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XV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

Um doutor da lei, preocupado com a observância, pergunta o que é necessário fazer para herdar a vida eterna. Jesus devolve a pergunta para o perito na Lei e valida a sua resposta: «Faz isto e viverás!». O doutor da lei tinha citado a Sagrada Escritura e, segundo a boa tradição judaica, junta o mandamento do amor a Deus, recordado na oração diária do Shema‘ Israel («Escuta, Israel»: Dt 6,5), e o amor ao próximo, que se encontra no coração do livro do Levítico (19,18).

O doutor da lei queria pôs Jesus à prova, como o diabo no deserto; agora quer justificar-se, isto é, apresentar-se como justo. Daí nova pergunta: «E quem é o meu próximo?».

Para entender a pergunta, é necessário ter em conta a mentalidade judaica da época. Próximo era o membro do povo hebreu ou o estrangeiro que vivia no meio do povo e se tinha convertido ao Deus de Israel. Os membros dos outros povos, porque considerados infiéis, não eram considerados «próximo». Por outro lado, havia circunstâncias em que o amor de Deus poderia excluir o amor ao próximo: um sacerdote não podia tornar-se impuro, tocando num cadáver ou num homem meio-morto. Igualmente um levita, em caso de contacto, ficaria proibido de exercer as suas funções no templo durante sete dias. Assim, estes, por amor a Deus, ficavam livres de amar o próximo.

A história contada por Jesus tem como protagonista um samaritano: estrangeiro, não pertencente ao povo hebreu. Apesar de adorar o mesmo Deus, era considerado um herege por não ter as mesmas ideias, não ter o culto verdadeiro. Mas, contra todas as avaliações, o samaritano está no seu íntimo em plena comunhão com Deus porque sabe ouvir o chamamento da sua voz que o impele a socorrer um homem, um desconhecido, em extrema necessidade.

Um homem é assaltado por bandidos. Não parece importante saber a que grupo pertencia este homem, nem a identidade dos salteadores. No centro está a necessidade de ajuda. A desgraça podia acontecer a qualquer um que fizesse o caminho deserto e montanhoso de Jerusalém a Jericó: uma distância relativamente curta (27 Km) mas uma descida com cerca de 1000 metros de desnível.

«Passou junto dele e, vendo-o…». A primeira coisa é olhar, abrir bem os olhos e os ouvidos. Também o sacerdote e o levita o viram, mas foi um ver superficial e estéril.

«Teve compaixão dele». Jesus equipara o sentir do samaritano ao sentir de Deus. Só Deus é capaz de ter um sentimento tão profundo. É o sentir a situação como sua. Do coração saem imediatamente intervenções pontuais que estão ao alcance de todos:

«Aproximou-se». É o primeiro movimento: descer da sua posição e fazer-se próximo do homem que estava por terra sem possibilidade de se levantar.

«Ligou-lhe as feridas», entende-se: com amor. «Derramando azeite e vinho»: presta os cuidados com aquilo que tem e o melhor que sabe fazer.

«Depois, carregando-o sobre o seu jumento». E ele, o samaritano, vai a pé. «Levou-o a uma estalagem», para dele cuidar melhor. «E cuidou dele», como se se tratasse dum irmão.

«No dia seguinte tirou dois denários». Era uma boa quantia: o samaritano desembolsa o dinheiro por sua iniciativa, gratuitamente. «E deu-os ao estalajadeiro», confiando nele. «Dizendo: cuida dele». Envolve assim também o estalajadeiro. «… E o que gastares a mais, eu to pagarei no meu regresso». Empenha-se em pagar tudo o que for necessário para a cura completa.

Duma maneira prática são evidenciadas todas as passagens: dos olhos ao coração, do coração às mãos. Tudo inspirado e guiado pela compaixão.

Com esta história, Jesus desloca o objecto da discussão: o problema não é saber quem é o nosso próximo, mas descobrir como tornar-se próximo do outro, como aproximar-se dele. A conclusão é clara. Jesus convida o doutor da lei a descobrir o verdadeiro sentido da misericórdia divina. Um estrangeiro que está aberto à Palavra, secretamente activa no concreto da vida, descobriu e realizou tudo isso: «Vai e faz o mesmo».

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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