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V Domingo da Páscoa – Ano C

Breve comentário

Estamos no contexto da Última Ceia: Judas sai para levar a termo a traição do Mestre. É o próprio Jesus que lho ordena: «O que tens a fazer fá-lo depressa (Jo 13,27).

Depois de Judas sair, a profunda perturbação de Jesus pelo pensamento da sua paixão transforma-se e dele sai um grito de exultação. É como se o pior já tivesse passado, como se Jesus tivesse já enfrentado a morte e se encontrasse na glória do Pai. Depois da saída de Judas, Jesus abre o seu coração na intimidade do grupo dos discípulos.

Tal como antes, ao terminar o lava-pés, Jesus explicou o seu significado, também agora interpreta a saída de Judas que o entregará, conforme o próprio Jesus anunciou. Explica a sua aceitação da morte em termos de manifestação da sua glória, que se identifica com a do próprio Deus, porque a sua morte, livremente aceite, é a grande prova do amor de Deus que dá o seu Filho único (3,16).

A palavra «agora» domina toda a frase e marca o cumprimento da «hora» da sua paixão e morte, ou seja, da sua glorificação. Na presença dos gregos, Jesus tinha definido a «hora» como aquela em que o Filho do homem seria glorificado (12,23). Ele vê já realizar-se o anúncio feito pela multidão «Agora  o príncipe deste mundo será lançado fora» (12,31). Jesus experimenta já a vitória sobre o mal e sobre a morte e sente-se já no coração de Deus. Através deste «agora» o evangelista João exprime a convicção da fé dos primeiros cristãos: a Páscoa deu início a uma nova era.

É evidente que esta afirmação se revela como misteriosa e difícil de compreender. O próprio Jesus está consciente disso e utiliza uma linguagem altamente evocativa. Antes de mais, fala de si em primeira pessoa, mas recorrendo ao termo Filho do Homem.

Nos evangelhos sinópticos (Mt, Mc, Lc) Jesus fala do Filho do Homem quando revela que a sua missão o levará ao sofrimento e ao despojamento. Na literatura apocalíptica judaica, o Filho do Homem é um personagem celeste que se manifestará no fim dos tempos (ver Dn 7,13-14).

No evangelho de João, o termo «Filho do Homem» é utilizado nos textos em que se afirma que Jesus pertence a uma condição superior à humana, mesmo quando se fala da cruz. A primeira vez que João adopta este termo é no capítulo I (Jo 1,51), no episódio de Natanael, onde Jesus afirma: «Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do Homem». A última vez é no versículo que estamos a examinar com o retomar do tema da glorificação (Jo 12,32), apresentada aqui como já realizada.

Outro elemento evocativo desta frase é a utilização dum estilo altamente lírico: cinco vezes é repetido o verbo glorificar,  três vezes a palavra nele. O verbo glorificar tem valor quer para o passado (Jesus levou a cumprimento a sua missão) quer para o futuro próximo (a sua Páscoa de morte e ressurreição) e definitivo (a sua glória escatológica).

O Filho do homem, na perspectiva do evangelista João, começa a ser glorificado com o início da sua paixão que começa «agora» e que tende para o Calvário. Na realidade ele é exaltado sobre a cruz como a serpente de bronze no poste (3,14ss). A partir deste trono Jesus manifesta em plenitude a sua divindade (8,28) e atrai todos a si (12,32). Com tal glorificação o Filho do Homem é revestido daquela glória divina que possuía antes da existência do cosmos (17,5).

Portanto, o Filho do Homem foi glorificado. Que significa esta afirmação e quando foi glorificado? Pouco antes o evangelista indica a saída de Judas, portanto a glorificação de Cristo é posta em relação directa com a morte, considerada como já acontecida, mas não é certamente Judas a causa de tal glorificação. Conforme a teologia joanina, o autor é Deus. Isto é indicado pelo uso do passivo divino: foi glorificado, subentendendo Deus como sujeito, isto é, Deus glorificou-o.

Glorificando o Filho do Homem, Deus revelou a sua própria glória, sendo, por sua vez, glorificado. Esta revelação realiza-se através da ressurreição de Jesus, a sua exaltação, a sua subida para junto do Pai. Mas graças à sua relação com o Pai, o Filho estava já na glória. Com a ressurreição ele adquire uma outra glória: a glória de permitir que, através dele, todos os crentes participem na própria vida de Deus. Jesus, elevado da terra, atrairá a si todos os homens (12,32). Deste modo se realiza a reunião na unidade, o objectivo de Deus no envio e na obra confiada ao seu Filho único. O próprio Deus se glorifica no Filho do Homem revelando, através dele, que é Amor.

A partir do v. 33 há uma mudança de cena: Jesus dirige-se ao seus discípulos como um patriarca que, na altura da morte, reúne os descendentes para lhes entregar o seu testamento, e usa um termo afectuoso: filhinhos. Anunciando  a sua partida, Jesus cria uma situação nova. Ele não estará mais com os seus como esteve até agora. Eles são chamados a continuar a sua amizade com Ele através duma fé profunda.  Esta fé está em relação directa com o amor fraterno, o mandamento do Amor.

Este mandamento evoca imediatamente a ideia de Aliança; já não a aliança realizada através de Moisés, mas a nova e definitiva Aliança levada a cumprimento por Jesus. Eis porque o mandamento é apresentado como «novo» (em grego kainos, que indica uma mudança qualitativa). A palavra «mandamento», para o quarto evangelho, significa a palavra que revela o amor de Deus Pai; por isso é apenas um.

«Como eu vos amei…». Como entender este «como»? Deverão os discípulos imitar o comportamento do seu Mestre? Isto seria redutor, tornaria Jesus um personagem do passado, do qual se herda algo a aplicar, de modo que a acção dos discípulos perpetue no tempo a de Jesus…

Ao contrário, é possível uma interpretação mais profunda. O «como» não tem o sentido de semelhança, mas de origem. O sentido seria: «Com o amor com que vos amei, amai-vos uns aos outros». O amor do Filho pelos seus discípulos gera o seu movimento de amor: é o seu amor, o amor de Jesus que passa neles quando amam os irmãos e são por eles amados. É o amor com o qual Jesus ama cada homem que torna possível a fraternidade e empenha neste sentido cada comunidade cristã. Um amor sempre novo, sempre gratuito e profundo, como a aliança que Deus revela amando a humanidade e o mundo.

O amor recíproco dos discípulos manifestará a todos, também num ambiente não crente, a sua pertença a Cristo, através do qual cada pessoa poderá passar da morte à vida.

O amor que deve vivera comunidade cristã torna-se assim o rosto do Ressuscitado que vive na sua Igreja (1Jo 4,12), é a virtude essencial do cristão que vive na espera do regresso do seu Senhor.

 

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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