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XIV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

«Depois disto…», isto é, da apresentação as exigências de Jesus para aqueles que o querem seguir, o texto evangélico deste domingo fala-nos do envio em missão de «outros» setenta e dois discípulos, como consequência natural do seguimento de Jesus, e do seu regresso.

Jesus escolhe e envia outros 72 discípulos. O texto paralelo de Mateus apresenta um discurso de missão semelhante a este, mas dirigido aos 12 apóstolos. Tudo leva a crer que o número 72 é colocado aqui como simbólico, tal como o número 12 nos traz à mente as 12 tribos de Israel. Indício disto mesmo, é o facto de diversos manuscritos antigos do evangelho variarem entre o número 70 e 72. Os anciãos de Israel, tal como os membros do sinédrio são 70; o mesmo é o número dos tradutores da Bíblia hebraica para grego; 70 (Bíblia hebraica) ou 72 (Bíblia grega) é o número dos povos existentes no mundo, conforme a lista apresentada em Gn 10. Efectivamente, a missão apostólica, de que nos dá conta o livro dos Actos, escrito por Lucas, estende-se para além dos confins de Israel, a todos os povos.

Os novos missionários «enviados» são arautos que vão à frente de Jesus, não para prepararem alojamento, mas a vinda do Senhor, isto é, o Reino de Deus. Vão dois a dois, o que permite defenderem-se melhor dos perigos, mas sobretudo para dar às suas palavras um valor de testemunho, como o livro dos Actos nos mostra com vários pares de missionários.

O número de povos é demasiado («a messe é grande») em relação ao número sempre limitado dos evangelizadores. Se o número de operários não é suficiente, é necessário dirigir-se ao dono da messe que envie outros, porque só Deus é Senhor de tudo e de todos e pode mudar as coisas a pedido dos seus amigos, tanto mais que se trata de problemas ou de dificuldades inerentes ao Reino.

Os discípulos são explicitamente enviados («Ide») para um mundo hostil (lobos), mas a sua atitude deve ser de mansidão e pacífica. Os missionários são indefesos como cordeiros, o que pode ser uma referência à figura do Servo de Yahweh: «como cordeiro conduzido ao matadouro, como ovelha muda diante dos seus tosquiadores» (Is 53,7).

«Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias». Tal pobreza e simplicidade pressupõe o direito à hospitalidade, mas comporta também o risco do não acolhimento; implica a dependência total dos outros a quem os mensageiros são enviados, e a coragem de na primeira casa que encontrarem, sem temer contrair qualquer impureza. Na raiz deste comportamento encontra-se na confiança total em Deus, sabendo que nada essencial lhes faltará (Lc 22,35: «Faltou-vos alguma coisa?» – «Não»).

A urgência do anúncio não se compadece com perdas de tempo em conversas intermináveis e inúteis (saudar), como era hábito entre as pessoas que se encontravam no caminho, ou de aproveitar a viagem para fazer um pequeno desvio para visitar parentes ou amigos, o que provocaria atrasos na missão.

Qualquer espaço (casa) e o que for posto à disposição serve como base para o anúncio do Reino, não devendo os enviados ter a preocupação de andar a escolher (de casa em casa).

A saudação é um convite à paz, ao acolhimento das bênçãos e bens messiânicos, isto é, o dom salvífico de Jesus. No caso de serem acolhidos, os discípulos são convidados a repetir os gestos (prodígios) e o anúncio de Cristo. O Evangelho é um anúncio, mas também uma acção de bem; por isso, deve ser acompanhado e precedido de actos de graça sobretudo aos necessitados, doentes, infelizes.

Mas a acção missionária pode ter insucessos. Porém, que a falta não seja daqueles que anunciam, pelo que devem «sacudir o pó» de qualquer responsabilidade, não deixando de apontar para a proximidade do Reino. Não se trata duma atitude de condenação ou vingança, mas uma chamada de atenção para aqueles que querem permanecer obstinados na sua incredulidade.

Os vv. 17-20, numa linguagem simbólica, apresentam o regresso dos enviados. A missão parece ter sido coroada de sucesso, tendo os discípulos conseguido vencer as forças do mal, físico e espiritual, sem terem tido qualquer «dano», isto é, sem se terem deixado contaminar pelo mal que encontraram e os rodeava. Mas a alegria dos anunciadores do Evangelho deve residir sobretudo no facto de se sentirem amados e escolhidos por Deus, de fazerem já parte do Reino, terem os seus nomes escritos nos céus, no Livro da Vida, conforme a linguagem comum à época.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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