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III Domingo da Páscoa – Ano C

Breve comentário

O cap. 20 de S. João representava, inicialmente, o final do evangelho. Tudo leva a crer que o cap. 21 foi acrescentado posteriormente com intenção marcadamente catequética e não de narração histórica, apresentando uma terceira manifestação de Jesus a um grupo de discípulos, desta vez fora do primeiro dia da semana e num ambiente de trabalho, na Galileia. É um texto cheio de simbolismo.

No mesmo barco estão sete discípulos de Jesus: Pedro, que tinha renegado o Mestre e agora toma a iniciativa, Tomé, que teve dificuldade em acreditar, os filhos de Zebedeu  ? João e Tiago ?, chamados «filhos do trovão» (Mt 3,17) por causa da sua impulsividade e fanatismo, Natanael, um verdadeiro israelita que adere a Jesus, e dois outros discípulos anónimos, como tantos outros ao longo da história. Homens diferentes que representam a totalidade (o número 7) da comunidade cristã.

A actividade da pesca é um símbolo da actividade apostólica. Jesus tinha-os chamado para a missão de «pescadores de homens». No evangelho segundo Mateus (13,47-48) lemos que o Reino é comparado a uma rede lançada ao mar que recolhe todos as espécies de peixe e é arrastada para a margem. Trabalharam de noite, sem a Luz (sem Jesus) e, por isso, não apanharam nada. Ao romper do dia, Jesus está na margem. Não é logo reconhecido, mas a sua palavra actuante chega aos que se afadigaram toda a noite. A actividade apostólica só resulta quando seguem a indicação que Jesus lhes dá. E só aquele que faz a experiência de amor com Jesus é capaz de reconhecer os sinais da presença do Senhor na sua vida e na vida da comunidade.

Também a quantidade de peixes é simbólica, o que já foi observado desde tempos antigos, nomeadamente no séc. V:  S. Jerónimo entendia o número 153 como a quantidade de espécies de peixes que havia no mar Mediterrâneo, indicando assim toda a família humana; S. Agostinho apresenta o mesmo sentido doutra forma: o número 153 seria a soma de todos os algarismos de 1 a 17 (10 + 7), o 10 como totalidade humana e o 7 como plenitude divina, isto é, a igreja como comunidade humano-divina; S. Cirilo de Alexandria decompõe o número em 100 (os pagãos) + 50 (o povo de Israel) + 3 (a Trindade). É esta totalidade que se encontra na rede que é puxada por Pedro, sem se romper, indicando a missão apostólica de unificar os homens.

A refeição (pão e peixe) preparada por Jesus e acrescentada com o contributo dos discípulos, é manifestamente um símbolo da Eucaristia, fazendo recordar o sinal da multiplicação do pão e dos peixes, no capítulo 6.

A segunda parte do texto visa a pessoa e a missão de Pedro. Aquele que por três vezes negou Jesus é agora convidado por três vezes a manifestar a sua adesão a Jesus para receber a missão de «pastor». As ovelhas e os cordeiros (todo o rebanho) são de Jesus («as minhas ovelhas… os meus cordeiros») mas é Pedro que os deve apascentar.

Vale a pena ler com atenção o diálogo entre Jesus e Pedro. Jesus pergunta uma vez: «Tu amas-me mais do que estes?», em que é usado o verbo agapéô («amar», que em S. João tem sempre Deus como fonte), mas a resposta de Pedro não vai tão longe: «Tu sabes que eu sou teu amigo», usando o verbo filéô (verbo que exprime a ternura nas relações humanas: «ser amigo»).  Jesus parece baixar a parada na segunda vez que interpela, perguntando simplesmente: «Amas-me?», a que Pedro responde novamente: «Tu sabes que eu sou teu amigo». A terceira pergunta de Jesus vai precisamente nesta linha: «És meu amigo?». Parece que, neste momento, Jesus se contenta com a ternura sincera que Pedro sente por ele, confiando-lhe uma vez mais a missão.

Pedro está num processo de crescimento na fé e no amor a Jesus Cristo. É sincero na sua manifestação de carinho para com o seu Senhor, mas há todo um caminho ainda a fazer. Mais tarde, quando for mais velho, terá ocasião de manifestar todo o seu «amor», ao entregar a sua vida pela sua fé em Jesus Cristo.  Pedro foi martirizado em Roma em 64 d.C., ao tempo de Nero, e muito provavelmente foi crucificado. Pedro teria estendido as mãos para ser preso ou para ser também pregado numa cruz, tal como Jesus. A morte de Jesus e do seu discípulo não é um facto acidental, mas um testemunho da grandeza e do amor do Pai.

A conversa entre Jesus e Pedro termina com a palavra «Segue-me». Jesus disse a Pedro tudo o que o espera. Agora pode renovar o seu convite a segui-lo.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro


 

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