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XVII Domingo do Tempo Comum -Ano C

Breve comentário

Como é típico no evangelho de Lucas, Jesus é apresentado a rezar, isto é, em íntima relação com o Pai, estando presentes os discípulos que, quando Ele termina, lhe pedem que os ensine. Eles já tinham as suas orações, os salmos, mas querem imitar o Mestre, no que Ele tem de próprio, tal como João Baptista ensinou a sua forma de rezar àqueles que o rodeavam.

A versão do Pai Nosso que encontramos em Lucas é mais breve que a de Mateus, apresentada durante o discurso da Montanha (Mt 6,9-13). As duas formas correspondem a duas tradições que circulavam no primeiro século nas diversas comunidades cristãs. Mais do que uma fórmula de oração, o Pai Nosso deve ser olhado como o esquema que os discípulos de Jesus devem ter presente na sua oração e na sua vida.

A oração cristã começa com a invocação de Deus como Pai, ou melhor, como «papá» (’abbá) conforme Jesus dizia quando rezava ao Pai. Deus é criador e senhor, como nos refere já o Antigo Testamento, mas Jesus exorta a considerá-lo sobretudo como um amigo, um familiar, um pai.

«Santificar o nome», é uma expressão de sabor bíblico que indica a intervenção salvífica de Deus por meio da qual ele revela a sua santidade. A manifestação da santidade de Deus consiste na obra de purificação e convocação do povo pecador e disperso, numa nova aliança. O «Nome» designa o próprio Deus enquanto age e se revela aos homens (Is 30,27; 52,6). Por isso, a santificação do Nome de Deus coincide com a revelação definitiva de Deus aos homens como Deus fiel e salvador (Cf. Lv 22,32). Os discípulos dirigem-se ao Pai para que ele mesmo se revele eficazmente e de modo definitivo na sua acção salvífica.

O segundo pedido («venha o teu Reino») prolonga e amplia a súplica inicial, introduzindo na oração dos discípulos um tema que resume todo o programa histórico salvífico de Jesus: o reino de Deus. De facto, Jesus inaugura a sua actividade na Galileia com a proclamação, já antecipada na pregação do Baptista, «o reino dos céus está próximo». Este anúncio ressoa também na missão dos discípulos enviados por Jesus para fazerem os mesmos gestos de libertação que são sinal da erupção do reino de Deus na história humana. Por outro lado, o reino de Deus, já presente nas palavras e gestos de Jesus, não chegou ainda na sua plenitude, pelo que Jesus, na véspera da sua morte pode anunciá-lo como uma realidade futura.

Esta dupla dimensão da vinda do Reino é subentendida pela súplica do Pai Nosso: por um lado os discípulos pedem que o Pai por sua iniciativa realize a sua realeza universal e plena superando os obstáculos e as resistências do mal histórico. Por outro, eles tornam-se abertos e disponíveis à actuação da soberania de Deus por meio da fidelidade à sua missão que o anuncia e implanta na história humana.

O «pão», na linguagem bíblica e evangélica indica o alimento necessário e essencial para a existência humana. Este pão é chamado «nosso», sublinhando o destino comunitário do dom pedido: é o pão dos discípulos solidários com todos aqueles que partilham a sua condição de homens. Os discípulos são convidados a colocar a sua confiança no Pai celeste, que conhece aquilo de que têm necessidade, na linha da tradição sapiencial: «Não me dês nem pobreza nem riqueza, mas faz-me ter o pão necessário» (Pr 30,8). Segundo este princípio era dado o maná ao povo de Deus no deserto, a comida quotidiana que não se podia acumular (Ex 16,4.18.21).

Depois do pão quotidiano, uma outra necessidade fundamental dos discípulos que vivem na história, é o perdão dos pecados. Este perdão de Deus, dado com generosidade e misericórdia, torna-se normativo para as relações entre os discípulos. O homem pecador diante de Deus está na condição do devedor que só pode esperar o perdão ou amnistia do seu débito, pois não tem condições de pagar. Daqui o pedido de perdão por parte dos discípulos que se reconhecem pecadores.

Mas a novidade da oração evangélica está na segunda frase, onde o perdão pedido a Deus é posto em confronto com o perdão dado aos outros: «Como nós perdoamos a todo o nosso devedor». Evidentemente não tem sentido falar duma perfeita correspondência ente as duas formas de perdão e nem se pode imaginar que o perdão divino seja condicionado ou medido pelo perdão humano, tomado como modelo. O perdão fraterno, dado com generosidade, mais que uma prestação humana à qual esteja subordinado o divino, é um empenho de tal forma sério que decide da salvação definitiva. De facto, o perdão fraterno responde à única exigência de Deus: a abertura ao seu dom de amor que se traduz numa relação pessoal nova com o irmão.

A última petição, «não nos deixes cair em tentação», ou à letra: «não nos faças entrar em tentação», exprime a extrema precariedade da existência dos discípulos, exposta à ambivalência das situações históricas que podem provocar a queda da fidelidade e a ruína definitiva.

O vocábulo grego peirásmos, sem mais, não significa por si tentação como incitamento ao mal, mas prova, teste, verificação. «Entrar em tentação», segundo o modo de dizer nos textos judaicos, significaria aderir ou sucumbir à tentação. A «tentação» pela qual se invoca a intervenção do Pai celeste não é só aquela tentação crítica final em que se decide a sorte dos discípulos, mas também a prova diária que interpela a sua fidelidade e perseverança.

Com esta invocação ao Pai, solicitada pela dura e diária experiência do mal e da finitude humana, se fecha a oração dos discípulos. O Pai Nosso transcreve numa fórmula densa e sugestiva a relação filial que os cristãos, com o modelo de Jesus, aprenderam a viver diante de Deus, o Pai celeste, com confiante e humilde perseverança.

Lucas continua este discurso sobre a oração com outras duas narrações típicas dele: a parábola do amigo inoportuno e uma série de conselhos sobre como é respondida a oração pelo melhor dos pais. O pão era a comida praticamente única dos pobres. Três pães são comida de um dia. O amigo chega de noite pois as viagens, devido ao calor do dia, muitas vezes eram realizadas à noite, o que implica chegar «tarde e más horas». Ninguém vai incomodar de noite um vizinho, mesmo amigo, a não ser por grave necessidade. As casas humildes tinham uma única dependência, tendo um cortinado no fundo da habitação a separar o lugar dos esposos do resto em que dormiam os outros membros da família; para passar do fundo até à porta deviam levantar-se todos os membros da família. Compreende-se a resposta do dono da casa: a porta está fechada e meus filhos estão deitados.

Jesus conclui com uma série de expressões que talvez fossem um provérbio na época, para realçar a insistência na oração, mesmo dum ponto de vista meramente humano: Pedi e vos será dado. Buscai e encontrareis. Batei e abrir-se-vos-á. Pois todo aquele que pede, recebe. E o que procura, encontra e ao que bate, abrir-se-á. Tendo em conta o estilo judaico, o sujeito subentendido na forma verbal passiva é Deus.

Jesus anima os seus discípulos a alicerçarem a sua vida na oração como base de confiança num Deus que é Pai. Se um pai humano procura dar o melhor possível aos seus filhos em necessidade, como é que o verdadeiro Pai faltará em relação aos seus filhos que n’Ele depositam a sua confiança? Os exemplos ajudam a esclarecer o que é bom e mau. O peixe e a serpente d’água têm certa afinidade, especialmente se se trata de moreias, na época comida apreciada pelos romanos. O escorpião, quando se enrola, parece um ovo e a pedra pode ter forma de pão. Mais importante do que a semelhança entre os termos é a qualidade dos produtos enumerados. O primeiro termo é bom; o segundo é um veneno ou um mal. A serpente e o escorpião eram modelos do mal ou do maligno. Deus é o bom Pai que aos seus filhos dá o que tem de melhor: o Espírito Santo, isto é, a Si mesmo, como dom pleno e vivificante.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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