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VI Domingo da Páscoa – Ano C

Breve comentário

O texto deste Domingo é a parte final do discurso de adeus dirigido por Jesus aos seus discípulos durante a última ceia. O início do discurso foi escutado, em parte, no domingo passado (13,33).

Jesus, ao anunciar a sua partida deste mundo, já tinha dito que um dia voltaria. Porém, agora fala do modo como os discípulos poderão continuar a gozar da sua amizade e da sua presença durante este período de separação. Portanto, o discurso não é dirigido aos discípulos presentes no cenáculo, mas aos de todos os tempos.  De facto, a linguagem é impessoal: «Se alguém me ama…»; «quem guarda…». Qualquer um, se quiser, pode tornar-se discípulo do Filho e ter parte na sua vida, entrar em comunhão com Ele. Existe uma relação de amor que une o discípulo ao Filho, e o Pai e o Filho ao discípulo.

A iniciativa do amor não é do crente, mas de Deus Pai. Ao dar-nos o seu Filho único leva a cumprimento o amor que, em primeiro lugar, manifestou a toda a humanidade; assim, todos poderão ter a vida. É um amor de que as pessoas são objecto desde a criação do mundo.

O amor a Jesus revela-se em praticar a sua palavra. Portanto, se alguém ama Jesus e observa a sua palavra, Ele virá a ele e, com Jesus também o Pai, para que eles sejam uma só coisa.

A vinda do Pai e do Filho é uma morada. Este termo é denso de significados: a morada por excelência era o Templo de Jerusalém, e ainda antes era a Tenda o lugar da presença de Deus no meio dos homens. Já o rei Salomão durante a cerimónia de consagração do templo perguntava como era possível que Deus, grande e infinito, podia reduzir-se a morar numa casa feita pela mão do homem (1Rs 8,27). A morada de Deus no meio dos homens era também uma das promessas mais importante feitas pelos profetas.

O Verbo de Deus, através da sua incarnação cumpriu a promessa da presença de Deus no meio dos homens (1,14), pôs uma morada definitiva entre nós. Agora é a vez de o crente, graças à sua unidade com o Filho, se tornar morada de Deus. Para João, a morada de Deus é o homem (primeiro em Jesus e a seguir em todos os homens e mulheres).

A presença do Filho e do Pai está estreitamente ligada à escuta e prática das palavras de Jesus que transmitiu as palavras do Pai. A palavra que o discípulo escuta e observa pode ser compreendida somente graças a intervenção do Paráclito, o Consolador, isto é, o Espírito Santo. É graças ao Paráclito enviado pelo Pai que os discípulos poderão penetrar no sentido da Palavra de Jesus. Agora que o ministério terreno de Jesus terminou, as suas palavras ficarão no coração dos discípulos e eles as compreenderão totalmente, muito mais que na altura em que as escutaram.

O Espírito Santo tem duas funções: ensinar e recordar. O Espírito Santo «ensinará tudo o que eu vos disse»: o acento é posto sobre a totalidade do que Jesus comunicou aos homens em nome do Pai. Fazendo recordar aos discípulos as palavras de Jesus, o Espírito mantém viva e sempre actual toda a mensagem espiritual de Jesus com uma compreensão profunda e íntima, de modo que o discípulo colha o significado das suas palavras, até agora obscuro, e as interprete em profundidade, à luz da Páscoa. (ver Jo 2,21-22;12,16). Assim a palavra de Jesus permanecerá viva na Igreja ao longo dos séculos.

No final do seu discurso, Jesus retorna ao momento presente, aos seus de quem está para se separar. A eles deixa o dom da sua paz e, ao mesmo tempo, recapitula o essencial do que anunciou para que eles possam perceber e interpretar de modo correcto a sua morte eminente.

A paz (Shalom) é a saudação habitual entre os Semitas e não significa apenas ausência de conflitos ou a tranquilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade plena, os bens messiânicos.

Ao deixar os discípulos, Jesus não lhes deseja a paz, mas dá-lhes a paz, como se fosse a sua herança: é a sua paz que ele dá. O Filho dispõe da paz que, segundo as Escrituras, só compete a Deus. Prometida a Israel, ela caracteriza os tempos messiânicos. Todo o Novo Testamento se mostra herdeiro desta tradição para sublinhar a reconciliação do povo com Deus.  A paz de Jesus é um dom que vem de Deus, estável e eminente, como presença de Deus entre os seus.

A negação: «não como o mundo a dá» mantém o contraste da distinção entre os discípulos e o mundo; ela evoca ao mesmo tempo a paz ilusória denunciada pelos profetas que a opunham à paz que vem de Deus e que Jesus se recusou a trazer sobre a terra (Mt 10,34 e paralelos).

O dom da paz tem como consequência nos discípulos o desaparecimento de toda a perturbação, não apenas perante da iminente separação de Jesus, mas também perante a tarefa que os espera, a missão de levar ao mundo inteiro a obra do Filho.

Os discípulos, que acabam de receber a paz, são exortados também à alegria. Eles receberão a plena salvação graças à Páscoa de Jesus, à sua morte, pois Ele será glorificado; o motivo da alegria supera de longe o da tristeza.

Jesus volta ao Pai, e este é maior do que Ele, não no sentido do ser, mas da missão. De facto, foi o Pai quem enviou Jesus, e a missão do Filho é a de dar a conhecer o Pai e glorificá-lo.  O Pai está na origem de tudo o que o Filho dispõe e na origem da obra que salva o mundo, pois a vida eterna vem do Pai. O Pai é, ao mesmo tempo, o termo do itinerário de Jesus e dos crentes.

«Eu vo-lo disse agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis». A mesma frase já tinha sido pronunciada a propósito da traição de Judas (13,19), referindo-se à sua morte. Agora Jesus fala dos seus efeitos: o triunfo da vida nele e neles. Aproxima-se o momento da partida. Segundo S. João, era necessário que Cristo dissesse estas coisas aos discípulos para que eles pudessem compreender a paixão no seu sentido pleno e não como um trágico fracasso. Graças às suas palavras, os discípulos compreenderão o acontecimento, sustentados pela força do Espírito Santo. Crer consiste precisamente em reconhecer no Crucificado o Vivente, um com o Pai e fonte de vida para os seus.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

 

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