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XXX Domingo do Tempo Comum – Ano C

Breve comentário

Novamente estamos perante uma parábola que só encontramos no evangelho de Lucas, o que significa que devemos entendê-la à luz da mensagem que este evangelista pretende transmitir. Naturalmente, Lucas quer dar uma lição aos leitores das comunidades para quem escreve, talvez por causa de atitudes que precisam de ser corrigidas.

A parábola, bem ambientada ao tempo de Jesus, apresenta-nos dois personagens distintos: um homem que pertencia aos grupo dos fariseus, gente piedosa que se esforçava não só por cumprir escrupulosamente a Lei em todos os seus pormenores mas também por ensinar os outros, corrigindo e criticando, como tantas vezes fazem em relação às atitudes e palavras de Jesus.

A palavra «fariseus» em hebraico é parishim, que significa separados, no sentido de escolhidos, ou melhor, os que não querem misturar-se com o povo para não se contaminarem com as suas  impurezas. Ao tempo de Jesus eram cerca de 20 mil mas muito influentes por causa do seu estilo de vida. Várias vezes Jesus denunciou a sua hipocrisia que os levava a fazer jejuns e orações apenas para serem vistos pelos outros, confiavam em si mesmos como cumpridores da Lei e desprezavam os outros. Pelo seu cumprimento da Lei de Deus, eram olhados e consideravam-se a si mesmos como «justos». Duma maneira geral, eram admirados e até estimados pelo povo que se sentia bem longe da sua «santidade de vida».

O outro personagem aparece como o oposto: é publicano, isto é, pertence à classe dos cobradores de impostos. Odiado pelo povo porque, no exercício da sua função, cobrava muito mais do que lhe era devido. Além disso, o facto de estar ao serviço dos dominadores romanos trazia-lhes uma carga de traidores do povo e, porque o Imperador romano queria ser tratado como deus, eram desprezados como hereges e pecadores, postos à margem da sociedade, sem quaisquer direitos. Ninguém devia falar ou conviver com eles e, muito menos, entrar na sua casa ou partilhar uma refeição. Precisamente o contrário da atitude de Jesus…

O início do texto dá a chave de leitura: dirige-se a alguns que presumiam serem justos e desprezavam os outros. E facilmente percebemos, ao longo da parábola, que está em causa a diferença de atitude diante de Deus.

O fariseu, modelo de «justo», está de pé, faz uma oração para si, com ele mesmo, uma oração dirigida a ele próprio. Não mente em tudo o que diz, porque até é verdade! Considera-se «justo» diante de Deus porque cumpre tudo à risca, merecendo, por isso, o prémio. Para ele, a salvação não é um dom de Deus mas um mérito conseguido com muito esforço pessoal. O que choca é o seu desprezo para com os outros e a sua comparação com o publicano. Aqui, até a tradição rabínica distingue entre um «justo» que é bom em relação a Deus e às suas criaturas e um «justo» que é bom em relação a Deus mas não é bom com as criaturas. É o caso do fariseu da nossa parábola.

Bem diferente é a atitude e a oração do publicano. Dois gestos revelam a sua condição de grande pecador: não ousava levantar os olhos ao céu, atitude frequentemente posta em relação com a oração. No publicano denota um estado de vergonha, de confusão; batia no peito, quer como sinal de arrependimento, quer como gesto de desespero. A oração do publicano é muito concisa e recorda o início do salmo 50: ele entrega-se inteiramente à misericórdia de Deus pois nada tem para apresentar que mereça perdão.

O publicano sabe que é pecador; nem se dá ao trabalho de fazer o elenco dos seus pecados. Não tem outra escolha senão reconhecer-se como tal e implorar a misericórdia divina. Mesmo que quisesse mudar de vida, não o podia fazer: onde ia arranjar dinheiro para restituir a 120 por cento tudo o que tinha desonestamente adquirido?

O resultado final referido por Jesus representa o contrário das atitudes. Humilhar-se, rebaixar-se diante de Deus não é aviltamento ou frustração, mas a condição para se ser levantado por Ele. Querer elevar-se diante de Deus, quase colocar-se ao mesmo nível, é a condição para ser deixado entregue a si mesmo e precipitado num vazio.

Na sentença final «quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado», bem ao gosto de Lucas que a dirige aos seus leitores, como consequência da parábola, continuamos a ouvir o eco do Magnificat: «Porque olhou para humildade da sua serva… dispersou os homens de coração orgulhoso… derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes…» (Lc 1,48.51-52).

P. Franclim Pacheco

Diocese de Aveiro

 

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