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O Catecismo de S. Frei Bartolomeu dos Mártires

O Catecismo de S. Frei Bartolomeu dos Mártires (I)

A propósito da notícia da canonização equipolente de S. Bartolomeu dos Mártires, no dia 5 de julho, por decreto do Papa Francisco, estendendo a toda a Igreja o culto litúrgico deste Servo de Deus e inscrevendo-o no catálogo dos santos, desejo, em dois artigos, apresentar o seu contributo para a reforma da igreja no conturbado século XVI e que em muitos aspetos é semelhante ao nosso tempo.

 

O concílio de Trento e a reforma da Igreja

O concílio de Trento (séc. XVI) ao propor a reforma da Igreja, fá-lo tendo em conta três pilares fundamentais dessa mesma reforma: a formação dos pastores, o incremento da Palavra de Deus na vida da Igreja e a organização da catequese paroquial.

Uma das opções mais original e duradoira para os séculos futuros foi a instituição da catequese dirigida às crianças. Na sessão XXIV, de 11 de Novembro de 1562, o concílio decreta: “os bispos disporão de modo que, ao menos aos domingos e nos outros dias festivos, em todas as paróquias, as crianças sejam diligentemente instruídas por aqueles que tenham competência, sobre os rudimentos da fé e da obediência a Deus e aos pais; se for necessário tornaremos isso obrigatório, mesmo com censuras eclesiásticas apesar dos privilégios e costumes diferentes” (Sessão XXIV, 11/11/1562).

O mais grave, no aspeto da ignorância religiosa, é que não se tratava apenas de uma ignorância religiosa dos fiéis, mas, sobretudo, daqueles que tinham a missão de os ensinar nos mistérios da fé, os pastores. Esta é a razão por que a maior parte dos catecismos está dirigida aos párocos, incluindo o catecismo romano «Ad parochus», publicado em 1566, dois anos depois do catecismo de S. Bartolomeu dos Mártires.

 

A ignorância religiosa

Não pensemos que a ignorância religiosa era apenas de Portugal. Na Itália, o bispo dominicano Leonardo de Marinis queixava-se a S. Carlos Borromeu, arcebispo de Milão, das dificuldades que passava a ensinar os sacerdotes da sua diocese porque entre eles «não encontrava um só cooperador». E o bispo Homério de Bonis teve de suspender um sacerdote de celebrar missa, porque não foi capaz de aprender a fórmula da consagração.

Na Alemanha e no norte da Europa, o panorama não era melhor. O próprio Lutero chega a dizer: «Que coisas tão tristes vi! O homem comum não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos párocos são incapazes de o ensinar. E todos se dizem cristãos, estão batizados e recebem os santos sacramentos; mas não conhecem nem o Pai Nosso, nem a fé, nem os dez mandamentos e vivem, por isso, como pobres animais.

Em Portugal a vida religiosa não era melhor. Na Vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o consagrado escritor Frei Luís de Sousa descreve assim o que se passava nas terras do Barroso, na diocese de Braga, e que pode dar uma imagem do que se passava em todo o país: «podemos dizer que não havia cristandade mais que no nome (…) e dos males que havia, os mais procediam de falta de mestres e alguns, que se conservavam no meio do povo, eram tão rudes como seus fregueses».

 

S. Bartolomeu dos Mártires

Perante este panorama tão desolador, o santo arcebispo vai assentar a sua vida de pastor sobre dois pilares: a instrução ao do povo e a reforma do clero. Entre os meios a utilizar estão a construção do seminário diocesano, as visitas pastorais a todas as paróquias e a publicação do Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais, em 4 de Novembro de 1564.

Frei Bartolomeu dos Mártires nasceu em Lisboa, em Maio de 1514, e professou no mosteiro dominicano de Lisboa, a 20 de novembro de 1529. Ali fez o curso de artes e teologia nos conventos dominicanos de Lisboa e Batalha.

Em 1551, no mosteiro de Santo Estêvão, em Salamanca, devido à sua ciência, o geral da ordem, Frei Francisco Romeu, conferiu-lhe o grau de mestre. Em junho desse, foi eleito definidor da sua ordem. Eleito prior da comunidade do convento de Benfica – Lisboa, foi nomeado arcebispo de Braga em 1559, tendo entrado na diocese a 4 de Outubro do mesmo ano.

No dia 24 de Marco de 1560, parte o arcebispo de Braga para o concílio de Trento, onde chega a 17 de Maio. Terminado o concílio, e já em Braga, começa por reformar a diocese segundo os decretos do concílio de Trento: constrói o seminário diocesano, visita as igrejas da sua diocese, publica o seu catecismo em 1564 e, dois anos mais tarde, em 8 de Setembro de 1566, reúne um concílio provincial.

Renuncia ao arcebispado, a 6 de Novembro de 1581, e retira- se para o mosteiro de Santa Cruz, em Viana do Castelo, onde passou o resto da sua vida com grandes mortificações. Faleceu, com fama de santidade, no dia 16 de Julho de 1590, sendo considerado um dos maiores bispos portugueses. No passado 5 de julho foi inscrito no catálogo dos santos.

 

+ António Moiteiro


 

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