o de antes e o seguinte, embora não excluindo uma transformação gloriosa.

Oito dias antes, os dez tinham exultado de alegria e, depois, tentaram convencer Tomé, porém sem sucesso. Era necessária a presença e a palavra do Vivente. O narrador passa ao lado do facto de que o discípulo já não faz questão de estender a mão. Relata a reacção imediata de Tomé: em vez de aceitar a oferta que lhe é feita, ele entra no pensamento de Jesus e faz a sua confissão de fé.

Jesus oferece-se para satisfazer a sua exigência, mas ao mesmo tempo convida-o a uma atitude bem mais profunda. A afirmação de Jesus joga com a contraposição incrédulo/crente.

Não precisamos de fé para aquilo que vemos, sentimos fisicamente e que nos aparece com a certeza da evidência física. Por isso aqueles que acreditam sem verem são mais felizes porque têm a fé no seu estado mais puro, isto é, a única Fé. Só assim consegue fazer a verdadeira profissão de fé em Jesus, reconhecendo-o como: «Meu Senhor e meu Deus». O facto  de o termo «Senhor» estar  unido a «Deus» exprime a evidência produzida pela presença do ressuscitado.

«Porque me viste, creste. Felizes os que não viram e creram». Estas duas palavras de Jesus estão centradas no verbo «crer» e apresentam dois modos de acesso à fé, o de Tomé e o dos futuros discípulos. O primeiro poderia ser compreendido como uma reserva em relação ao discípulo: Jesus reprovaria o facto de Tomé ter tido necessidade de ver para crer. Mas, de facto, trata-se duma palavra de felicitação da parte do Vivente que foi reconhecido na fé.

A segunda frase parece atenuar o elogio, insinuando quase que é preferível crer sem ver. Na realidade ela não se dirige a Tomé, mas aos discípulos futuros: o evangelista dirige-se à sua comunidade, já distante das origens. A comunidade não deve lamentar o facto de não ter vivido ao tempo de Jesus. Mesmo se o seu modo de acesso à fé não é o mesmo, são felizes aqueles que no curso dos tempos crerão sem ver.

Finalmente, o evangelista lembra aos leitores que fez uma selecção de palavras e acções de Jesus, a que chama sinais, com a finalidade de levar o leitor/ouvinte à fé e «para que, crendo, tenhais a vida em seu nome». Este pequeno texto é a chave de interpretação de todo o evangelho de João. A sua finalidade é universal, conforme a medida do projecto de Deus. O Messias esperado por Israel seria, segundo os profetas, salvador para a humanidade inteira. Narrando o itinerário do Verbo feito carne e, depois, do Filho que volta à glória que era sua antes da criação do mundo, o evangelista sublinhou com frequência que o dom da «vida» era destinado por Deus a todos os que, além de todas as fronteiras, creriam no Amor que ele manifestou em Jesus, Aquele que reúne na Unidade os filhos de Deus dispersos.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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