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Cada família, uma história de amor

 

Aprender a amar alguém não é algo que se improvisa, nem pode ser o objetivo dum breve curso antes da celebração do matrimónio. É preciso ajudar os jovens a descobrir o valor e a riqueza do matrimónio.

Hoje, mais do que nunca, a preparação dos jovens para o matrimónio e para a vida familiar é necessária. Neste sentido, urge abrir caminhos para que os noivos não considerem o matrimónio como o fim do caminho, mas o assumam como uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis, construindo um caminho de amor (cf. CV 183).

O matrimónio tende a ser visto como mera forma de gratificação afetiva, que se pode constituir de qualquer maneira e modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada um. Todavia, a Igreja continua a propor o matrimónio nos seus elementos essenciais – prole, bem dos cônjuges, unidade, indissolubilidade, sacramentalidade – não como um ideal para poucos, mas como uma realidade que, na graça de Cristo, pode ser vivida por todos os fiéis batizados. «É preciso encorajar os jovens batizados para não hesitarem perante a riqueza que o sacramento do matrimónio oferece aos seus projetos de amor, com a força do apoio que recebem da graça de Cristo e da possibilidade de participar plenamente na vida da Igreja» (AL 307).

A evangelização e a catequese de todos os que se preparam para o matrimónio cristão é fundamental, para que o mesmo seja vivido de forma integral. São necessários caminhos pastorais que nos levem a construir famílias felizes e fecundas segundo o plano de Deus, a recuperar a identidade cristã do matrimónio e da família.

 

  1. O Matrimónio, um projeto a dois

O matrimónio é um bem que tem a sua origem no Deus Criador: Homem e mulher Ele os criou (Gn 1, 27). Segundo a Bíblia, o homem criado à imagem de Deus é homem e mulher: dois indivíduos chamados à unidade que exprime e anuncia a vocação de unidade e harmonia do próprio cosmos. Esta unidade é uma comunhão, onde cada um, mantendo a sua individualidade, a reconhece continuamente na relação com o outro.

No par humano, o ser humano afirma-se como relacional, isto é, alguém que se descobre e constrói na relação com o outro. «Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez macho e fêmea? E disse: Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne?» (Mt 19, 4-5).

O homem e a mulher são, pois, chamados, desde a sua origem, a viver na comunhão de vida e de amor. O que efetivamente liga o ser humano é a densidade do amor – amor que assume matizes diferentes, segundo o estado de vida a que cada um foi chamado.

O matrimónio é uma questão de amor: só se podem casar aqueles que se escolhem livremente e se amam. O amor, mais que um sentimento, é uma opção. Lê-se no Cântico dos Cânticos «O meu amado é para mim e eu para ele (…). Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim» (2, 16; 6, 3). Daqui sobressai o vínculo e a reciprocidade que se constrói na relação a dois. Comunidade natural, a união do homem e da mulher encontra na Palavra de Deus a luz que a guia pelos caminhos do amor. Não há receitas, até porque cada casal vive a sua realidade, mas a vida de comunhão torna-se um sinal para o mundo e uma força de atração que leva a ser fonte de vida nova. A doação recíproca envolve cada vez mais o intercâmbio de dons espirituais e apoio moral, para um crescimento no amor e na responsabilidade.

 

  1. O Matrimónio Cristão: uma vocação e um sacramento

A vida de cada pessoa só faz sentido se entendida como vocação. A vocação para o matrimónio está inscrita na própria natureza do homem e da mulher conforme sairam da mão do Criador. A união homem-mulher é desejada por Deus, é conforme à sua vontade. Deus, que criou o homem por amor, também o chamou para o amor, vocação fundamental e inata de todo o ser humano.

O matrimónio é uma vocação, sendo uma resposta ao chamamento específico para viver o amor conjugal como sinal imperfeito do amor entre Cristo e a Igreja. Por isso, a decisão de se casar e formar uma família deve ser fruto dum discernimento vocacional. É uma autêntica vocação divina e um caminho para a santidade. Os esposos cristãos encontram na vida matrimonial e familiar a matéria da sua santificação pessoal. «O bem-estar da pessoa e da sociedade humana está estreitamente ligado com uma favorável situação da comunidade conjugal e familiar» (GS 47; CCE 1603). Tal vocação, para ser amadurecida, requer uma preparação adequada e especial, e é um caminho específico de fé e de amor, tanto mais que esta vocação é dada ao casal para o bem da Igreja e da sociedade.  Deve ficar claro que não há apenas a vocação para a vida religiosa; há uma vocação para cada batizado e o matrimónio é uma delas. É importante que os esposos adquiram o sentido claro da dignidade da sua vocação, que saibam que foram chamados por Deus a chegar ao amor divino também através do amor humano.

O casamento não é uma instituição simplesmente humana, apesar das inúmeras variações que sofreu ao longo dos séculos, nas diferentes culturas, estruturas sociais e atitudes espirituais.

A instituição do matrimónio foi oficialmente reconhecida como um dos Sacramentos da Igreja no IV Concílio de Latrão (1215). «Do princípio ao fim, a Escritura fala do matrimónio e do seu “mistério”, da sua instituição e do sentido que Deus lhe deu, da sua origem e da sua finalidade, das suas diversas realizações ao longo da história da salvação, das suas dificuldades nascidas do pecado e da sua renovação “no Senhor”, na nova Aliança de Cristo e da Igreja» (CCE 1602).

O matrimónio é uma realidade natural (o amor de um casal) elevada a sacramento.  O matrimónio realiza-se quando os esposos expressam o seu mútuo consentimento; consentimento que não é apenas um mero contrato, mas uma aliança, pois reflete as relações de Cristo com a Sua Igreja que, em si mesmas, são uma aliança. É considerado como sacramento porque é a imagem da união de Cristo com a sua Igreja. «O pacto matrimonial, entre os batizados, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, foi elevado por Cristo, como Senhor, à dignidade de sacramento» (CCE 1601). Esta total relação vincula a doação de um esposo ao outro com a finalidade de cada um dar ao outro algo de bom. Esta forma de doação requer que os esposos sejam totalmente um do outro, numa fidelidade que se fundamenta numa certa forma de amor chamada caridade conjugal. «Sinal da união de Cristo e da Igreja. Confere aos esposos a graça de se amarem com o amor com que Cristo amou a sua Igreja; a graça do sacramento aperfeiçoa assim o amor humano dos esposos, dá firmeza à sua unidade indissolúvel e santifica-os no caminho da vida eterna» (CCE 1661).

A união conjugal, sendo por natureza da ordem da comunhão de amor, tornou-se, em Cristo, sinal sacramental da graça eclesial. Não é um mero compromisso social; é compromisso assumido diante de Deus e da comunidade. A Igreja reconhece o facto de que muitos nubentes, fruto de uma sociedade secular e materialista, se apresentam na celebração sem acreditarem na sua verdadeira sacramentalidade. Mas, na realidade, o sacramento não é apenas um momento que depois passa a fazer parte do passado e das recordações. Quando um homem e uma mulher celebram o sacramento do matrimónio, Deus, por assim dizer, reflete-se neles: imprime neles os próprios traços e o caráter indelével do seu amor. «Esta graça própria do sacramento do matrimónio está destinada a aperfeiçoar o amor dos cônjuges e a fortalecer a unidade indissolúvel. Por meio desta graça, eles auxiliam-se mutuamente para a santidade, pela vida conjugal e pela procriação e educação dos filhos” (CCE 1641).

A relação matrimonial é o fulcro da estrutura familiar, isto é, a família é fruto e expressão do matrimónio. O “sim” pessoal e recíproco do homem e da mulher abre o espaço para o futuro, para a autêntica humanidade de cada um, e ao mesmo tempo está destinado à doação de uma nova vida. Dirigindo-se aos jovens, afirma o Papa Francisco: «Há uma beleza extraordinária na comunhão da família à volta da mesa e no pão partilhado com generosidade, mesmo que a mesa seja muito pobre. Há formosura na esposa despenteada e envelhecida, que continua a cuidar do seu esposo doente, sem olhar às suas forças e à sua própria saúde. Mesmo tendo passado a primavera do noivado, há formosura na fidelidade dos casais que se amam no outono da vida, nesses velhinhos que caminham de mão dada (CV 183).

A vida em casal é uma participação na obra fecunda de Deus, e cada um é para o outro uma permanente provocação do Espírito. Os dois são entre si reflexos do amor divino, que conforta com a palavra, o olhar, a ajuda, a carícia, o abraço… Os casais cristãos são chamados a viver segundo a sua vocação de imagens de Deus, que é um chamamento e um compromisso para toda a vida, através da vivência do amor mútuo, da partilha e da comunhão entre si, com os irmãos e com Deus.

 

  1. Encontrar sentido para a crise matrimonial

Quando se fala da crise matrimonial, da família, entende-se que a família é constantemente tentada a não ser aquilo que é. Não se vive juntos para ser cada vez menos feliz, mas para aprender a ser feliz de maneira nova, a partir das possibilidades que abre uma nova etapa. Amar uma pessoa é esperar dela algo indefinível e imprevisível; e é, ao mesmo tempo, proporcionar-lhe de alguma forma os meios para corresponder e satisfazer tal expectativa.

Por natureza, o matrimónio está ordenado para o bem dos esposos, procriação e educação dos filhos, mas, por vezes, estes laços enfraquecem ou quebram-se. Entre os pressupostos que enfraquecem e não dignificam a família tal como Deus a projetou, olhando a realidade circundante, constatamos um aumento de separações/divórcios, e cujos cônjuges contraem nova união, uniões de facto, católicos unidos apenas em casamento civil – modelos de famílias com que nos deparamos e que nos devem levar a pensar e repensar a realidade e formas de atuar, nomeadamente quando há vínculos que ainda os ligam à suposta alegria de ser família em Igreja: pedido dos sacramentos, envio dos filhos à catequese…

Há crises e dificuldades na vida matrimonial, mas isso não deve ser motivo de tristeza. «Cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração» (AL 232). Diz o Papa Francisco, na exortação apostólica Amoris Laetitia, «Cada matrimónio é uma «história de salvação», o que supõe partir duma fragilidade que, graças ao dom de Deus e a uma resposta criativa e generosa, pouco a pouco vai dando lugar a uma realidade cada vez mais sólida e preciosa. Talvez a maior missão dum homem e duma mulher no amor seja esta: a de se tornarem, um ao outro, mais homem e mais mulher» (AL 221).

É preciso olhar para a família com o mesmo olhar de Cristo, aquele olhar para os noivos na boda de Caná, para a Samaritana, para a mulher adúltera ou para Nicodemos – um olhar novo.

O documento publicado na nossa Diocese de Aveiro «Acompanhar, Discernir e Integrar», de 26-11-2017, deve ser dado a conhecer a todos os casais que vivem a fragilidade do seu casamento e desejam encontrar o seu lugar na vida da comunidade cristã.

 

  1. Perspetivas e desafios ao encontro da realidade matrimonial

Temos vindo a assistir a uma nova geração em que os vínculos familiares não são sólidos; vive-se imersos em tensões; diminuiu o tempo de contacto dos pais com os filhos; ausência de envolvimento dos pais na educação e transmissão da fé; estruturas familiares de convivência cada vez mais instáveis… perde-se o sentido profundo do amor esponsal e da família.

A complexa realidade social e os desafios que a família é chamada a enfrentar atualmente exigem um empenhamento maior de toda a comunidade cristã na preparação dos noivos e na vida em casal. Mas «aqueles que se casam são, para as comunidades cristãs, um recurso precioso, porque, esforçando-se sinceramente por crescer no amor e no dom recíproco, podem contribuir para renovar o próprio tecido de todo o corpo eclesial: a forma particular de amizade que vivem pode tornar-se contagiosa, fazendo crescer na amizade e na fraternidade a comunidade cristã de que fazem parte» (AL 207).

É fundamental procurar que os noivos descubram a importância duma séria preparação para o casamento. A preparação para o matrimónio é mais do que a preparação do dia do matrimónio, é a preparação para a vida de casados. A este propósito, afirma o Papa francisco: «É necessário prepara-se para o matrimónio, e isso requer educar-se a si mesmo, desenvolver as melhores virtudes, sobretudo o amor, a paciência, a capacidade de diálogo e de serviço» (CV 265). Este período de preparação tem de começar a assumir traços de um verdadeiro itinerário de identificação, de redescoberta da fé e de inserção na comunidade eclesial. A formação deverá conseguir uma mentalidade e uma personalidade capazes de não se deixar arrastar pelas conceções contrárias à unidade e à estabilidade do matrimónio. Um desafio é ajudar a descobrir que o matrimónio não se pode entender como algo acabado. O casamento não acontece no dia da cerimónia, necessita ser construído diariamente por ambos. Esta preparação em três etapas: remota, próxima e imediata, deverá levar a descobrir as potencialidades e exigências de crescimento humano e cristão da sua existência e garantir que os noivos cristãos tenham ideias exatas, e um sincero «sentire cum ecclesia», sobre o próprio matrimónio, sobre os papéis mútuos da mulher e do homem no casal, na família e na sociedade, sobre a sexualidade e a abertura aos outros. A publicação, pela Diocese, do documento Catecumenado Matrimonial, deve ser um texto de estudo na pastoral familiar diocesana.

Tem que se tornar efetivo um acompanhamento que se traduza em percursos remotos e diferenciados de preparação para o matrimónio, o acompanhamento dos casais novos e o acompanhamento das famílias feridas (separados, divorciados não recasados, divorciados recasados, famílias monoparentais). O discernimento deve ajudar a encontrar os caminhos possíveis de resposta a Deus e de crescimento no meio dos limites. É preciso enfrentar todas as situações de forma construtiva, procurando transformá-las em oportunidades de caminho para a plenitude do matrimónio e da família à luz do Evangelho. Trata-se de acolhê-las e acompanhá-las com misericórdia, paciência e delicadeza – estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição. «Na abordagem pastoral das pessoas que contraíram matrimónio civil, que são divorciadas novamente casadas, ou que simplesmente convivem, compete à Igreja revelar-lhes a pedagogia divina da graça nas suas vidas e ajudá-las a alcançar a plenitude do desígnio que Deus tem para elas» (AL 297). Ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial. A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais, sendo necessário discernir quais as diferentes formas de inclusão e nunca de exclusão.

A caridade fraterna não pode ser esquecida. «Acima de tudo, mantende entre vós uma intensa caridade, porque o amor cobre a multidão de pecados» (1Ped 4,8); «redime o teu pecado pela justiça; e as tuas iniquidades, pela piedade para com os infelizes» (Dn 4,24). Esta é a lógica que deve prevalecer na Igreja, para fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais.

Tudo isto implica construir comunidades paroquiais vivas, capazes de acolher os novos esposos e ajudar a inseri-los nas comunidades, oferecendo-lhes espaços de formação e de reflexão; organizar equipas de apoio para desencadear um processo pedagógico de aproximação ou manutenção dos novos casais com a comunidade eclesial, auxiliando-os nos momentos difíceis e nas dificuldades dos primeiros anos da vida matrimonial… ajudar todos os casais a serem Igreja na sua conjugalidade.

Um estilo de vida cristã encontra o seu estímulo, apoio e consistência no exemplo dos pais, que se torna para os nubentes um verdadeiro testemunho. Para iluminar este caminho, seria bom animar as famílias a crescerem na fé, estimulá-las para a leitura da Palavra de Deus, convidá-las a criar espaços semanais de oração familiar, porque «a família que reza unida permanece unida»; estimulá-las a participar na Eucaristia, que é força e estímulo para viver cada dia a aliança matrimonial como «igreja doméstica; encorajá-las a vencer a rotina com a festa, a não perder a capacidade de celebrar em família, a alegrar-se e festejar as experiências belas.

É verdade que, em alguns ambientes, se produziu uma desertificação espiritual, fruto do projeto de sociedades que querem construir sem Deus ou que destroem as raízes cristãs. E a própria família pode ser também ambiente árido, onde há que conservar a fé e procurar irradiá-la. Mas os desafios existem para ser superados. Há que seguir em frente, sem perder a alegria, a audácia e a dedicação cheia de esperança. «E é isto o que eu peço, que o vosso amor cresça cada vez mais em conhecimento e sensibilidade, a fim de poderdes discernir o que mais convém» (Fl 1,9-10).

A preparação para o matrimónio, para a vida conjugal e familiar, poderá ser a resposta para muitos problemas sociais e eclesiais. O que parece humanamente impossível, torna-se possível com a força de Deus. A todos convido a vivermos e testemunharmos melhor aquilo que nos compete ser e testemunhar.

 

+ António Manuel Moiteiro Ramos,

Bispo de Aveiro


 

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