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Vai e faz tu o mesmo – Homilia das ordenações sacerdotais

Homilia das ordenações sacerdotais

Vai e faz tu o mesmo

 

  1. A caridade pastoral une o amor a Deus e o amor ao próximo

À pergunta do doutor da Lei ‘Quem é o meu próximo?‘ Jesus responde contando a parábola do samaritano (cf. Lc 10,29-37). O escriba quer possuir a vida eterna, a salvação, e quer que Jesus lhe diga exatamente o que deve fazer para a conseguir. Jesus tinha definido que a lei de Deus se resumia no amor a Deus e ao próximo numa mesma experiência de amor. Por isso, narrou a história de um homem ferido, espancado e deixado meio morto, e de algumas pessoas que passaram ao seu lado: algumas que foram passando para o outro lado do caminho e uma que se aproximou.

A dor do homem ferido atinge profundamente o samaritano. Fazendo-se próximo do ferido, o samaritano faz-se próximo também da sua própria dor, faz-se próximo de si mesmo.

Uma religião que deixa um homem meio morto caído à beira do caminho não é uma religião verdadeira; a religião verdadeira é aquela que oferece vida. Alguns padres da Igreja viram nesta parábola o Deus de Jesus. O nosso Deus é como o «herege» samaritano que não lhe importa que seja alguém que quebre as leis de pureza legal ou do culto religioso, desde que manifeste amor a alguém que precisa dele.

 

  1. A lei de Deus é dar a vida

Caminhando para Jerusalém, Jesus propõe as exigências que o autêntico discipulado deve ter. O seguimento de Jesus não oferece vantagens de natureza material, mas a entrega da própria vida. Toda a viagem é um seguimento de Jesus e está em relação direta com a Paixão: “Ao completarem-se os dias da sua elevação, Ele tomou a firme decisão de ir para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente (Lc 9, 51-52).

Estas exigências, inaceitáveis numa mentalidade legalista, adquirem todo o sentido para quem optou pelo seguimento de Jesus. A nossa docilidade ou resistência a aceitar essas exigências pode servir de termómetro que marque a nossa atitude de decisão.

 

Queridos ordinandos:

A vossa vida de sacerdotes é semelhante à viagem de Jesus para Jerusalém. Olhando para a meta da vossa e da nossa vida, atrevo-me a propor-vos três dimensões que me parecem importantes na vivência do nosso sacerdócio, isto é, em ser pastores à semelhança de Jesus.

        

1º O encontro com Jesus ressuscitado

De nada valeria conhecer Jesus Cristo e o seu Mistério se esse conhecimento não se convertesse em descoberta. Quando descobrimos alguém, esse alguém converte-se numa pessoa sem a qual deixamos de ser capazes de viver satisfeitos. Transformar o conhecimento em descoberta é uma boa trajetória no nosso itinerário espiritual e apostólico.

O encontro com o Ressuscitado suscita uma alegria luminosa e expansiva, mas não uma alegria esfuziante e exaltada. A tristeza paralisa, mas a alegria dilata o mundo e estimula os dinamismos adormecidos. Ao examinarmos os relatos das aparições pascais vemos que é muito frequente a recomendação «Ide comunicá-lo aos irmãos», porque a comunicação da fé é algo que está inscrito no centro da experiência pascal. Cristo ressuscitado é uma boa notícia para todos e não uma sabedoria oculta para um pequeno grupo de iniciados. Por isso, quando os Apóstolos são acusados diante dos tribunais, respondem: «Não podemos deixar de anunciar o que vimos e ouvimos» (At 4,20).

 

2º Discípulos de Jesus até à cruz

Quem se compromete na construção do Reino de Deus e na edificação da Igreja “terá de beber mais cálices do que taças de champanhe”. Lentamente avançam (quando avançam!) os nossos programas pastorais. Muitas das nossas iniciativas são vistas do exterior como puro fracasso. As dificuldades da evangelização são sofrimento para o pastor que dedicou a sua vida a esta missão. Esta experiência começa também a ser percetível na Europa, no nosso país e na nossa Diocese de Aveiro, tal como o demonstram os dados recentes da nossa prática dominical.

A par das resistências que vai percebendo na sua vida pública, Jesus vai descobrindo, cada vez com maior intensidade, que Deus Pai Lhe pede fidelidade e não êxito imediato. Esta é uma experiência importante: Deus pede-nos fidelidade e não êxito imediato. Deus pede-nos fidelidade inclusivamente mais do que fecundidade.

Também para nós, o sofrimento é escola de purificação e de aprofundamento, escola de fidelidade. A experiência das nossas limitações pessoais (a morte de pessoas queridas, as deceções do ministério, determinadas fraquezas recalcitrantes) faz-nos deixar de ter vaidades para nos fazer humildes e fiéis. A oração coleta do Domingo de Ramos diz-nos isto mesmo: «Deus eterno e omnipotente, que para dar aos homens um exemplo de humildade quisestes que o nosso Salvador Se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz, concedei-nos a graça de seguirmos os ensinamentos da sua Paixão, para merecermos tomar parte na glória da ressurreição».

 

3º A Eucaristia, centro da nossa vida de presbíteros

A caridade pastoral, a característica que marca profundamente a espiritualidade sacerdotal, nasce da Eucaristia e nela encontra a sua mais alta realização. Na Eucaristia vive-se a experiência de comunhão com Deus e com os irmãos, numa atitude de fraternidade, de reconciliação, de acolhimento e de hospitalidade, de partilha e de apostolado. Com o Papa Francisco interroguemo-nos: «A Eucaristia que eu celebro faz crescer em mim a capacidade de me alegrar com quantos rejubilam, de chorar com quem chora? Impele-me a ir ao encontro dos pobres, dos enfermos e dos marginalizados? Ajuda-me a reconhecer neles o rosto de Jesus? Todos nós participamos na Missa porque amamos Jesus e, na Eucaristia, queremos compartilhar a sua paixão e ressurreição».

Queridos ordinandos, colocai no centro do vosso dia a celebração da Eucaristia e a visita ao Santíssimo, falai a Jesus eucaristia das vossas alegrias e das vossas dificuldades, intercedei pelo povo de Deus que vos foi confiado e «sede alegres, tendei para a perfeição, confortai-vos uns aos outros, tende um mesmo sentir, vivei em paz e o Deus do amor e da paz estará convosco» (2Cor 13,11).

Com particular afeto, digo que não estais, não estamos sós, assim nós, guiados pelos valores cristãos da humildade, da esperança e da alegria, busquemos redescobrir e viver a palavra de salvação que Jesus pronunciou.

Que a alegria de Cristo Ressuscitado cubra o vosso coração e brilhe nos vossos rostos e nas vossas vidas e que Maria, a Senhora do SIM, esteja sempre convosco.

 

«É meio-dia. Vejo a Igreja aberta.

Preciso entrar.

Mãe de Jesus Cristo, não venho para rezar.

 

Não tenho nada para oferecer-te e nada para mendigar.

Venho somente, ó Mãe, para te olhar.

Olhar-te, chorar de felicidade.

 

Sem dizer nada, o teu rosto contemplar,

Na minha língua, deixar o coração cantar.

Não dizer nada porque o coração está cheio,

somente cantar.

(Paul Claudel, +1955)

 

Aveiro, 14 de julho de 2019

António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro.

 

 

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