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Solenidade da Ascensão do Senhor – Ano C

Breve comentário

O texto do evangelho de Lucas lido neste Domingo da Ascensão é a parte final do seu evangelho; trata-se dum texto base porque o mesmo episódio é referido no início dos Actos dos Apóstolos, livro escrito pelo mesmo autor. Isto salienta a importância do momento e do seu significado para a vida da Igreja. As palavras de Jesus aos discípulos são ditas no contexto da sua aparição ao grupo, depois do encontro com os discípulos de Emaús. Jesus está entre os seus e relê com eles as Escrituras para os fazer compreender o sentido da sua paixão, morte e ressurreição. Num segundo momento abre-lhes a mente para a compreensão das Escrituras, centrando a sua actividade em Jerusalém, como ponto de chegada e de partida.

O mistério de Cristo só pode ser explicado, ilustrado e justificado através das Escrituras. Só Deus conhece o seu enviado, o caminho que deve percorrer, e pode ensiná-lo aos homens. Os segredos de Deus não se descobrem através da reflexão ou da sabedoria humana, mas somente através duma comunicação livre. Deus fê-la através dos profetas, sendo Jesus o último. Por isso, a referência à Escritura não é facultativa, mas obrigatória, para perceber o plano de Deus e, ao mesmo tempo, o caminho de Cristo.

Esta catequese conclui-se com um discurso de missão aos Onze chamados a tornarem-se continuadores da obra de Cristo e testemunhas, com os artigos do kerygma (anúncio) apostólico: anúncio da morte e ressurreição de Cristo (v. 46), a pregação da conversão para a remissão dos pecados (v. 47), a função dos apóstolos como testemunhas (v. 48). Destinatários: as nações, não apenas os pertencentes ao povo de Israel. Para Lucas, não só a paixão, morte e ressurreição de Jesus, mas também a missão dos apóstolos de anunciar o evangelho a todas as gentes são o cumprimento das Escrituras, que legitimam a missão cristã junto dos pagãos. Encontramos o tema típico que surge também dos Actos dos Apóstolos: o convite à conversão para o perdão dos pecados.

A conversão tem um aspecto teológico e um moral, mas para Lucas o primeiro é o mais importante: a conversão é um voltar-se para Deus, tocados pela sua graça que chega a nós através da pregação.

A conclusão do discurso de Jesus aos apóstolos e da sua missão sobre a terra refere-se ao dom do Espírito Santo, essencial para que eles possam cumprir a sua missão. É o próprio Jesus a enviar o Espírito, a que ele chama «promessa do Pai», aqui «meu Pai» como em Lc 2,49 na resposta a sua mãe no templo de Jerusalém. É o Espírito que caracteriza o tempo da Igreja.

Enquanto o evangelho de S. João apresenta o dom do Espírito a ser dado por Jesus na aparição aos discípulos (Jo 20,22ss), Lucas refere-se ao Espírito como algo que virá mais tarde e, daí, a ordem  de permanecerem em Jerusalém. Isto prepara quanto será dito no livro dos Actos, que continua idealmente o evangelho, passando da narração da missão de Jesus à dos apóstolos que, em nome de Jesus, irão continuar o que Jesus «começou a fazer e a ensinar» (Act 1,1).

A narração evangélica encerra-se com a cena da «ascensão», para indicar o fim do tempo da presença visível de Jesus no meio dos seus. Trata-se mais dum relato teológico do que biográfico, o mesmo acontecendo ao mesmo tema apresentado no início do livro dos Actos, do mesmo autor. Os apóstolos vêem Jesus pela última vez. A separação é definitiva mas alegre pois o Mestre não vai para o mundo dos mortos, como três dias antes, mas é elevado ao céu para junto de Deus. Prostram-se diante de Jesus, num gesto de adoração devido apenas a Deus, manifestando uma nova relação com Jesus Senhor a quem reconhecem a realeza e a filiação divina.

Enquanto se separa, Jesus abençoa os discípulos, tal como os velhos patriarcas, tal como o sumo-sacerdote no final da Festa da Expiação. A bênção que o Antigo Testamento não pôde dar, simbolizada na impossibilidade de Zacarias abençoar o povo, no início do evangelho, é dada agora por Jesus ressuscitado.

O evangelista utiliza aqui pela primeira vez o verbo «prostrar-se»; trata-se dum gesto de adoração devida apenas a Deus. Os discípulos têm agora uma nova relação dom Jesus Senhor, de que, reconhecem a realeza e filiação divina.

Conforme Jesus tinha ordenado, os discípulos regressam a Jerusalém. Tudo isto é motivo de «grande alegria» para os discípulos. É a alegria que perpassa ao longo do evangelho de Lucas e que se torna característica da comunidade cristã (Act 2,46). A partida de Jesus não é motivo de tristeza porque com a ressurreição inaugura-se a plenitude do tempo messiânico.

Outro tema caro ao evangelista é o louvor de Deus, agora referido à grande obra de Deus que é a ressurreição. Daí que o evangelho termina no lugar em que tinha começado: no templo, não como regresso ao passado, mas como lugar de partida para a missão evangelizadora de todos os povos. Tudo isto é motivo para louvar e bendizer a Deus.

 

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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