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XXIV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

O texto do evangelho deste domingo, pela lição que encerra, já foi escolhido para ser proclamado no IV Domingo da Quaresma. Nos domingos do Tempo Comum lê-se o evangelho de forma contínua. Por isso, o texto de hoje é o seguimento natural do passado domingo.

O capítulo 15 do evangelho de Lucas apresenta-nos três parábolas: ovelha perdida, dracma perdida e uma outra, habitualmente conhecida como a parábola do filho pródigo, o que pode, à partida, dar uma imagem redutora e centrar erradamente a nossa atenção, esquecendo o personagem principal. O evangelista propõe três parábolas construídas na contraposição perder/encontrar, mas com um andamento crescendo. Passa-se da relação 1/100 na parábola das ovelhas (vv. 4-7), de 1/10 para as moedas (vv. 8-10) e de 1/2 para os filhos do homem protagonista do texto proposto hoje.

Finalmente, notamos que enquanto às primeiras duas parábolas é dado um final (vv. 7 e 10), a terceira fica em aberto: como é que acabou a história? O irmão mais velho entrou ou não na festa? E o filho mais novo continuou em casa do pai ou voltou a ir embora? Trata-se, naturalmente, dum artifício literário  para envolver mais os leitores ou ouvintes da parábola.

O início do capítulo dá-nos a chave de leitura: «Aproximavam-se dele todos os publicanos e pecadores para o ouvirem. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si, dizendo: «Este acolhe os pecadores e come com eles». O protagonista é Jesus, na sua atitude de acolhimento que é bem captada por publicanos e pecadores que, sem medo, se aproximam, atitude que não é percebida mas até criticada pelos fariseus e doutores da lei. A parábola de hoje pode ser entendida como um comentário à expressão de Jesus em Lc 5,32: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores à conversão». Trata-se dum tema querido de Lucas que encontramos noutros lugares do seu evangelho: Lc 16,1-8a; 19,31; 17,11-19; 18,1-8.9-14; 19,1-10.

Na sua atitude e no seu ensinamento, Jesus quer mostrar a atitude do Pai, o grande protagonista das parábolas: ele é o pastor que vai à procura até encontrar, é a mulher que varre a casa até encontrar, é o Pai cujo amor não desfalece, chega bem longe e fundo até ao filho, até ao seu regresso. É o exemplo vivo da «ovelha» que é encontrada pelo amor do pastor-Pai.

Esta parábola divide-se claramente em duas partes: o pai e o filho rebelde; o pai e o filho conformista.

É traçado o retrato do filho mais novo: arrogante, egoísta, gastador e apenas interessado na diversão, o que provocou uma reviravolta completa: com a delapidação do património, perdeu a sua dignidade de filho e todos os direitos. .Em tempo de carestia, só encontrou um trabalho humilhante para qualquer judeu (tomar conta de porcos sem sequer poder comer a comida dada aos porcos). Mas reconhece o seu pecado, sentindo que se colocou fora da condição de filho. A única coisa que deseja é ser um empregado do pai para poder comer. Com a sua atitude de recusar ser filho, ele tinha também cortado a sua relação com a Aliança (não «honrou o pai») e, por isso, com Deus («pequei contra o céu»).

O filho mais velho só entra na história quase no final, o que é estranho, pois não se faz uma festa sem os membros da família presentes. Recusa-se a participar na alegria do pai e, tal como o filho mais novo, também ele não tem uma relação de amor com o pai, mas uma relação tipo comercial: «há tantos anos que te sirvo… e nunca me deste um cabrito…».

O protagonista é seguramente o pai: a parábola menciona-o uma dúzia de vezes. A sua característica principal é a comoção visceral: o pai é mais pródigo no amor do que o filho em desperdiçar os bens. É ele quem dá a unidade a toda a narração. No coração da parábola está a sua paternidade extraordinária em relação aos dois filhos. É uma pessoa com aspectos tão originais que nos perguntamos se haverá semelhanças com os pais que conhecemos.

Ele dá plena liberdade e confiança aos filhos. Sem pedir explicações, põe nas mãos do filho a parte da herança que lhe cabe.

Ele sofre em silêncio a recusa da paternidade, quer na forma violenta do filho rebelde, quer na atitude hipócrita do mais filho «obediente». Não há palavras de lamentação, de reprovação. É paciente.

No momento em que o filho pródigo regressa, a parábola fotografa o pai com cinco verbos: Quando o filho ainda estava longe, o pai viu-o e comoveu-se (à letra: sentiu mover as suas vísceras). Correu ao seu encontro e abraçou-o, e beijou-o (Lc 15,20). Estes verbos descrevem as atitudes do pai que se envolve num amor que é paterno, materno e amigo.

O filho começa o discurso que tinha preparado, mas o pai interrompe-o. Porém, não há lugar para recriminações. O pai está «louco» de amor e de alegria. Agora manifesta-se uma pressa que envolve todos: é urgente preparar imediatamente uma grande festa porque ? diz ele ? «o meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado» (15,24). A túnica mais bela, as sandálias e o anel são símbolos da dignidade filial tornada a dar pelo pai. A túnica (a melhor) era um sinal de grande honra; o anel de autoridade; as sandálias da liberdade, pois só os escravos andavam descalços. O interesse do pai não está centrado nas coisas, mas na pessoa do filho e na relação com ele.

O filho mais velho, símbolo dos fariseus e doutores da lei, recusa-se a entender a atitude do pai. Uma vez mais entra em cena o pai: humilha-se, vai ao seu encontro, explica-lhe o sentido da festa, convidando-o a acolher a paternidade e a fraternidade. Esse meu filho é teu irmão!

É o Pai que, por meio de Jesus, nos torna a dar a dignidade de filho e de irmão. O Pai que, com as suas vísceras de misericórdia, nos faz descobrir as dimensões profundas do nosso ser, a origem e o fim do nosso viver, nos faz reencontrar o caminho de casa.

Pe. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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