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XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

O texto deste domingo, que não se encontra em mais nenhum evangelista, vem na sequência dum discurso de Jesus sobre a vinda gloriosa do Filho do Homem (cf. Lc 17,20-37), e o final do texto de hoje: «Mas, quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a terra?» volta a colocar-nos nesta perspectiva. É, pois, neste enquadramento que se deve entender o texto que Lucas apresenta aos seus leitores.

A perseguição aos cristãos já tinha uma história. Primeiro foram os judeus, a começar pela perseguição do ano 34 com a morte de Estêvão que desencadeou a perseguição por Paulo. A seguir, em 44, no reinado de Herodes Antipas, este manda decapitar Tiago e lança Pedro no prisão. Paulo foi preso em Jerusalém no ano 58 para ser enviado a Roma no ano 60. A perseguição romana começou com a expulsão dos judeus feita sob as ordens de Cláudio (45 dC). Será no tempo de Nero que os cristãos, acusados injustamente de incendiar a cidade, são condenados pela justiça romana. Terão sido mil os mártires nesta primeira perseguição. Após a morte de Nero houve um período de paz de 25 anos até ao império de Domiciano (81-96). Esta segunda perseguição parece ter sido generalizada. Domiciano mandou matar a todos os descendentes da casa de David, parentes do Senhor,

Na altura em que Lucas escreve, à volta do ano 80, as comunidades da Ásia Menor cestão a sentir esta perseguição, com a obrigação de todos prestarem culto ao imperador Domiciano como a um deus. Todos aceitam esta «mania» do imperador, menos os cristãos. A situação torna-se intolerável. Tal como os hebreus no Egipto ou, mais tarde, no exílio da Babilónia, os cristãos dirigem a Deus, dia e noite, o seu «grito» de angústia. Quando virá o Senhor? Quando nos fará justiça?

O perigo do desânimo, de deixar de confiar em Deus que parece estar calado e ausente torna-se muito forte! Daí a advertência à necessidade de orar sempre, sem desfalecer na certeza duma intervenção de Deus.

Os dois personagens da parábola representam na literatura bíblica as figuras típicas do opressor e do oprimido. O juiz parece encarnar o tipo de categoria que se comporta injustamente (frequentemente criticado pelos profetas, cf. Am 5,12; Is 10,1-2; Jr 5, 28) e não respeita as leis de Ex 22,20-23 e Dt 14,28-29. Ele é caracterizado como «juiz de injustiça», ou seja, alguém que faz exactamente o contrário da sua função. A viúva encarna o pobre, o fraco, uma categoria predilecta de Lucas. Ela precisa do juiz para fazer valer os seus direitos. Porque não é escutada, recorre ao único meio à sua disposição: a insistência no pedido. A insistência da viúva devia ter causado uma irritação progressiva no juiz que resolve fazer justiça só para não a ouvir mais.

A actualização da parábola é feita pelo Senhor, termo que exprime toda a autoridade de Cristo Ressuscitado. O acento agora não é colocado na viúva mas no «juiz de injustiça». Não é estabelecido um paralelo entre Deus e o juiz, mas entre o comportamento do primeiro e do segundo. Se até o juiz de injustiça fez justiça, com muito mais razão Deus fará justiça aos seus eleitos que por Ele clamam.

Deus, mesmo aparentemente silencioso, irá fazer justiça prontamente aos que por Ele clamam e que continuam a confiar n’Ele. É esta atitude de fé perseverante e de confiança total que é necessário conservar até ao fim.

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

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